                    HORIZONTES BRANCOS
                    Charles Kervern


                    Portuglia Editora


                    BIBLIOTECA DOS RAPAZES


     I - A FLECHA NEGRA, R. L. Stevenson
     II - AVENTURAS DE Um RAPAZ NAS FLORESTAS DO Amazonas,  
               Balantyne
     III - A ILHA DE CORAL, Ballantyme
     IV - O CAVALO PRETO, Anna Sewell
     V - O PIRATA, Marryat
     VI - O Rapto, R. L. Stevenson
     VII - PEDRO, PESCADOR DE BALEIAS, Ifingston
     VIII - AVENTURAS DE Tom SAWYeR, Mark Tuain
     IX - HISTRIA DUM MARINHEIRO, Marryat
     X - O LTIMO MOICANO, Fenymore Cooper
     XI - VIAGENS DE GULLIVER, J. Swift
     XII - O ROBINSON SUO, R. Wysa
     XIII - A Vida e as Aventuras de ROBINSON CRUSOE,
               Daniel Defoe
     XIV - AVENTuRAS DE HUCKLEBERRY FINN, Mark Twain
     XV - VIAGENS DE TOM SAWER, Mark Twain
     XVI - DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, Cervantes
     XVII - O CAPITO FRACASSe, Thophile Gautier
     XVIII - OS CAADORES DO ARCANSAS, Gustave Aimard
     XIX - Um Pirata de Quinze Anos, Louis Garneray
     XX - UM RApAZ S DIREITAS, Odette de Saint-Maurice
     XXI - MOBY DICK, Herman Melville
     XXII - VIAGENS, AVENTURAS E COmBATES, Louis Garneray
     XXIII - Matador de Lees,
     XXIV - OS JOVENS CAADORES DO MISSISSPI, Mayae Reid
     XXV - A ILHA DO TESOURO, R. L. Stevenson
     XXVI - FRIAS GRANDES, Odette de Saint-Maurice
     XXVII - ROBIN DOS BOSQUES, Alexandre Dumas
     XXVIII - O Co CRUSO, Ballantyne
     XXIX - SCARAmOUChE, Rafael Sabatini
     XXX - TOm BROWN NA ESCOLA, Thomas Hughes
     XXXI - OS MERCADORES DE PELES, Ballantyne
     XXXII - OS TRS MOSQuETEIROS, Alexandre Dumas
     XXXIII - BENITO CEREnO, Herman Melville
     XXXIV - HORNBLOyER ENTRA NA MARInHA, C. S. Forester
     XXXV - AMIGOS, Odette de Saint-Maurice
     XXXVI - HORIZONTES BRANCOS, Charles Kervern
     XXXVII - OS CAVALEIROS DA Tbola REDONDA



                    XXXVI HORIzoNTES BRANCOS


                    CHARLES KERVERN


  Charles Kervern, de seu verdadeiro nome Charles Belbolh,
nasceu em Landerneau, na Finisterra (Frana).
  Fez os seus estudos na Universidade de Paris, onde se
licenciou em Histria. Matricula-se depois na Marinha Mercante
e acaba o curso em 1934. Seis anos depois  nomeado chefe do
Grupo Blindado de Reconhecimento, combate na frente francesa e
 feito prisioneiro pelos alemes, com toda a sua unidade. O
seu cativeiro dura cinco anos, durante os quais tenta trs
evases, sem resultado. Finalmente, em 1945, consegue voltar a
Frana.
  Fizera-se jornalista em 1935, especializado em assuntos
martimos. O livro que hoje apresentamos  nitidamente marcado
pela sua vida aventurosa a que a guerra o Obrigou e a carreira
de jornalista: tem uma maneira muito especial, muito sua, de
tecer a trama dos seus romances, quase todos vividos no mar,
com um enredo policial inteligentemente forjado para gente
nova.


                    CHARLES KERVERN


                    HORIZONTES BRANCOS


                    ROMANCE


                    Traduo do francs


                    WANDA RUIVO


                    Ttulo original


                    LeS HORIZONS BLANCS


                    PORTUGLIA Editora


                    LISBOA



                    PEQUENO GLOSSrIO DE TErmos MARTImoS


                    QUE FIGurAM NO TEXTO



  Adernar- inclinar-se o navio para um lado at a borda chegar
 gua, provocando o risco de naufrgio.
  Adormecer-afocinhar o navio em andamento, mergulhando a proa
demasiadamente na gua e assim se conservando muito tempo, em
risco de naufrgio.
  Adria - cabo empregado em iar velas, vergas, pavilhes,
bandeiras e sinais.
  Amainar - (a vela) arriar ou apertar o pano, quando a fora
do vento faz perigar a navegao e  necessrio diminuir a
velocidade ao navio; (o vento) diz-se quando diminui a
velocidade do vento.
  Amarras - cabos empregados na manobra do navio, para ancorar
ou atracar.
  Amura - parte interior  proa de cada um dos bordos do
navio.
  Amurada - A borda interior do costado do navio em que se
fixam os cabos que seguram os mastros.
  Andar  rola - vogar sem governo, ao impulso das ondas.
  Aparelhar - aprontar o navio para largar  primeira ordem.
  Armador - proprietrio de navios.
  Armar - prover o navio de mastros; vergas, cabos,
embarcaes e todos os apetrechos necessrios para a
navegao.

  Babugem - espuma causada em volta do navio pelo seu
andamento.
  Baleeira - embarcao larga, destinada a auxiliar a faina do
navio no mar, como na pesca da baleia.
  Baleeiro - navio de grande porte, comum nos mares do Norte,
especialmente construdo e aparelhado para a pesca da baleia.
  Beliche - cama fixada em postes de madeira ou ferro, a um
canto do camarote ou da coberta, podendo ser fixada mais de
uma cama, uma sobre outra, para alojar o maior nmero de
pessoas no mesmo espao.
  Bojo - a parte mais redonda e cheia do costado do navio.
  Bolina - cabo que sustenta a vela para permitir manobr-la
conforme o vento.
  Bombordo - o lado esquerdo do navio.
  Braa - medida de comprimento, adoptada sobretudo para
calcular a profundidade da gua em que o navio se encontra.
  Bujarrona - vela da proa envergada num pequeno mastro que
sobressai da proa.

  Cebo - toda a corda de linho ou ao que se emprega na
manobra do navio ou na fixao dos mastros.
  Cabrestante - aparelho instalado no convs para a manobra de
lanar ou levantar a ncora ou iar as embarcaes de bordo.
  Calado - a parte do casco do navio mergulhada na gua.
  Camarote - quarto na parte superior do navio, que tambm
recebe o nome de cmara e de cabina.
  Canoa - pequena embarcao semelhante  baleeira, destinada
sbretudo ao servio dos oficiais de bordo.
  Castelo - parte elevada do navio, que recebe o nome de
castelo da proa, da popa (ou r) e de meia-nau, conforme o
ponto em que se encontra.
  Cavername - conjunto de cavernas do navio, que so balizas
arqueadas no interior, para fixar e consolidar o costado e o
fundo.
  Cavilha - haste de ferro ou madeira que serve para fixar
cabos.
  Chata - pequena embarcao de fundo chato, apenas com um ou
dois remos.
  Ciar - remar de forma a dar  embarcao um rumo contrrio.
  Clper - navio de vela de grande tonelagem, de formas
esguias  proa e  r, de muitos mastros e velas, condies
estas que lhe imprimem grande velocidade.
  Coberta - convs interior do navio, destinado a acomodaes
da tripulao.
  Convs - todo o pavimento ao longo do navio.
  Costado - toda a parte lateral do casco do navio.
  Coxia - espao livre que forma corredor entre as obras do
navio ou da carga arrumada.

  Desarmar - retirar todo o aparelho de manobra, como
mastarus, vergas, cabos, do navio que deixa de navegar por
qualquer motivo.
  Dri - pequena embarcao de fundo chato, curva na proa e
popa, empregado pelos navios bacalhoeiros e baleeiros para o
lanamento da linha de pesca.

  Embarcao - designao genrica das baleeiras, escaleres,
etc., transportados a bordo e destinados a pequenos servios.
  Embornal - abertura feita no convs para escoamento das
guas.
  Embricar - processo de construo que consiste na
sobreposio das chapas do costado em vez de ajust-las uma a
uma.
  Entreponte - passagem construda entre a ponte e o convs,
donde  dirigida a manobra do navio.
  Equipagem - a tripulao do navio, excepto os oficiais.
  Escaler - embarcao provida de leme, remos, mastro e vela,
para auxiliar a faina do navio em pleno mar ou outros servios
entre o navio fundeado ao largo e a terra.
  Escota - cabo usado na manobra da vela, para lhe dar a
posio mais conveniente  direco do vento.
  Estibordo - o lado direito do navio.

  Gajeiro - marinheiro de vigia na gvea.
  Gvea - conjunto de vergas, velas e mastarus num mastro.
  Giba - vela iada na bujarrona.
  Ginga - remo improvisado que, encaixado na popa de uma
pequena embarcao, serve para a impelir.
  Grumete - martimo no inicio da sue carreira; na marinha
mercante portuguesa, tem em comum a designao de moo de
convs, de bordo, de cozinha, de cmara, etc.
  Guinada - desvio sbito do navio, por erro de manobra, por
fora do mar ou por determinao do oficial de quarto.
  Gurups - pequeno mastro saliente na proa para armar vela.


                         238  239


  Ir - navio de dois mastros com vela latina, o da proa com
leve inclinao para a frente.
  Imediato - oficial de navegao logo abaixo do capito e que
o substitui no comando do navio.

  Lastro - qualquer corpo pesado que se coloca no poro ou no
fundo do navio, para lhe aumentar a estabilidade.
  Linhe de gua - linha traada na pintura do casco em toda a
volta, para marcar o ponto mximo em que o navio pode carregar
sem perigo de se afundar.
  Lugre - navio de trs mastros que usam vela latina.

  Manobra - todo o trabalho desenvolvido a bordo, quer para a
largada, quer a navegar.
  Mezena - vela do mastro da r.
  Milha - medida de superfcie que corresponde aproximadamente
a 1850 metros.

  N - medida de velocidade igual  milha horria.

  Ovm - cada um dos cabos que segura um mastro  borda do
navio.

  Pairar - flutuar no mesmo ponto, de ferro levantado, s
vezes com o motor parado ou as velas amainadas.
  Pau de carga - mastro semelhante a um guindaste, preso a
outro mastro do navio, destinado  manobra de carga e descarga
do poro.
  Pavilho - a bandeira do navio iada no mastro da mezena;
tambm a insgnia do armador iada no topo do mesmo mastro.
  Pol - roldana que serre para ligar e fazer correr os cabos.
  Ponte - passagem na parte mais elevada do navio onde se
encontram as dependncias reservadas ao comando.
  Pr de capa - amainar o pano e dar ao navio uma posio que
o faa receber a vaga pela amura a fim de resistir a um
temporal.

  Quilha - pea de madeira no fundo do navio, no sentido do
comprimento, para fixao do cavername.

  Rebentao - ondas que se chocam, ou com as rochas, ou com a
areia, e se desfazem em espuma, quando o mar est agitado.
  Roda da proa - pea de madeira ou-ferro que fecha com a
quilha a construo do navio  proa.
  Roda de leme - roda de madeira para facilitar a manobra do
leme.
  Rota - percurso que faz o navio; derrota.
  Sereia - Aparelho do navio, instalado na chamin, para a
emisso de sinais sonoros.

  Socar um cabo - estic-lo fortemente.

  Telgrafo de bordo - aparelho instalado na ponte do comando,
em ligao directa com a casa da mquina, para transmitir
ordens sobre a velocidade a dar  mquina.
  Timoneiro - marinheiro encarregado de manobrar e leme.
  Tolda - espao do convs  popa, reservado aos oficiais do
navio e convidados de honra.
  Toleteira - abertura semicircular na borda da embarcao, na
qual giram os remos.
  Travs - cada um dos lados do navio, para suspender, iar ou
arriar as embaraes de bordo.



                               I


     GALTIER engolia a sopa em silncio; de quando em quando
fitava furtivamente o jovem sentado  mesa, na sua frente e
cujos olhos tristes erravam com lassido sobre as paredes da
sala.
  - Ento, meu rapaz, no comes?
  - No tenho fome.
  - De que te serve amuares por o Altayr ter sido vendido,
Joo Pedro? Bem sei que era um bom iate; mas que farias dele
aqui, numa cidade interior onde no h mais que uma ribeira
que corre com bastante dificuldade?
  - T-lo-amos, ao menos, para as frias.
  - Tiago tem poucas frias naquele emprego de jornalista. 
preciso mais de uma semana para armar a lancha, outra para a
desarmar. No ficaria tempo para navegar. Isso era bom quando
viviam os dois  beira-mar,* mas em Rennes,


     * Ver, do mesmo autor, Rumo: Norte, 88 Este.


                               9


onde meterias o teu veleiro de nove metros com os seus dois
metros de calado?
  Joo Pedro tinha cruzado os braos sobre a mesa e apoiado o
queixo na mo. Dir-se-ia um aluno teimoso, recusando
obstinadamente admitir as admoestaes do professor.
  - Sinto raiva - disse ele. - mais do que raiva por viver
numa cidade. Tenho vontade de passar por cima de tudo e
embarcar como grumete em qualquer barco; mesmo que fosse um
barco velho, estaria melhor do que aqui.
  - No,  preciso no fazer isso, garoto, no estaria bem.
Jacques Biard recolheu-te porque eras orfo; o teu pai
afogou-se ao querer salvar o dele e j no tinhas me. H sete
anos que se ocupa de ti como de um irmo, seria mal feito
partires. Ele no era obrigado a educar-te, h orfanatos para
isso.  preciso ver que tem apenas vinte e cinco anos e teria
podido guardar o seu dinheiro para se distrair em vez de te
alimentar, vestir e pagar-te os estudos.  sorte teres aquele
rapaz como tutor. Vai mandar fazer uma casa com jardim, nos
arredores. Com a tua idade, ter-me-ia sentido feliz assim.
  - Eu sei tudo o que Tiago tem feito por mim, Galtier, e
gosto muito dele. Por vezes quando reflicto no meu desejo de
partir apesar de tudo, acho que sou um tipo sujo,


                              10


sem vontade e que  mal feito ter ideias assim. Asseguro-te
que j tentei no pensar mais no mar mas no sei o que se
passa em mim; o desejo de embarcar invade-me constantemente.
Quanto mais isto aumenta, mais me desagrada estar aqui. No
sei porqu. Aborreo-me de tudo, de toda a gente, mesmo de
mim. Tu sentes-te bem na cidade?
  - Claro, a mim tambm me agradaria mais estar a bordo de um
barco qualquer. O meu ofcio foi sempre o de marinheiro e no
arrastar pedras e cimento para construir barracas.
  - Se tu pedisses a Tiago, talvez ele me deixasse embarcar
contigo?
  - Tiago nunca te deixaria partir assim, rapaz. s demasiado
novo, ainda no acabaste de aprender. Hoje uma pessoa no se
torna capito a passear sobre as guas.  preciso antes
estudar uma poro de coisas nos livros.
  - Mas se fosses tu a propor, talvez ele quisesse.
  - Eu no lho perguntaria, no era honesto  
e alm disso ainda no lhe paguei o que lhe devo. Tiago tem-me
com ele desde o meu julgamento em Assises.
  - No foste condenado.


                              11


  - Quer dizer, deram-me a suspenso porque eu tinha
circunstncias atenuantes, como eles dizem; mesmo assim,
apanhei dez anos.
  - No tinhas feito nada de mal, a culpa no era tua.
  - Vai dizer isso a um patro! Vai-lhe dizer que mataste
algum mas que no foi por tua culpa. vai explicar a um patro
que ests inocente quando o teu livrete mostra uma condenao
de dez anos de priso. Ele nem repara se tiveste uma
suspenso! V a pena, pensa que s um condenado, diz-te at 
vista e obrigado. Tiago manteve a swa confiana em mim,
esforou-se para me encontrar um emprego de pedreiro na
empresa que lhe constri a casa; ficarei com ele at que
esteja pronta, um ano, dois, se for preciso. Devo-lhe isso.
Foi ele que me livrou dos bandidos com quem eu estava
embrulhado. Estendeu-me a mo para tirar-me de l. Dar-lhe-ei
todo o dinheiro que ganhar aqui. Tu sabes que uma casa custa
caro; o preo do AltaYr no chegar.
  - Sim, eu sei. Mas depois partirs - respondeu Joo Pedro -,
retomars o servio num cargueiro ou num barco de pesca. Mas
eu, eu ficarei aqui, na cidade, a estudar. Acabaram, para mim,
o mar e a navegao!


                              12


  - Acabaram o mar e a navegao! So os velhotes que dizem
isso aos sessenta, setenta anos. tu tens apenas catorze e
sabes poucas coisas ainda.
  - Sei muitas.
  - Sei muitas, sei muitas. - replicou Galtier aborrecido. -
Pensas de mais e farias melhor em no pensar tanto em tudo
isso. Vamos! Por agora chega, come o teu jantar, oio Tiago
que a vem; no vale a pena mostrar-lhe uma cara de pau.
Tambm ele sente um peso no corao, por j no habitar na
costa e ter sido obrigado a vender o seu clper. Disso podes
tu estar certo. Somente - acrescentou como uma desculpa, - 
um homem e no o mostra. Acredita em mim, pequeno, no vs
aumentar os seus desgostos.
  Tiago tirou o chapu, atirou-o negligentemente para cima do
div e foi sentar-se  mesa. Desdobrou o guardanapo e comeou
a comer. Joo Pedro e Galtier no tinham pronunciado uma
palavra.
  - Com mil diabos! Voltaram os dois de um enterro ou esto
doentes do fgado?
  Joo Pedro no respondeu. Levantou-se, abandonou a mesa e
dirigiu-se para a porta.

                              13


  - Onde vais? - perguntou-lhe Tiago.
  - Para o meu quarto.
  - No comes?
  - No, obrigado, no tenho fome.
  Tiago ficou a v-lo ir-se embora sem dizer nada.
  Quando deixou de ouvir o rudo dos passos no corredor,
confiou a Galtier:
  - H trs meses que isto dura. J tentei tudo. Tudo falhou.
Castigos, gracejos, doura, remdios. O mdico afirma-me que
ele no tem nada. De qualquer maneira, no  s a venda do
Altayr que o pe assim.
  - Tentei cham-lo  razo - explicou Galtier -, mas no ouve
nada. Segue a sua ideia. Quanto a mim, no  somente o barco
que lhe falta:  o mar. Viveu sempre perto do mar e a terra
no lhe agrada.
  Tiago traduziu a sua impotncia por um encolher os ombros e
continuou a refeio.
  Servia-se maquinalmente, comia com rapidez como algum
apressado ou preocupado com um assunto grave.
  Bruscamente, tirou o guardanapo dos joelhos e colocou-o,
desdobrado, sobre a mesa.
  - Crs realmente que  o mar, Galtier?
  Talvez tenhas razo.

                              14


  - Que outra coisa poderia ser? Uma vez que o mdico diz que
no est doente. Tambm no  porque seja mau rapaz. No 
nada preguioso, por exemplo;  mesmo um belo rapazinho.
  - Acabas de me sugerir uma ideia, meu velho; vou
experimentar para ver o que d.
  Tiago subiu lentamente a escada e foi sentar-se numa
cadeira, perto da cama onde o garoto se tinha estendido.
  -  preciso que te decidas a dizer-me, francamente, o que 
que no est bem, meu pequeno. Sabes como eu gosto de ti, Joo
Pedro, e, quando te ralho ou aborreo, isso nunca me d
prazer. Tenho agido como o faria, seguramente, o teu pai ou um
irmo mais velho. J ests bastante crescido para compreender
que, na vida, nem sempre se pode fazer o que se quer. Tambm
eu gostava muito do AltaYr. Foi necessrio vend-lo, 
lamentvel, penoso, eu compreendo; mas mesmo assim no posso
crer que seja este sacrifcio indispensvel que te pe nesse
estado. H bastante tempo que j no nos entendemos os dois.
Realmente,  s porque o Altayr foi vendido?
  - Creio que  s isso, Tiago, mas tambm estou farto de
viver na cidade, estou farto de trabalhar, estou farto de
tudo. Quero partir daqui.

                              15


  - Mas partir para onde? Isso  preguia, fadiga ou j no
queres viver comigo?
  - Quero, sim, pelo contrrio. No sei, no compreendo.  uma
grande tristeza que me invade. No fao de propsito,
asseguro-te
mas lembro-me constantemente do rudo das vagas, do grito das
gaivotas e, quando isso me acontece no consigo estudar, no
tenho fome,  
apetece-me chorar ou morrer. Ento quero partir, voltar para a
costa. Tudo o que me dizem  igual; mas deixa-me, no te
inquietes, talvez isto acabe por passar. Vou tentar
modificar-me, prometo-te.
  Tiago observou longamente o rosto do rapaz. Nem um claro de
atrevimento no olhar; uns olhos francos, uma fronte
atormentada, os lbios cerrados. Galtier tinha visto bem. No
era capricho, nem m vontade, e ainda menos maldade. Joo
Pedro sofria dessa doena que mata lentamente certos seres
sensveis e que nenhum medicamento pode curar.
  Sentia saudade, nostalgia. Faltava um elemento ao seu
equilbrio: o mar,  beira do qual nascera, onde patinhara
como um alcatraz  procura de palurdas, camares, peixes e
conchas, deixados nas poas de gua pela descida da mar; o
mar onde aprendera a gingar em qualquer chata molhada,

                              16


no porto; o mar sobre o qual navegara com o Altayr, ao longo
das costas recortadas da Bretanha, com tempo ensoalheirado ou
rude, e depois, no mar alto, a bordo do cargueiro Antina, em
companhia de Tiago e de Galtier.
  Agora o mar faltava-lhe como uma vitamina indispensvel ao
seu organismo de filho de martimo, de uma linhagem de
marinheiros. Faltava-lhe o horizonte sem fim, os aspectos
sempre diferentes do Oceano, o movimento das ondas
quebrando-se sobre a areia e retirando-se com um sussurro
vivo. Faltava-Lhe aquele blsamo cinzento e hmido de eflvios
salinos e iodados, necessrio aos seus pulmes de filho da
beira-mar.
  Era tudo isso o que um instinto imperioso o empurrava a
procurar, custasse o que custasse, como uma ave migratria que
se obstina em alcanar os pases do Norte e prossegue a sua
viagem, qualquer que seja o tempo, qualquer que seja o vento,
certo de que no haver para ela salvao, excepto naquela
regio para a qual se sente irresistivelmente atrada.
  Tiago continuava a observar Joo Pedro sem dizer nada.
Descobrira o mal e procurava agora a melhor maneira de
administrar o remdio que tinha imaginado.

                              17


  - Pois bem! Levanta-te, rapaz - disse finalmente. - vai
sentar-te  minha secretria, procura uma folha de papel de
carta, uma caneta, e espera por mim, eu j vou.
  Tiago abriu o armrio, tirou uma agenda, folheou-a, anotou
uma morada e foi ter com Joo Pedro.
  - V! escreve:  esquerda, Rennes e a data;  direita
Comandante Kermeur, Director da Companhia de Navegao N. V.
S. - Narvik, Noruega.
  - Escrevo ao comandante Kermeur? - perguntou o rapaz,
interessado.
  - Sim.
  - Porqu?
  - J vais ver. Escreve l, no meio da pgina:

  Caro Comandante

  A cidade onde vivo  grande e bem construda; mas sinto-me
muito infeliz porque fica longe do mar e j no posso ir
pescar nos rochedos, nem correr descalo sobre as grandes
extenses de areia molhada; j no oio os alcatrazes
cinzentos chiarem ao vento.
  O senhor sabe que Tiago foi obrigado a vendr o Altayr, o
iate de nove metros de que eu gostava tanto. Foi-Lhe preciso
para pagar a casa que tinha mandado construir.

                              18


J no temos barco, nem mesmo a chata, as frias grandes esto
prximas e eu vou aborrecer-me durante trs meses...
  Por acaso no teria um emprego de grumete, para mim, num dos
seus cargueiros, durante o Vero?...

  - Oh! Sim, estupendo!  uma ideia formidvel! Tanto mais que
as frias vo comear em Junho por causa da construo dos
novos edifcios da escola.
  - Vamos, continua.
  - No vale a pena, agora sei o que escrever, vou-Lhe pedir
tambm para ti e para Galtier...
  Joo Pedro saltou da cadeira e gritou na escada:
  - Galtier! sobe, estou a escrever ao capito Kermeur! Vou
pedir-lhe para me embarcar durante as frias grandes. Digo-Lhe
tambm para te embarcar a ti e a Tiago.
  - Vais demasiado depressa - replicou este -, no estou certo
de obter licena nessa data.
  - Oh! sim; tenta, seria estupendo. Tu achas que h imensas
reportagens a fazer na Noruega. E depois veremos isso, eu vou
pedindo.

                              19


  O rapaz voltou para a cadeira e aplicou-se a escrever.
  Por momentos, deixava a caneta e esfregava as mos
repetindo:
  - Oh! Inspirao!
  Galtier olhou-o e depois seguiu Tiago que acabava de entrar
no quarto.
  - Creio que encontrou o que lhe faltava. Agora, com aquilo
na cabea, vai recompor-se depressa. E depois, no  m ideia.
E se houvesse lugar para mim a bordo de um dos botes do tio
Kermeur, isso no seria para recusar. Agradava-me mais o mar
que fazer de amassador de cimento.
  - Falta ainda que o comandante Kermeur aceite.
  - Na minha opinio  coisa feita. No  o velho, tal como o
conheo, que vai recusar isso ao pequeno; sobretudo, se lhe
explicar que ele no anda bem e que no  preguia, nem
fantasia, mas a saudade que o ri.
  Quando terminou a carta, Tiago releu-a e, segurando o queixo
de Joo Pedro entre o polegar e o indicador, disse:
  - Vou p-la esta noite no correio, mas no quero mais ver-te
com esse ar de condenado  morte e exijo que o teu trabalho na
escola volte ao normal. Creio que boa disposio  a divisa

                              20


do teu clube, ento, boa disposio! e bom trabalho! So as
duas condies essenciais para a minha aceitao e ser sem
apelo. Previno-te de que no haver ordem em contrrio! Est
compreendido?
  - Farei o meu trabalho! - respondeu Joo Pedro, encantado,
depois, admirando-se da transformao sbita que se tinha
operado nele -,  engraado, j no estou triste e creio mesmo
que tenho fome.
  Expontaneamente, saltou ao pescoo de Tiago e abraou-o com
ardor.


                              21


                              II


      beira do cais, sentado no seu saco de marinheiro, Joo
Pedro olhava para os grandes guindastes que levantavam, nas
redes de sisal, cachos de fardos que se balanavam por cima da
sua cabea e desciam lentamente para os pores do cargueiro.
  Em frente, um pequeno rebocador bojudo, com a chamin e a
tolda mesmo ao nvel da gua, esforava-se por puxar uma
lancha carregada de carvo. Atrs, a hlice fazia borbulhar a
gua lamacenta do Gironda.
  Muito prximo - pod-lo-ia tocar com a mo - encontrava-se o
cabo de ao do Frami, esticado como uma corda de violino.
Amanh, ao romper da aurora, ser largado e o cargueiro
deixar Bordus, a caminho da Noruega.
  Joo Pedro tinha vontade de subir a bordo; mas era preciso
esperar por Galtier e Tiago, que andavam a fazer compras na
cidade.

                              23


  - Ento, pequeno, agrada-te este bote? - perguntou Galtier
colocando o seu saco perto do de Joo Pedro.
  - Trazes roupa nova! - notou o rapaz, contemplando com
admirao a camisola de l azul de gola alta e as calas de
pano do marinheiro.
  - Mais nova do que este ponto, com certeza! - resmungou
Galtier. - Mas creio que a qualidade no  melhor. As costuras
j esgararam debaixo dos braos. Aqui s tm vesturio para
raquticos. No armazm, a mulherzinha andava  minha volta
como se eu fosse um animal estranho. "- Me Santssima! -
dizia ela -, mas este senhor tem um arcaboio de hipoptamo!!!
Nunca terei um tamanho que lhe sirva, meu filho!!!" Acabou por
me vender esta camisola, estala por todos os lados. No havia
outra. As calas esto melhores mas pouco mais. Sinto-me
apertado c dentro.
  Galtier tirou a bolsa do tabaco e ps-se a enrolar um
cigarro, os olhos fixos no navio que estava atracado ao cais.
  - Bem! No sei se te agrada; mas a meu ver no vale o peso
da sucata, este tamanco!
  Deve ter bem uns cinquenta anos e foi construdo por
piratas!

                              24


  Joo Pedro, decepcionado, olhou com ateno para o
cargueiro, procurando descobrir-lhe  os defeitos. Nada o
chocava particularmente.
  - Parece bem - disse. - No achas?
  - Bom! No s exigente! Olha-me para essa linha de gua!
Levanta a garupa como se fosse um cavalo de tiro. A proa
adormece debaixo de gua, a popa est no ar. E no tem bojo, 
estreito como um sapato de mulher. Digo-te que ele vai danar
estpidamente e meter o nariz na babugem quando houver um
pouco de ondulao. Enfim, estamos em Junho e no costuma
haver muito mau tempo no mar, nesta altura do ano; mas sempre
te digo que quem fez esta sucata no devia ter posto muitas
vezes os ps num barco.
  - Quando estiver carregado, aguenta-se melhor - disse Joo
Pedro, que queria mostrar saber, pelo menos, o papel
desempenhado pelo lastro.
  - Sim, de acordo, se no meter gua. Reparaste? No so
chapas soldadas, como se faz agora, mas placas embricadas. No
 mau quando est novo, somente, com o uso,  o diabo, a gua
entra como em sua casa. Olha! A vem Tiago, teve mais sorte
que eu, encontrou fato para o seu tamanho.

                              25


  - No tem boa cara, o nosso transatlntico, hem! - gritou
Tiago na direco de Galtier.
  - Era o que eu estava a dizer ao Joo Pedro. Se toda a frota
do pai Kermeur  deste modelo, no tem de que estar orgulhoso.
  - Contanto que nos leve a Narvik,  tudo o que se lhe pede -
replicou Tiago. - Venham a bordo! Vamos apresentar-nos ao
patro.
  O capito Mercier estava encostado  amurada, a falar com um
senhor muito idoso.
  A pouca distncia, uma rapariguinha de cabelos castanhos,
curtos e frisados, vestida com uma blusa de marinheiro e umas
calas, acariciava um soberbo co de plo branco e arruivado.
  O oficial dirigiu-se para os recm-chegados.
  - Creio que so os amigos do comandante Kermeur, director da
nossa Companhia.
  - Sim, comandante, e agradecemos-lhes muito o ter querido
tomar-nos a bordo at Narvik - respondeu Tiago.
  - Kermeur disse-me que j navegaram todos trs. , sem
dvida, Tiago Biard, antigo tenente de longo curso, hoje
jornalista?
  - Exactamente.

                              26


  - No sei que gnero de reportagem poder fazer neste pobre
velho Frami, mas visto que obteve uma licena do seu jornal
para esse fim, estar a bordo como em sua casa. O seu
alojamento   popa; um marinheiro vai indicar-Lho
imediatamente. Espero que se sinta a suficientemente
tranquilo para escrever. O senhor  Carrier, Callier?
  - Galtier, comandante.
  - Antigo arpoador baleeiro, no  verdade?
  - Sim, comandante.
  - E Joo Pedro  um grumete prometedor, ao que parece. Muito
bem! Galtier e Joo Pedro partilharo a mesma cabina  proa.
Talvez no fiquem alojados muito confortavelmente. Peo-lhes
desculpa. O espao  pouco, neste barco. Nesta viagem, levo
igualmente uma parte da minha famlia: a minha filha Mnica,
que passou um ms em casa dos avs, em Bordus, e o meu sogro,
oficial aposentado da Marinha Nacional, que quis acompanhar a
neta  Noruega para ver como ficamos l instalados. Mone! Vem
cumprimentar, se fazes favor.
  A rapariguinha acorreu, colocou-se em frente do grupo e
estendeu a mo a Tiago, a Galtier e a Joo Pedro, repetindo de
cada vez, sem a menor timidez: "Mnica Mercier. Mnica
Mercier. Mnica Mercier".

                              27


  Como Joo Pedro no dissesse o seu nome,  perguntou-lhe:
  - E tu? como te chamas?
  - Joo Pedro.
  A rapariguinha voltou-se, assobiou por entre os dedos e logo
o co acorreu.
  - Este  o Loux - disse a Joo Pedro -, um husky.  mais
forte que um homem.
  - Penso que estes trs faro um bom grupo - disse o
comandante Mercier designando Mnica, Joo Pedro e o co. -
Loux  muito dil com as crianas.
  -  um animal explndido - notou Tiago.
  - Um co do Grande Norte - replicou o comandante Mercier. -
Um marinheiro apanhou-o, uma vez, na Gronelndia e deu-o de
presente  minha filha. Desde ento tornou-se o seu
companheiro inseparvel. A bordo  uma segurana, tira-lhe um
homem da gua como um pointer faria a uma raposa ou a uma
cerceta (1).
  O capito chamou um marinheiro que caminhava ao longo da
coxia.
  - Julio, conduz o Sr. Biard ao camarote nmero quatro.
  - Eu vou levar Joo Pedro e o Sr. Galtier, Av



  *1 palmpede menor que um pato.


                              28


A sua cabina fica ao lado da minha - props Mnica,
encaminhando-se para a proa num passo decidido com Loux atrs.
  S Galtier se aborrecia a bordo do Frami; vagueava pelas
coxias, desocupado, esperando pacientemente a noite. Viam-no
encostado  amurada durante horas, os olhos perscrutando ao
longe. Por vezes, parecia auscultar o navio como um fiscal do
Bureau Vritas, examinando com ateno os mnimos pormenores.
  Tiago escrevia ou lia durante todo o dia; apenas o viam na
ponte um momento ou outro, na coberta, em companhia do
comandante Mercier ou conversando com o capito de navios de
linha, o av de Mnica, que Lhe contava as suas recordaes do
mar.
  Joo Pedro, Mone e Loux formavam um trio de bons amigos.
  Aquele velho barco, com os seus escaninhos, o convs
estreito, as mltiplas escadas, as pontes sobrepostas,
tornava-se excelente para jogar s escondidas.
  Primeiro, Joo Pedro fabricou um papagaio feito com duas
tabunhas em forma de cruz,  Um cordel atava as extremidades


                              29


e Mone tinha cosido com cuidado, sobre esta carcassa, um
pedao de tecido.
  Munido duma cauda bem amarrada no ponto de equilbrio, o
engenho subia, com a fora do vento na ponta duma linha,
roubada pela filha do comandante na cmara de navegao.
Quando o papagaio, baptizado com o nome de Cometa, atingia a
sua altura mxima, enviavam-lhe mensagens: papis recortados
em forma de cone, ajustados sobre um pequeno cilindro de
carto que deslizava pela linha. O vento empurrava o papel, ao
longo do fio, at ao papagaio.
  A arte consistia em fazer mensagens rpidas e as duas
crianas apaixonavam-se a descobrir a melhor forma possvel de
o conseguir.
  Uma manh, Mnica chegou triunfante  cabina de Joo Pedro.
  - Joo Pedro! Vem ver. O cozinheiro deu-me um rato vivo que
apanhou numa ratoeira.
  Sabes o que lhe vamos fazer?
  - No.
  - Vamos construir uma gaiola com uma lata de conserva e
prend-la ao papagaio.
  - Oh sim,  uma ideia! Mas temos de fazer buracos para ele
poder respirar e chumaos de l para que no se fira. Espera,
vou tratar da barquinha e tu arranjars o interior.


                              30


  Joo Pedro crivava de buracos de arejamento uma caixa de
folha, quando Mnica foi ter com ele  ponte superior. Estava
sem flego por ter corrido.
  - Olha, Joo Pedro, encontrei num caixote uma velha linha de
pesca, v o comprimento! Deve ter mais de um quilmetro!...
  - Huuuuuut! Isso  um achado! Com esse cordo, o animalzinho
vai fazer uma viagem interplanetria.
  O lanamento foi movimentado. Loux tinha sentido na caixa um
cheiro atraente. Enquanto os jovens donos a tiveram na mo,
manteve-se  distncia, como um co disciplinado; mas logo que
o papagaio foi atirado, saltava ladrando, querendo apanhar a
barquinha que voava. Conseguiu agarrar a cauda do papagaio e
provocaria uma catstrofe se Mone no tivesse intervido a
tempo.
  O Cometa, liberto, descreveu uma srie de ziguezagues. Joo
Pedro restabelecia o equilbrio puxando e largando
alternadamente o fio.
  - Despacha-te! d-lhe corda, vai ser asfixiado pelo fumo da
chamin. J est, j est, bravo! Oh, ateno  antena da T.
S. F.
  Havia uns dez minutos que a caixinha se balanava a uns
cinquenta metros acima do nvel do mar, evolucionando ao sabor


                              31


dos arabescos fantasistas descritos pelo papagaio, quando
Pascal, o mestre da equipagem, chegou  ponte superior.
  Baixou-se, apanhou um dos cabos que se arrastava pelo cho e
apalpou-o entre o polegar e o indicador.
  - Demnios! so as adrias do pavilho!
  Aproximou-se de Joo Pedro e, vendo a bobina que ele
desenrolava tranquilamente.
  - Com mil diabos! a linha de sonda! Donde  que tiraram
isso, midos?
  -  uma velha linha de pesca que j no servia para mais
nada - afirmou Mone com convico.
  - Linha de pesca! Quem te disse que era uma linha de pesca,
garota?
  - Tinha um chumbo na ponta e no tinha anzol.
  - Pois muito bem! Para o futuro, trata de no tocar em linha
de pesca como esta, ou terei que contar ao capito e a coisa
pe-se feia!
  Vamos! Zarpem da e vo a todo o pano procurar o chumbo da
sonda para eu o atar outra vez.
  Pascal puxou, com grandes braadas, a amarra do papagaio,
que dava guinadas  esquerda e  direita, acabando por pousar
na gua. Enquanto puxava a linha, ia repetindo:


                              32


"-Ah! Eu vos darei as linhas de pesca!..." - Joo Pedro e Mone
olhavam, com despeito e uma ponta de tristeza, para a caixinha
de folha que se desprendia do papagaio desmantelado, andou
alguns metros  deriva, e depois soobrou com o seu infeliz
passageiro.
  Pascal foi discreto e o assunto do papagaio no teve
continuao. Por outro lado, no dia seguinte, Mone e Joo
Pedro descobriram outro jogo.
  Um deles ia-se esconder e o outro, ajudado por Loux,
esforava-se por descobri-lo num tempo determinado.
  Joo Pedro, sobretudo, tinha artes de ndio para enganar o
faro do co: pitadas de pimenta, diversos objectos dispostos
em falsas pistas, os ps envolvidos em trapos, passagens
franqueadas com a ajuda de linhas.
  Mone, que detestava perder, saltava como um blide.
  - Busca, Loux! Busca, busca! Ali! Ali!... Vamos, vamos,
despacha-te!... despacha-te!...
  A cauda em pluma, o nariz no cho, Loux no precisava de que
o escitassem. Esta caa difcil apaixonava-o.


                              33


  Saltava da ponte superior, corria pelo convs, atirava-se de
escantilho pelas escadas, de lngua fora da boca. Tanto pior
se um marinheiro se encontrava no seu caminho. No tinha
nenhuma delicadeza, nem um olhar para os objectos mal
equilibrados. Sobretudo a roupa.
  Ah! a roupa a secar! a cabea enfiava-se-lhe dentro, as
patas raspavam por cima. Camisolas, calas, camisas,
encontravam-se pela tolda num estado lastimvel.
  Nada mais contava que os dez minutos convencionados e o
amigo de duas patas em frente do qual se tratava de ficar
parado. Quando triunfava - o que era o mais frequente -
tentava exprimi-lo com pequenos latidos agudos e os olhos
brilhantes de satisfao:
  - Viste. Agarrei-te, hem! Como um rato!...
  Duma maneira geral, a equipagem divertia-se com essas
perseguies movimentadas, que constituam uma distraco
inesperada no decorrer dessa longa e montona viagem. Por
vezes mesmo, aconselhavam o perseguido ou tentavam enganar os
perseguidores.
  Somente um marinheiro, chamado Celton, no apreciava esta
cavalgada. O rudo dos passos precipitados, os latidos por
cima da cmara, irritavam-no. A desenvoltura do co


                              34


enraivecia-o particularmente. No perdia ocasio de lhe atirar
um pontap aos flancos ou de o castigar com a ajuda dum pau
que tinha desencantado sabe Deus onde. e que escondia para
esse fim debaixo do colcho do beliche.  certo que Loux, como
que de propsito, j tinha sujado duas vezes a sua roupa, que
secava numa corda ao p do pau de carga.
  Numa tarde em que o co tinha vindo a ladrar ao encontro dos
seus dois amiguinhos, Mone e Joo Pedro notaram que tinha uma
ferida na coxa.
  - Foi o rabugento que te fez isso, meu pobre Lulu? -
disse-lhe Mone. -  um estupido.
  - Vou lavar-lhe a ferida, isto no  profundo - declarou
Joo Pedro depois de ter examinado a pata como o teria feito
um veterinrio.
  Foi nessa tarde que, muito secretamente, Joo Pedro e Mone
elaboraram um diablico plano de represlias contra o
rabugento Celton.
  Houve murmrios de vozes na noite, ps descalos a pisarem
sem rudo as pranchas de carvalho da ponte, puxadores de
portas abrindo-se e fechando-se com uma suavidade fora do
habitual, fantasmas circulando na sombra, dissimulando-se 
passagem do homem de quarto.


                              35


  Por vezes, encontravam-se lado a lado duas cabeas, e,
baixinho, muito baixinho.
  - Isso vai bem, Mone?
  - No, no consigo atar o cabo.
  - Espera, eu encarrego-me disso, fica a e agita um leno se
vier algum.
  Uma hora depois, Joo Pedro esgueirava-se para a sua cabina
e Mone, caminhando ao longo dos quartos, alcanava a sua.
  - Isto vai s mil maravilhas! Est l s seis horas em
ponto, amanh de manh. Entendido?
  - Entendido!


                              36




                                 III


     ESTENDIDOS na coberta, os dois conjurados esperavam que o
navio acordasse.
  O ar fresco da manh dava-lhes arrepios; mas que importava.
Ficaram ali, estendidos em cima das tbuas cobertas de geada,
sem fazer o menor rudo, os olhos pregados na entrada da
cmara da tripulao.
  Loux no compreendia nada destes estranhos manejos. Onde
diabo queriam chegar os jovens donos?
  Logo, ao nascer do dia, tinham-lhe vestido umas calas de
pano, que Lhe prendiam a cauda e as patas traseiras, e uma
camisola de l em cujas mangas lhe enfiaram as patas da
frente. Um cinto, o mais incomodativo possvel, ajeitava-lhe a
roupa em volta dos rins.
  O pior era esse bon de tela, preso em cima da cabea com o
auxlio dum elstico; arrepanhava-lhe os plos do pescoo a
cada movimento.


                              37


  Nunca a brincadeira tinha sido to desagradvel para ele,
nem to desesperadamente inactiva.
  No entanto, uma coisa era clara para o seu rudimentar
crebro de co; o seu papel devia ser capital, porque Mone
dava-lhe, a intervalos regulares, pedaos de peixe fermentado
cujo odor atraente aniquilava nele, imediatamente, qualquer
ideia que no fosse a de devorar glutonamente aqueles pitus
escolhidos.
  Sim, as funes que lhe reservavam seriam certamente de
primeiro plano, porque sem isso a dona no lhe teria reservado
to grande quantidade daquele petisco, que fazia estremecer de
apetite o seu robusto estmago de co esquim.
  Havia perto de duas horas que Loux esperava, o olho vivo, o
nariz procurando avaliar a cada eflvio a quantidade de peixe
contido no embrulho de Mone, a boca semiaberta, pronta para
engolir sem mastigar, aquele delicioso alimento.
  Mas eis que Joo Pdro se volta para Mnica e lhe fala
rapidamente, com gestos dissimulados. Geralmente, isso indica
que os amigos decidiram qualquer coisa divertida.

                              38


  A hora da aco deve aproximar-se e o husky levanta as
orelhas, pronto para manter-se dignamente no seu posto.
  Com efeito, Celton acabava de sair da cmara. Subia agora,
sem se apressar, a escada que dava acesso ao castelo da proa,
onde a sua roupa estava a secar.
  - Segura bem o cabo, Mone, ateno!... - murmurou-lhe Joo
Pedro, ao ouvido.
  No momento em que o marinheiro estendia a mo para apanhar a
roupa, viu-a passar bruscamente por cima da sua cabea.
  Foram-lhe precisos alguns segundos para perceber o que se
passava. Joo Pedro e Mnica torciam-se a rir... Tornaram a
descer lentamente o aparelho, largando a corda.
  Pela segunda vez, o marinheiro tentou apanhar as suas coisas
mas as camisas, cuecas e camisolas tornaram a fugir. Celton,
furioso, veio ento at ao p do pau de carga, seguindo com o
olhar o percurso do cabo, que terminava na ponte superior, e
compreendeu a farsa.
  - Danados midos! - resmungou -, J lhes vou mostrar como
elas mordem! Esperem que eu l chegue...
  - J est, Mone, eis o rabugento a rabiar, anda depressa!
anda depressa!

                              39


  A rapariguinha despejou, duma s vez, um verdadeiro monte de
peixes em decomposio sob o focinho estupefacto de Loux,
enquanto Joo Pedro amarrava  coleira do animal a ponta do
fio.
  - Vamos! mexe-te! mexe-te! - repetia o rapaz.
  Empurrou Mnica e desapareceram os dois a correr.
  Loux estava entregue ao seu festim de rei quando Celton
apareceu na ponte superior. Dois pares de olhos castanhos,
cheios de malcia, espiavam silenciosamente a cena.
  O marinheiro ficou paralisado no cimo da escada. Esperava
to pouco por este encontro que no sabia que atitude tomar;
mas a clera subia.
  - Com mil demnios! So os meus fatos que ele tem s costas,
este porco deste animal! A minha camisola, as minhas calas, o
meu bon. Ah!  preciso que isto acabe, este carnaval! 
preciso que isto acabe, meus rapazinhos!...
  Loux no compreendeu muito bem a ameaa; mas percebendo que
Celton no gostava dele, convenceu-se de que o homem Lhe vinha
disputar o alimento. Havia ainda uma boa quantidade de peixe,
do qual ele no teria cedido uma migalha a uma matilha de
lobos esfomeados. Assim, sob o bon de tela, as suas plpebras
de fendas estreitas de co husky deixaram passar clares

                              40


ferozes, os beios tremeram por cima de duas fiadas de pontas
aguadas e emitiu um rosnar surdo e contnuo, que obrigou
Celton a bater em retirada.
  Ouvindo risos abafados, o marinheiro, vexado, disse em voz
suficientemente alta para ser ouvida por Joo Pedro e Mnica,
que adivinhava escondidos em qualquer canto:
  - Ah! Querem zombar do Celton, meus patifes. Esperem pela
resposta! Esperem para ver. Eu vou acariciar as costas do
vosso lulu que deixar de ter vontade de se disfarar,
acreditem-me, e vocs tambm deixaro de rir por muito
tempo!... Esperem para ver quem vai ganhar a partida!
  Celton agarrou-se ao corrimo, galgou a escada e correu at
ao camarote por onde enfiou como um p de vento. Com gestos
nervosos, remexeu a cama.
  - Quem foi que me roubou o meu cacete? Deves ter sido tu,
Marcel. Preciso dele imediatamente.
  O grumete, a quem se tinha dirigido, aproximou-se do beliche
de Celton e levantou completamente o colcho.
  - Est ali a tua moca, trouxe-a esta manh, no tens olhos
na cara?

                              41


  O marinheiro apanhou-a sem dizer nada e partiu a correr para
o tombadilho.
  - Eh! rapazes! Venham at aqui - gritou o  grumete -, O
Celton partiu a todo o vapor para o tombadilho com o seu
cacete.
  Tenho a impresso de que vamos ter tourada! Despachem-se!
Vamos divertir-nos.
  Loux terminara o repasto e lambia, com a lnga spera o
cho que lhe tinha servido de prato. J no havia a menor gota
do molho de peixe quando, pela segunda vez, o rabugento
apareceu ao cimo da escada. Brandia um pau que lhe recordou
imediatamente um ferimento pungente duma pata. Mesmo assim,
uma vez que no havia alimento a defender e os donos estavam
ausentes, Por que  que havia de expor-se ao risco de ser
castigado quando era to simples fugir?...
  Deu quatro passos em frente, o que teve por efeito iar a
roupa de Celton no cimo do pau de carga, onde ficou, mas a
corda mantinha-o agora preso, no obstante os seus esforos
vio lentos para se libertar. Com um olhar, divisou o cacete a
poucos centmetros dos seus rins.
  Reencontrou imediatamente a sua saudvel lgica de co:
"seja ou no seja uma brinca deira tenho que me libertar deste
maldito cabo."

                              42


  Voltou-se e zs! com um golpe seco da tremenda mandbula
seccionou, rente, o cordo de cnhamo.
  - Agora, homem do pau, apanha-me se puderes...
  No momento em que a tripulao chegava, Loux desabava como
uma tromba pela escada abaixo, perseguido por Celton, que o
injuriava.
  - Estupor! Estupor.
  Vendo um ajuntamento na sua frente, o animal receou qualquer
armadilha, quis parar e mudar de direco; mas as patas
prenderam-se-lhe numa das pernas das calas, caiu e tornou a
levantar-se. O bon escondia-lhe um olho e tapava-Lhe uma
orelha. Loux quis desembaraar-se de toda aquela tralha
insuportvel e enfiou o focinho nas calas... S conseguiu
fazer sair a bela cauda emplumada.
  Os marinheiros choravam a rir com aquela impagvel
pantomima.
  Joo Pedro e Mnica tinham sado do seu esconderijo para no
perderem nada do espectculo que os divertia acima de toda a
previso.
  Bruscamente, a cena mudou. Vendo que toda a gente se ria
dele, Celton largou o cacete.

                              43


  - Claro! Vocs riem-se porque no so as vossas coisas que
esto estragadas; mas eu no tenho um tosto para comprar
outras. Eu no sou filho de um capito de longo curso. No
posso comprar coisas novas para divertir as crianas e vocs
ainda so piores que elas! Estou-me nas tintas, vou procurar o
patro.
  Pascal reteve-o.
  - No faas isso, Celton! Vamos l!...
  Depois, dirigindo-se a Joo Pedro:
  - Tira a roupa ao co e tr-la aqui imediatamente; Marcel,
agarra num pau e vai tirar as coisas l de cima.
  Joo Pedro conseguiu apanhar, sem dificuldade, o co que,
farto de fazer de palhao, se deixou despir sem opor
resistncia. Em contrapartida, Marcel no conseguiu apanhar a
roupa presa no cimo do mastro.
  - No se pode apanhar, est demasiado alta. Tinha de subir
ao longo dos ovns at  ferragem das pols e com este
balancear do barco,  impossvel.
  - Por vida minha que  difcil - gemeu Celton. - Bem sei que
as minhas coisas esto perdidas. Esto ali para mais de trs
mil francos entre camisas, cuecas e camisolas interiores. Isso
no  para a gente se rir. Uma vergonha, oque!

                              44


  Mandado por Pascal, Joo Pedro fora passar por gua as
vestes que o co vestira. Mnica compreendeu que a frase se
dirigia a ela.
  - Pois bem! Eu vou buscar a tua roupa e conseguirei
apanh-la - disse, com uma ponta de desprezo na voz.
  - No, fica onde ests, rapariguinha! - ordenou Pascal. - 
perigoso e tenho de dizer ao comandante.
  - Desse perigo me rio eu - disse ela e muda aos apelos de
Pascal, comeou a subir a escada do mastro perante o espanto
da tripulao.
  - Bem! No  atrevimento o que falta  garota - notou
Gilbert, o decano dos marinheiros. - Desobedecer ao mestre!
Isto vai acabar mal.
  Pascal cerrara os lbios e dirigiu-se imediatamente para os
aposentos do comandante.
  Galtier, encostado  amura da coberta, tinha seguido no
rancho da proa o espectculo; agora, olhava com interesse para
a mida de catorze anos que trepava  conquista da roupa.
  Dez metros acima da ponte, Mone tinha perdido toda a sua
soberba e se no fossem aqueles olhares que a seguiam com
ironia, teria tornado a descer.

  
                              45


  Por que  que fui to estpida! Dizer que iria buscar as
camisas dele!... Agora estou pronta! Se me largo, parto a
cabea sobre as pranchas ou precipito-me no mar. Ah! meti-me
num bom sarilho! - Lanou um olhar para baixo. - Meu Deus!
como o barco  estreito, parece uma tbua! E este balancear
odioso... Se ao menos aqueles imbecis quisessem ir-se embora,
tornava a descer; mas continuam ali, de nariz no ar. Mone, se
desanimas ests perdida -, disse a si mesma - a tua reputao
fica liquidada e o teu pai desonrado. "Ento foi vencida a sua
filha, hem, capito!" dir Celton, zombando, "fui eu que a
matei, a ela e ao seu co sujo..."
  Vamos, Mone! Coragem, minha filha,  preciso l chegar.
Trepa, trepa, no olhes para o ar nem para baixo, s mesmo em
frente de ti, o pau de carga, assim faz menos medo..., Isto
vai, vencers, vencers. Continuas a subir... Coragem! Pode
chegar-se a tudo o  que se quer.
  Com os traos tensos pela contrariedade, o  comandante,
acompanhado por Pascal, Tiago e o Sr. Mayeux, veio, com passo
sacudido, colocar-se perto de Galtier.

                              46


  Mnica encontrava-se escarranchada em cima da ferragem onde
estava fixada a pol do pau de carga. Tinha soltado a roupa,
mas no parecia disposta a descer.
  - A marota conseguiu guindar-se at ali - disse o capito
Mercier, que parecia acalmado por esta proeza. - Pascal,
diz-lhe que desa imediatamente e que venha falar comigo.
  Enquanto o mestre da equipagem ia executar a ordem, o
comandante Mercier disse para Tiago:
  - Esta mulherzinha vale mais que a minha tripulao. No faz
aquilo quem quer.
  Pascal tinha lanado o aviso pelo porta-voz, mas Mnica no
parecia querer obedecer. Continuava a cavalo sobre o minsculo
assento, sem fazer o menor gesto.
  - A viborazinha no parece disposta a obedecer - disse o
comandante.
  - Salvo o devido respeito, capito,  porque ela no se pode
mexer - explicou Galtier. - O fundo das calas est preso na
ferragem da pol. Agora, no poder sair dali.
  - Passe-me o meu binculo, Pascal. Ah! sim,  exacto, tem
razo. Isso complica singularmente o problema. No tenho
ningum capaz de a ir soltar.
  - Se mo permitir, eu vou l - props Galtier.


                              47


  - No precisa de ter medo, os mastros conhecem-me e quando
tiver soltado a pequena no a largarei antes de estar c em
baixo, fique descansado.
  - Decerto que aceito. Obrigado, Galtier ; mas preste
ateno, que a empresa  difcil.
  Celton recebeu cinco mil francos do comandante pelos
estragos causados no seu vesturio. Joo Pedro teve de ficar
na cabina um dia inteiro, e Mnica metida na sua, a po e
gua.
  Um pouco envergonhado por ter recebido uma nota to grande
por estragos to relativos e tambm por se sentir o causador
da severa punio das crianas, Celton foi falar com o capito
Mercier. Embaraado, rolando nas mos o bon de oleado - o
mesmo que tinha coberto a cabea de Loux - pediu o perdo de
Mnca e Joo Pedro. O comandante recusou-lho para servir de
exemplo, principalmente por causa da filha, que cometera a
grave falta de desobedecer ao mestre da equipagem.
  - Ento - disse Celton -, talvez me permita que lhe deixe a
minha sobremesa. A verdade  que eu fui o primeiro a bater no
co. Alm disso, so partidas de midos, no  verdade?


                              48


  Por altura do paralelo 65, o tempo modificou-se, o vento
soprou do Norte, agitando o mar em ondas curtas, agressivas,
que apanhando o Frami de travs, o faziam oscilar rudemente.
  Para a tarde, a chuva comeou a cair, uma  chuva cinzenta e
fria que escorraou toda a gente para as cabinas.
  O navio oscilava pesadamente de um bordo ao outro, com
balanos bruscos, extremamente desagradveis.
  Era ainda na cama o stio onde se estava melhor, e cada um
tratou de se deitar o mais cedo que pde.
  Devia ser meia-noite e meia hora quando Galtier sentiu um
choque do lado direito. Acordou sobressaltado, estendeu as
mos, tacteou  na escurido para encontrar o interruptor,
Sentiu a madeira sob os dedos.
  - Com um milho de demnios! - resmungou. - Danado de barco,
est a adernar! Era sabido...
  No convs, a campainha de alarme tocava sem cessar.
  - O que  que se passa? - perguntou Joo Pedro, que,
lanando-se, com roupa e tudo, para fora da cama,


                              49


procurava desenvencilhar-se dos cobertores.
  Na escurido no conseguia manter-se de p sobre o soalho
inclinado.
  O marinheiro conseguiu, enfim, encontrar o interruptor e
acendeu a luz. Joo Pedro compreendeu imediatamente que o
FramiH estava deitado de estibordo, numa posio perigosa.
  - O que  preciso fazer? - perguntou, inquieto.
  - O teu saco, filhinho! e depressa ; mete dentro s o
essencial e anda.
  O rapaz enfiou rapidamente os fatos, as camisas e as
camisolas no saco de lona e quis meter os sapatos.
  - No, deixa-os, no h tempo a perder - disse Galtier,
empurrando-o na sua frente.
  A chuva cessara mas a ponte continuava polvilhada de
humidade. Galtier e Joo Pedro escorregavam a cada passo sobre
esta superfcie to inclinada como o telhado de uma casa.
  Prximo do poro da popa, a tripulao, reunida por Pascal,
esperava ordens. Mone tambm j l estava, ao lado do av.
Havia trs dias que o comandante Mayeux estava de cama a
tratar dum princpio de bronquite.


                              50


  Plido, ligeiramente enervado, esforava-se por reprimir uma
tossezinha seca e opressiva.
  Loux, sentado, muito direito, sobre as patas traseiras,
estava ao lado de Mnica. No Lhe passava despercebida a forte
inclinao da ponte, a campainha a tocar continuamente, aquele
ajuntamento a uma hora a que habitualmente se dorme. Tudo
indicava um acontecimento importante. Mas era um co de boa
raa e no manifestava o menor indcio de medo...
  Bruscamente, as campainhas de alarme calaram-se e ouviu-se,
amplificada pelo altifalante, a voz calma do comandante
Mercier.
  - s 0 h. e 45 minutos, o Frami adernou com um balano
forte. A situao  grave mas no desesperada. Uma mensagem de
socorro foi lanada s 0 h. e 50 minutos e captada por um
cargueiro noruegus, o Skrangel, que ruma na nossa direco.
Estar aqui dentro de duas horas. Enquanto esperamos, vai ser
tentada uma manobra delicada para endireitar o navio. A
tripulao ficar a bordo. Os passageiros embarcaro, por
segurana, no escaler de salvamento n.o 1, que vai ser
equipado e posto na gua. O Sr. Mayeux tomar o comando.
Dever manter-se na posio actual do Frami. Mestre Pascal
velar para que o escaler n 2 esteja pronto para ser


                              51


imediatamente deitado  gua, se a manobra de endireitamento
do Frami falhar. Execuo.
  No momento em que os marinheiros iam virar os turcos para
porem o escaler no mar, chegou Biard, com o aparelho
fotogrfico pendurado ao pescoo por uma correia de couro.
Tinha um ar quase feliz.
  - At  vista, amigos! - gritou ele. - Coragem! Eu fico com
o comandante Mercier para assistir  manobra.
Encontrar-nos-emos daqui a pouco. Galtier, confio-te Joo
Pedro. Faz com que ele te obedea.
  Um claro de magnsio indicou que o reprter tinha tirado um
instantneo da evacuao dos passageiros.
  - Estes jornalistas - fez notar Mayeux -, tm uma espantosa
concepo da vida. Para eles, as situaes trgicas so boas
oportunidades.
  O prazer da informao oculta-Lhes o perigo. Tm sorte por
verem as coisas desta maneira.
  A princpio, Joo Pedro, Mnica e o av puxaram
corajosamente pelos remos ; mas o comandante Mayeux, com
setenta anos de idade, e, sobretudo, doente, esgotou-se
depressa. Nem ele, nem os dois jovens marinheiros, a despeito


                              52



dos seus esforos, puderam sustentar, por muito tempo, a
remada de Galtier. Por outro lado, levantava-se vento e o
escaler andava  rola.
  - Creio que  melhor iar a vela - props o comandante
Mayeux -, no podemos lutar com o mar e o vento.
  Galtier colocou o mastro e iou a vela.
  - Estendam a vela! Estendam a vela, meus filhos! - disse,
enquanto esticava a adria.
  Mnica, cheia de boa vontade, quis agarrar com as duas mos
a escota que batia como uma p. Foi fustigada pela corda de
cnhamo, que lhe feriu a face. No obstante a dor pungente,
manteve-a agarrada e esforou-se por lutar com a vela.
  - Assim no, Mone! - gritou-lhe Joo Pedro. - Passa a escota
por debaixo da cavilha.
  Demasiado tarde... O vento, enfunando a lona, projectava a
rapariguinha contra a borda do escaler. Joo Pedro apanhou a
escota que Mone continuava a segurar e passou-a solidamente
sob a cavilha.
  - Vamos! Oh! soca, oh! soca, oh! soca!
  - Vai bem assim - disse o comandante Mayeug.
  Joo Pedro e Mone estenderam igualmente a vela triangular.


                              53


Quando terminaram, Galtier deu uma palmadinha amigvel nas
costas de Mnica.
  - Muito bem, pequenina! No engataste como era preciso mas
no te rales, o ofcio no se aprende todo num dia.
  Para dizer a verdade, Joo Pedro e Mnica achavam muito
divertido navegar a bordo do escaler de salvamento. Estavam
prximos da gua e ouviam-na chapinhar ao longo do casco com
glu-glus precipitados de garrafa que se esvazia.
  A parte activa que tomavam nas manobras constitua uma
distraco inesperada. Tambm s devia durar algumas horas, o
tempo de endireitar o Frami ou de embarcar no Skrangel.
  Loux divertia-se menos. Aquele sobrado, movedio como uma
balana, onde as patas deslizavam, os bordos que limitavam o
seu horizonte a alguns metros, e enfim, aquele espao
demasiado estreito onde os ps duns e doutros lhe pisavam a
cauda a cada instante, no lhe agradava nada; mas seria
indigno dum co da sua classe manifestar nervosismo ou
aborrecimento. Por isso esperava estoicamente que os homens se
decidissem a pr fim quela brincadeira de mau gosto.


                              54


  Galtier e o comandante Mayeux no sentiam nenhuma vontade de
rir. Havia uma hora que aguentavam o mar numa baleeira que
metia gua.
  Durante um momento, as evolues difceis do Frami,  luz
plida da madrugada, ocuparam a sua ateno. As hlices batiam
mal, uma delas, meio sada da gua, fazia saltar flocos de
espuma, a outra obstrua o leme e o cargueiro no obedecia.
No conseguia virar-se para oferecer o outro bordo s ondas.
Cada vez se afastava mais arrastando-se lamentavelmente,
deitado sobre estibordo, como um animal ferido que tentasse,
em vo levantar-se.
  Agora, Galtier tinha os olhos pregados no fundo do escaler e
o comandante Mayeux olhava alternadamente o horizonte, a vela,
o mar...
  - A embarcao fatiga muito, no tem uma quilha fixada a
prumo - disse Galtier ao comandante Mayeux. - Se estivesse bem
revestida de bordagens ainda se podia aguentar; mas est feita
com pranchas sobrepostas, os rebites no tardam a comer a
madeira, sobretudo esta porcaria de madeira, boa para
caixotes...  uma vergonha fazerem chalupas como esta!
  - Com efeito no  grande coisa - respondeu o comandante
Mayeux - andamos  rola como numa chata.


                              55


J esperimentei cerrar a bolina, mas  a mesma coisa. No
tenho nenhuma confiana na estabilidade do escaler desde que
guina, por pouco que seja. Enfim, o Skrangel no deve tardar a
chegar ; j deveria c estar.
  Vamos virar de bordo para evitar afastarmo-nos muito do
ponto combinado.
  Ao meio dia a bruma surgiu no horizonte,, branca, espessa,
rente ao mar. Aproximava-se rapidamente, despedaada pelo
vento. Dir-se-ia um imenso polvo fantasma torcendo os
gigantescos braos em busca de qualquer presa a devorar.
  Em breve chegou, envolvendo a baleeira e os seus ocupantes,
que se esforavam por no deixar transparecer a angstia.
  At  noite, o comandante Mayeux esperou que ela fosse
desfeita pela brisa que se mantinha. Acontece muitas vezes,
nesta latitude, que a bruma sobrevenha e passe como uma 
nuvem. i At  noite, aguo o ouvido, esperando surpreender
os apelos do Skrangel, mas a escurido veio ainda espessar a
bruma lvida que se colava, como um sudrio, aos infelizes
nufragos. 


                              56


  Para se abrigarem do frio que penetrava atravs da roupa,
Joo Pedro e Mnica tinham-se sentado no fundo, um ao p do
outro.  Galtier tinha-lhes distribudo biscoitos, uma caixa de
atum em azeite e um quartilho de gua.  Comeram vagarosamente.
Depois, escondendo, sob um silncio pesado, a inquietao que
os afligia, acabaram por dormitar, encolhidos, tremendo como
doentes tomados de grande febre. Por fim, Mone chamou Loux e
f-lo deitar-se entre Joo Pedro e ela. O plo espesso do co
transmitiu-lhes um pouco de calor.
  Desde o segundo dia, foi preciso tirar gua do barco. De
joelhos, os membros enregelados, Joo Pedro, Mnica, Galtier e
o comandante Mayeux,esvaziaram, cada um por sua vez, com a
ajuda dum tacho velho, a gua que se infiltrava, cada vez
mais, pelas juntas do fundo. De tempos a tempos, o rebentar
das vagas fustigava-os com chapadas de gua fria e salgada que
lhes molhava os cabelos, o rosto e corria depois pelo pescoo.
Para se aquecerem um pouco e terem uma iluso de actividade,
os nufragos amainavam a vela durante algumas horas e
punham-se aos remos.


                              57


  Na noite do quarto dia, o vento, que soprava de Nordeste,
correu com a neblina ; mas to longe quanto a vista alcanava,
o horizonte estava vazio. No se viam mais que farrapos de
nuvens esbranquiadas arrastando-se, aqui e ali, sobre o mar.
  O sol apareceu durante um instante, um sol brilhante cujos
raios difundiam uma luz fria, quase penosa. Em breve o
nevoeiro o dissimulou de novo e ento foi a chuva, a chuva que
se ps a cair sem cessar.
  Nos stios onde a lona que servia de abrigo estava menos
esticada, as enormes gotas atravessavam-na e pingavam com uma
regularidade irritante.
  A vida a bordo tornou-se, ento, uma longa srie de
sofrimentos. O frio, a humidade, a fadiga e, sobretudo, a
esperana que, dia a dia, diminua mais.
  Naquela tarde, depois de Mone e Joo Pedro adormecerem, como
de costume, prximo de Loux, o comandante Mayeux disse a
Galtier:
  -  intil esperar mais pelo Skrangel, j no vir. Contanto
que encontre o Frami e consiga salvar os que esto a bordo...
Ns s temos uma coisa a fazer: tentar alcanar a Islndia.
Deve estar a cerca de 100 milhas para Oes-Sudoeste.


                              58


O vento est favorvel; se se mantiver alguns dias, o que 
mais que certo, podemos atingi-la. Esperar mais tempo pelo
socorro do Skrangel no seria razovel.
  Pouco tempo depois, o estado de sade do comandante Mayeux
piorou bruscamente. Acabava de esvaziar a gua do fundo do
barco, quando, ao querer levantar-se, de sbito se sentiu mal.
  - No se inquietem, isto passa - disse a Galtier que o
amparava contra a borda do barco...
  Mas as mos escaldantes e hmidas, os olhos brilhantes e as
feies contradas diziam o contrrio; e, de facto, no
obstante os seus esforos para esconder a gravidade do mal que
o atingira, no conseguiu deixar mais o fundo do escaler.
Ficou para ali, encostado  borda do barco, a respirao
ofegante, sufocada algumas vezes por longas crises de tosse.
  Mnica ensopava biscoitos aum quartilho de gua e tentava
faz-lo ingerir aquele magro alimento.
  Falava pouco, somente algumas palavras para se informar
acerca da rota que Galtier lhe indicava frequentemente com
preciso; os olhos fatigados, injectados de sangue, s vezes


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surpreendiam as expresses de lassido no olhar de Galtier e
de pungente angstia no das duas crianas, principalmente
quando o horrendo vu cinzento vinha em lufadas hmidas
envolver o barco e aplicar-se contra os rostos.
  - Aproximamo-nos - repetia, ento, com uma voz calma. - Mais
um pouco de coragem, se o vento continuar de feio, sairemos
daqui, tenham confiana!
  No entanto, sabia bem que aquela libertao j no seria
para ele. Com os dois pulmes congestionados, sentia as foras
diminurem cada vez mais.
  Uma noite, enquanto Mnica e Joo Pedro dormiam com o co
deitado entre eles, como de costume, Loux levantou-se de
repente e veio colocar-se perto do doente que parecia
repousar. Olhou-o duma maneira estranha, cheirou o ar
repetidas vezes,  direita e  esquerda, e depois, sentando-se
sobre as patas traseiras, lanuu um uivo lgubre. Galtier
desapertou o cinto e chicoteou-o.
  Loux calou-se e recuou para a proa, admirando-se de ter sido
castigado por uma aco que Lhe parecia perfeitamente
inocente. Em breve repetiu o seu sinistro apelo.
  - Querers calar-te, co do diabo! - resmungou o marinheiro,


                              60


que ia bater outra vez no animal; mas o comandante Mayeux
fez-lhe sinal para se aproximar.
  - Deixe-o, Galtier - disse em voz fraca. - Est a
prevenir-me de que a minha hora est prxima e que  tempo de
ir pensando nisso.
  Diga s crianas que venham at aqui. No posso falar alto.
  Quando Joo Pedro e Mnica l chegaram, o comandante
continuou, esforando-se por tomar alento.
  - Passo o comando ao Sr. Galtier. De agora em diante  a ele
que devem obedecer. Galtier, confio-Lhos. Faa o melhor que
puder. Penso que, mantendo o rumo, cerca dos 26 graus no
tardaro a encontrar a costa da Islndia. Meus filhos, vo
dormir outra vez at  hora do vosso quarto.
  Mnica ps-se a soluar e enlaou o av com os dois braos.
  - Tu no vais morrer, av, no, no, no quero. Estamos a
chegar e tu vais curar-te...
  As mos magras e finas do antigo oficial de marinha
desprenderam os braos de Mone.
  - No chores, netinha querida, e faz o que te peo.


  *1 Quarto de vigia na navegao.


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Agora quero estar s para me preparar para a grande viagem e
comparecer diante de Deus. Vamos, adeus, minha filha, e s
corajosa.
  Duas horas mais tarde, Galtier rasgava, com a lmina da sua
faca, os sacos onde se arrumava o velame e cobria, com eles, o
corpo rgido do comandante Mayeux. Depois, com um cabo,
amarrou cuidadosamente a lona em volta do cadver.
  As duas crianas no dormiam. Seguiam com os olhos o
marinheiro ocupado no arranjo do morto. Mone no parava de
chorar e Joo Pedro dominava, com dificuldade, a sua emoo.
  Ao terminar, Galtier levantou-se.
  - Agora, de p - disse. - Joo Pedro e Mnica, rezem uma
orao.
  Como o rapaz hesitasse e Mnica no parecesse ter ouvido:
  - Ento! - repetia. - Vocs no sabem oraes?
  - Sim.
  - Bom,  preciso dizer uma em voz alta.
  Joo Pedro e Mone recitaram o Padre-Nosso... Terminada a
ltima frase, Galtier agarrou o cadver nos braos e atirou-o
pela borda fora. Ficou a olhar, por um momento,


                              62


para o longo vulto branco que as ondas levavam. No tinha
encontrado nada para o lastrar e por isso ele flutuava  flor
da gua, As recordaes sucediam-se na sua memria.
  Reviu a mulher e o seu filhinho, que um dia encontrara
esmagados sob os escombros da sua casa de Lorient, depois de
um bombardeamento, no decurso da guerra 40-45; reviu o rosto,
to jovem e j paralisado pela morte, de M.lle Balin, a quem
ele tinha, seguindo uma ordem criminosa, quebrado a piroga com
a roda da proa do veleiro que timonava.  Parecia ter sido
ainda ontem...
  Voltou-se para Mnica e Joo Pedro, que tambm seguiam, com
os olhos tristes, o corpo recoberto de rude lona que vogava,
como um destroo, sobre o mar cinzento, empurrado pelas vagas
e pelo vento...
  Desejava dizer-lhes que podiam contar com ele, que faria
todo o possvel por lhes substituir os pais... No encontrou
palavras para se exprimir. Limitou-se a ordenar:
  - Vamos, Joo Pedro, toca a tirar gua! Mnica, vai dormir.
Os quartos sero feitos por escala.


  *Ver, do mesmo autor, Rumo: Norte, 88 Este.


                              63


A rota continua nos 26 graus, como disse o comandante Mayeux.
Se o vento mudar, digam-me imediatamente.
  Mnica retomou o seu lugar  proa, perto de Loux, e, com o
rosto entre as mos, recomeou a chorar em silncio, com
longos soluos regulares. Por vezes sentia que Joo Pedro a
abraava pelos ombros e a encostava  borda do barco.
  - Mone, escuta-me... Diz-me, ouves-me?
  Experimentava tirar-lhe as mos do rosto.
  - Quando o meu pai morreu, Jacques levou-me consigo. Foi
como um irmo mais velho. Se quiseres, agora farei por ti o
que ele fez por mim, serei o teu irmo. Queres?
  Mone assentiu com a cabea.
  Joo Pedro sentiu-se emocionado; teve vontade de a abraar
mas, consciente das novas obrigaes que lhe impunha o seu
papel, receava enternecer-se e perder a autoridade.
  - Seca as lgrimas e dorme, seno estars morta de fadiga
para o teu quarto da manh. Est prometido. Agora somos, para
sempre, irmo e irm.
  Ao despontar da aurora do dcimo dia, a costa Leste da
Islndia apareceu, barrando com um trao mais escuro o
horizonte onde o mar e o cu se confundiam na monotonia
cinzenta.


                              64


  - Vigiem  proa, pequenos! E avisem logo que houver
rochedos.
  Mas no se viam rochedos. Adivinhavam-se nos flocos de
espuma branca que as ondas produziam ao quebrarem-se contra
eles. Galtier, no conhecendo bem aquelas paragens, manobrava
para os contornar de longe. Os escolhos eram tanto mais
numerosos quanto mais o escaler se aproximava da margem.
  - Enfiem imediatamente os cintos de salvao.
  Joo Pedro, que j tinha navegado em sectores perigosos,
compreendeu logo que estavam sobre baixios e que podiam
encalhar de um momento para o outro.
  Lera, num livro de Tiago, que o infeliz Pourquoi-pas?, do
doutor Charcot, naufragara assim ao largo da Islndia e que s
um homem da tripulao conseguira Por milagre, chegar at 
margem, que no entanto no estava muito longe. Atou,
solidamente, o cinto de Mone e, depois, o seu.
  - No tenhas medo - disse  sua companheira. - Se tocarmos
nos baixios e nos afundarmos, eu ajudar-te-ei.


                              65


  - Agora creio que j no tocaremos - respondeu Galtier. - O
escaler no cala muito fundo e ir at  costa ; mas logo que
entrarmos na praia  preciso saltar depressa para terra e
abandonar o barco. No podemos deixar-nos arrastar para no
nos ferirmos na rebentao. Antes de uma hora, estar em
bocadinhos. Aqui, as ondas rebentam por toda a parte.


                              66


                              IV


     GALTIER estava persuadido de que Bob Harris mentia e que
nunca tinha telefonado para Reykjavik como pretendia.
  Havia dez dias que estava em Lodmundarfjord e tivera tempo
de sobra para reconhecer, por detrs dos olhos fugidios do seu
hospedeiro, das suas maneiras amveis e das suas
generosidades, a velha tctica dos traficantes de marinheiros.
  Se estivesse num porto qualquer, o homenzinho no teria
pesado muito entre as suas mos. Mas ali, naquela regio rida
e desolada, habitada por alguns pescadores cuja linguagem no
compreendia, onde nunca abordava um navio mercante, onde se
estava separado do centro da ilha por montanhas selvagens
cobertas de neve... as atitudes de fora no teriam servido
para nada.
  Bob Harris sabia isso e portanto esperava, pacientemente,


                              67


que o marinheiro aceitasse a sua oferta.
  Harris no tinha nascido ontem, navegara muito tempo na
marinha mercante e estabelecera-se depois nos bairros
duvidosos de So Francisco. Uma histria suspeita levara-o a
deixar o pas e a vir tentar a sorte, com uma espcie de loja,
na ponta oriental da Islndia.
  Quando Foerder, o seu empregado, esbaforido, viera
anunciar-Lhe que um marinheiro e dois grumetes acabavam de dar
 costa ao p da grande falsia e se dirigiam para
Lodmundarfjord, agarrou no binculo e fixou o grupo que seguia
pelo carreiro que levava  aldeia.
  Aquele homem, com uma constituio de gladiador, e os dois
midos, transportando os seus sacos s costas, no lhe deram a
impresso de verdadeiros nufragos. Deviam antes ser membros
da tripulao de qualquer chalupa fugidos de bordo aps
qualquer tolice.
  Cheirava-lhe a bom negcio e ordenou a Foerder que lhos
trouxesse.
  Tambm, para onde iriam? Harris falava francs, tinha
quartos vazios, camas, vesturio. Vendia de comer e de beber.
No gostavam dele; mas no podiam viver sem ele naquela regio
da costa e isso conferia-lhe grande autoridade.


                              68


  Gltier foi discreto, limitou-se a aceitar a hospitalidade e
a pedir a Harris que prevenisse as autoridades de Reykjavik
para o seu repatriamento.
  Deveria ter recomendado a Joo Pedro e a Mone que segurassem
a lngua; mas no pensou nisso, e agora j era demasiado
tarde. Harris tinha interrogado as crianas. J sabia mais do
que o suficiente para tirar um bom partido da situao sem o
menor risco para si.
  Ainda nessa manh voltara  carga.
  - Por que teimas em esperar, Galtier? So precisos bem trs
meses, pelo menos, para que a administrao faa o necessrio
para repatriar deste canto perdido do mundo. Mallard prope-te
um embarque, para a estao, no seu Titan. Em Outubro desarma;
e at l poderiam fazer os seus oitocentos barris de leo! Os
rorquais no faltam nas paragens de Jan Mayen. Fazes mal em
continuar de braos cruzados. Como arpoador, se s to lesto
como pareces, podes ter o quinto da pesca e ter com que voltar
para casa como turista e viver at ao fim do ano como um
pax... No podes fazer outra coisa, meu rapaz! Os pescadores
de Lodmundarfjord no tm barcos capazes de te levarem a
Reykjavik. Pelas montanhas nem podes pensar, a no ser que


                              69


pagues um guia, trs mulas, vveres, vesturio, e tu deves-me
j mais de quinhentas coroas... Ento! Vem esta noite quando
os midos dormirem; conversaremos com Mallard acerca disso.
  Longe das intrigas que se tramavam  volta de Galtier, Mone
e Joo Pedro esperavam, sem grande impacincia, pelo regresso
a Frana.
  O pas tinha, para eles, a atraco do desconhecido. Havia
falhas profundas nos rochedos donde saa uma gua to quente
que os habitantes da regio punham ali a cozer os alimentos.
  Sobre a areia da praia, onde o mar sussurrava
incessantemente, encontravam-se belas pedras raiadas, de
origem vulcnica, que eles comearam a coleccionar.
  Havia tambm curiosas conchas fsseis enterradas na terra
cinzenta das falsias, que eles gostavam de escalar. Era to
agradvel respirar o ar fresco que descia dos cimos nevados ou
admirar,  noite, o vermelho acobreado deixado, ao Norte, pelo
sol que nunca se punha!


                              70


  Pelas 21 horas regressavam, despreocupados,  loja onde os
esperava a sopa quente de Bob Harris.
  O mais feliz era certamente Loux. O espao j no lhe era
regateado, encontrara camaradas da sua raa e descobrira, 
beira do pequeno porto de pesca rudimentar, formado numa
cavidade natural das rochas do fiorde, resduos de peixe que
faziam as suas delcias.
  Tambm ele no regressava seno  noite para abocar os
restos do jantar. Depois deste agradvel suplemento, ia
estender-se em frente da porta do quarto da dona...
  Isto durou at  noite em que Galtier teve uma entrevista
tempestuosa com o capito Mallard.
  - Estou de acordo a respeito do quinto da pesca; mas no
quero os midos - tinha declarado Mallard. - Arruma-os onde
quiseres durante trs meses e encontr-los-s na volta.
  - Assim no pode ser. Confiaram-mos. Embarcaro comigo ou
vais procurar ou tro arpoador.
  - Como quiseres, marinheiro, mas fazes-te difcil porque
ainda no saste do albergue. Harris no te vai dar crdito
pelos teus belos olhos. Se te d comida e tecto, a ti e aos
midos,  porque espera cinco barris de leo. Se no os tiver,


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pe-te fora e ento, o que  que fars neste deserto onde nem
mesmo consegues compreender uma palavra? O que  que fars num
canto onde mesmo os midos da regio tm dificuldade em no
rebentar de fome?... Enfim, como quiseres, marinheiro!
  Galtier deixou Mallard depois desta frase e subiu para se
deitar.
  - Traz-me o teu usque - disse Mallard a Harris, assim que o
marinheiro partiu -, e no tenhas medo de deitar.
  - Encostaste o amigo  parede - murmurou-lhe o negociante ao
ouvido enquanto Lhe enchia o copo. - Outros pagariam caro para
embarcar aquele rapaz.  forte como um macaco, e v a flecha
que ele cravou na cortia, h bocadinho, a seis metros do
alvo;  preciso olho para dar no vinte, com uma ponta
daquelas, ao primeiro golpe... O fregus sabe visar, est
tranquilo. E os midos no so manetas, podes faz-los
trabalhar como homens, por um salrio de grumetes. Se
rebentarem no negcio, queres l saber, nem mesmo sabem que
eles esto vivos! No penses que eu avisei Reykjavik... No
voltas a encontrar uma ocasio como esta!...
  Outrora, Mallard sentir-se-ia indignado com semelhante
cinismo; mas agora j nada o revoltava.

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o lcool envilecera-o. S uma coisa tinha importncia a seus
olhos: trabalhar o menos possvel, justamente o indispensvel
para possuir uma boa reserva de usque. Com o olhar embaciado
e a voz pastosa, aquiesceu.
  - Talvez tenhas razo. Diz ao marinheiro que embarco tambm
os dois rapzes e que aparelhamos depois de amanh, pela
aurora.
   preciso que estejam a bordo desde a vspera,  noite.
  Harris encheu de novo o copo do capito.
  Convinha-lhe que ele agora se embebedasse como um bruto para
assinar o papel que tinha preparado. Dez barris de leo de
baleia que exigiria no regresso do Titan. Com os cinco que lhe
devia Galtier e a carga do Titan, que esperava adquirir, faria
uma bela somazinha, saberia tornar a vender a preciosa
mercadoria por bom preo...
  No momento em que Mnica e Joo Pedro subiam para se deitar,
Galtier alcanou-os, agarrou-Lhes num brao e empurrou-os para
o quarto. Desajeitadamente, veio sentar-se na borda da cama,
as mos espalmadas sobre os joelhos, sem saber como
principiar.
  - No podemos continuar  espera - decidiu-se a dizer. - Com
aqueles... enfim, com as autoridades, as coisas no andam...


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 preciso que ganhemos uns cobres para viver... Por isso vamos
partir para a pesca, durante trs meses... A meu ver, foi
Harris que se entendeu com Mallard para nos apanharem, visto
no podermos falar esta lngua, nem pagar seja o que for...
  Joo Pedro e Mnica seguiam, no rosto de Galtier, as
dificuldades que ele sentia em se exprimir. A sua fronte
enrugava-se, os olhos rolavam,  direita e  esquerda, como os
de um actor principiante a implorar o socorro do ponto.
  Compreenderam, ento, que um fardo demasiado pesado vergava
os largos ombros do marinheiro. No mar, quando o oficial
marcou a rota, Galtier sabia todas as manobras que era preciso
fazer. No teria tido mesmo dificuldade em comandar ele
prprio.
  Em terra, num pas estranho, onde no se podia fazer
entender, as responsabilidades que lhe cabiam haviam-no
esmagado. Farejara a armadilha mas sentia-se incapaz de a
evitar.
  Aquela confisso de impotncia do marinheiro pesava-lhes
tanto como uma censura.
  Um e outro confiavam inteiramente nele. Se o tivessem
animado em vez de correrem pelo areal, ele ter-se-ia mantido
mais forte; talvez mesmo Harris no se atrevesse...


                              74


  Nesse momento, Mnica pensava menos nas consequncias desse
embarque do que na dor de Galtier, que ela pressentia muito
infeliz. De boa vontade lhe deitaria os braos ao pescoo,
como costumava fazer quando um desgosto ou uma inquietao
qualquer ensombravam o rosto de seu pai, e lhe dizia que
gostava muito dele porque tinha feito tudo o que lhe era
possvel. E que indiferente seria ao que quer que lhes
acontecesse contanto que ele no enrugasse mais a testa e
retomasse a cara habitual.
  Joo Pedro sentia remorsos: No era assim que Tiago agiria;
mas que teria ele podido fazer? Nunca compreendera to bem
como agora quo poucas coisas sabia e a que ponto se
encontrava desarmado perante a vida.
  As aventuras apaixonantes em que os jovens vem tudo
sorrir-lhes, existiam talvez nas histrias ilustradas; a
realidade era diferente. As dificuldades pareciam surgir desde
que aparecese a menor fraqueza. Um navio estava mal
construdo? O mar maltratava-o, invadia-o, soobrava..., Um
homem era pouco instrudo? Um outro surgia, quase
instantaneamente, para tirar proveito disso.
  Tinha vontade de dizer qualquer coisa a Galtier para se
desculpar; isso aliviaria a sua conscincia, mas no ousou,


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porque o marinheiro tinha-se erguido; retomara a expresso
habitual. Terminada a explicao, a sua deciso tomda, a vida
tornava-se-lhe mais simples.
  - Ento, vai ser preciso estar a bordo do Titan amanh 
noite, s nove horas o mais tardar - disse. - Harris cortar
rente os vossos cabelos. Mallard julga que so dois grumetes.
Se vem a saber que h uma rapariga, recusar embarc-la.
  Com a mo sobre o puxador da porta, Galtier acrescentou:
  - O capito no quer ces a bordo.
  Mnica lanou-lhe um olhar indignado:
  - Ele quer que eu o deixe aqui, enquanto partimos por dois
ou trs meses?
  Galtier fingiu no ouvir e deixou o quarto. A incumbncia
estava desempenhada; agora, aquele urso malcriado do Mallard
que se arranje com Loux, Mnica e Joo Pedro! Afinal,  a ele
que cabe velar pela execuo das suas ordens.


                              76



     No dia seguinte  noite, ao dirigirem-se para bordo do
baleeiro, que perfilava a sua robusta silhueta na gua calma
do fiorde, Galtier notou que Loux no estava entre eles. No
entanto, no desgostaria de ver como se arranjaria o velho,


                              76


para se livrar do animal. A cena diverti-lo-ia e, depois,
tambm sabia quanto os grumetes o estimavam e sentir-se-ia
feliz se conseguissem lev-lo com eles.
  Olhou para Mnica e Joo Pedro; no pareciam sentir grande
desgosto... Antes assim, era melhor que as coisas se passassem
desta maneira.
  Abordaram o navio e todos trs subiram a escada mvel
amarrada  altura do portal.
 Era noite, quando Mone se desembaraou dos cobertores. Toda a
gente dormia, no camarote.
  Veio acordar discretamente Joo Pedro, que dormia no beliche
por baixo do de Galtier.
  Sem fazer rudo, abriram lentamente a porta para que no
chiasse nos gonzos e, descalos, a fim de abafarem o rudo dos
passos, lcanaram a ponte.
  A brisa de Nordeste era bastante fresca e pregueava a
superfcie sombria da gua. Mone e Joo Pedro perscrutaram,
atentamente, o mar. Observavam tanto ao longe como junto ao
navio.
  De repente, Joo Pedro pousou o brao sobre o de Mnica e,
estendendo o dedo, disse:


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  - Est ali, j o vejo, est muito prximo... Ali, olha...
passa-me o gancho.
  Mnica tirou da algibeira um fio de ferro recurvado, preso a
um cordel, e o rapaz absorveu-se numa pesca delicada.
  - Calculmos exactamente!... O vento e a corrente
trouxeram-no mesmo aonde era preciso - disse, iando para
bordo um conjunto de toros de madeira e de quadrados de
cortia, ao qual estava amarrada uma longa e grossa corda.
  Mnica agarrou-a e comeou a puxar. O cabo  retesou-se.
  - Devagar! Eh! Tu s louca! Se isso se parte estamos
arranjados!
  - Isto anda, isto anda - disse Mnica encantada, notando que
o cabo se distendia molemente.
  Alguns instantes mais tarde apareceu um caixote
grosseiramente camuflado. Aproximava-se, lentamente arrastado
pela corda. Em breve se encontrou prximo do navio e os dois
grumetes comearam a i-lo.
  - Contanto que ele no ladre - disse Joo Pedro.
  -  muito raro ladrar, ele nunca se lamenta quando sofre...


                              78



  Levantadas as tabuinhas, o co saiu da priso, de muito
mau-humor. Sacudiu os plos ensopados e aspergiu copiosamente
os donos.
  Teve mesmo, por um instante, a inteno de abandonar
momentaneamente a sua companhia, com receio de sofrer nova
clausura to longa e desagradvel como a que lhe tinham feito
passar; mas Mone acabava de pr, perto dele, uma dezena de
belos peixes fermentados mesmo como ele gostava, e a fome foi
mais forte que qualquer outro sentimento.
  Quando os restos do caixote foram lanados ao mar, Loux j
tinha esquecido as horas de cativeiro; e, de cauda erguida,
manifestou abertamente a sua alegria por voltar a encontrar os
dois amigos.
  - Loux!  Vem c - ordenou Mone -, e deixa-te de escapadas...
  O co dormiu ao p da tarimba de Mnica at  hora de
aparelharem.
  Ela e Joo Pedro esperavam que a apario do animal, s no
momento das manobras da largada, lhe salvaria a vida. Ningum
teria tempo para se ocupar disso. Depois, quando o Titan
estivesse no mar, seria demasiado tarde para o desembarcarem.


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  Pouco faltou, no entanto, para que o pobre bicho no vivesse
essa manh a sua ltima hora.
  A ncora acabou de deslizar, o cabrestante terminou de
enrolar a corrente, e Mallard tinha j a alavanca do telgrafo
de bordo na posio de  vante a toda a fora, quando os
seus olhos caram sobre o co, que passeava tranquilamente na
coberta, julgando-se em pas conquistado.
  - Com mil demnios! - gritou o capito. - Quem me trouxe
este animal para bordo? Eu j te vou atirar por cima da
amurada!
  Desceu rapidamente a escada e chegou furioso  entreponte.
Aproximou-se do animal, praguejando como um carroceiro. Joo
Pedro e Mone, inquietos, deixaram precipitadamente a cozinha
onde preparavam o caf ; vieram colocar-se prximo de Loux,
decididos a implorar o perdo para o amigo.
  Este ltimo, num abrir e fechar de olhos, tinha classificado
o seu adversrio. Praguejava exactamente como aquele Celton
que lhe dava pontaps e, alm disso, assim que chegaram as
duas crianas, o seu crebro de co, incapaz de fazer
distines subtis, foi imediatamente dominado pela convico
de que o homem ameaava, ao mesmo tempo, Mone e Joo Pedro.


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  Desde ento, corajoso como todos os da sua raa, firmou-se
orgulhosamente nas quatro patas e preparou-se para combater.
  Mallard deu ainda alguns passos, vociferando.
  - Para a selha! co lazarento! Espera a se queres ver.
  Avanou amo; mas deteve-se em fce da atitude de Loux, que
no fugira. Eriara os plos do pescoo e da espinha, o que
lhe dava um aspecto de perigoso animal selvagem, e levantara
os beios, como se puxasse um cortinado, descobriu duas
slidas fiadas de dentes de marfim. Um rosnar uniforme
rolava-lhe, em surdina, no fundo da garganta. Os olhos
brilhantes, por detrs das plpebras semicerradas como a
seteira da torre dum carro de assalto, espiavam o menor gesto.
  No lhe seriam necessrios cinco segundos para triturar os
dedos grossos do capito com as suas terrveis mandbulas, se
ele tivesse a ideia de os aproximar mais. Mas Mallard bateu em
retirada, recuou at junto da tolda e pegou num utenslio de
madeira terminado por uma aguda ponta de ao.
  Aquele instrumento, que tem o nome de lana e serve para
acabar com as baleias feridas, encontrava-se fixado na parede
da entreponte com os arpes, as facas e os cinzis...


                              81


  O capito brandiu-o e voltou-se para Loux, ameaando-o de
novo.
  Mone e Joo Pedro iam soltar um grito quando Daniel, o
imediato, se interps. A tripulao agrupava-se a alguma
distncia e olhava a cena.
  - No faas isso - disse Daniel.
  - Procedo como me agrada - ripostou Mallard. - Quem manda
aqui sou eu.
  A luta j no era entre Loux e o capito, mas sim entre este
e o imediato; os homens, intrigdos, perguntavam a si prprios
como  que Daniel sairia daquela situao delicada.
  A bordo, a autoridade do segundo oficial era muito grande.
Derivava do seu valor profissional e, sobretudo, da sua calma.
Comandava com voz doce, como se pedisse um favor, e, se bem
que o seu papel fosse difcil junto do capito Mallard,
intratvel e frequentemente sob o imprio da bebida, raro era
que ele no chegasse a aplanar as mais agudas divergncias.
  Sem elevar a voz, com aquela tranquilidade que nunca
abandonava, explicou ao capito:
  - Traz sempre desgraa matar o co de bordo. Um veterano
como tu no o ignora.
  Mallard levantou os ombros. Sabia bem que Daniel acreditava,


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tanto como ele, naquela lenda; mas agora j no podia matar o
co. Se depois disso acontecesse a bordo o menor incidente, a
tripulao lembrar-se-ia imediatamente das palavras do
imediato, em quem tinham toda a confiana, e lanaria a culpa
sobre o capito, que passaria a ser odiado.
  Daniel, mais uma vez, ganhou sem combate. Como de costume.
  O capito Mallard esforou-se por sorrir e foi pendurar a
lana.
  - Bem, visto que esto todos decididos a apanhar uma carga
de bicharia, fiquem l com o animal!
  Para no perder o prestgio, dirigiu-se quase logo ao
imediato:
  - Senhor Daniel, faa ocupar imediatamente os postos de
pesca; os grumetes, para cima -, dirigia-se a Joo Pedro e
Mone, apontando, com o indicador, para o posto de vigia na
gvea.


                              83


                              V


     De incio, Mone achou muito pesadas as longas horas de
vigia naquele tonel situado quinze metros acima do convs.  O
balancear do barco sacudia-os como ameixas, sem que fosse
possvel tomar qualquer providncia em relao s contraces
dolorosas de estmago que, alm da dor, provocavam contnuas
nuseas.
  Agora aquilo ia melhor. Joo Pedro, mais acostumado ao mar
do que ela, ensinara-lhe um bom sistema: no se crispar,
deixar-se ir ao sabor dos movimentos mais imprevistos, sem
reaco, e, tanto quanto possvel, olhar para longe.
Infelizmente, uma pessoa cansava-se depressa de contemplar
aquele mar montono e cinzento sobre o qual o Titan traava,
havia quatro dias, um uniforme rasto de espuma que lhe seguia
a popa, durante alguns metros, e depois se desvanecia
absorvido pela imensidade lquida.


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  De repente, Mone ps-se a berrar:
  - Est a assoprar! Est a assoprar! Ali! ali! ali!
  Muito excitada, estendia o dedo na direco em que acabava
de descobrir uma baleia. Os seus olhos estavam cravados sobre
aquelas colunas de gua que descreviam belas curvas brancas,
se desenvolviam em esplndidos penachos e tornavam a cair em
finas gotculas.
  Joo Pedro foi tambm imediatamente subjugado por aquele
espectculo, impossvel de ver pela primeira vez sem
experimentar uma estranha emoo.
  Esquecendo as indicaes dadas pelo imediato, no procurou
determinr o gnero de baleia avistada, a distncia a que se
encontrava do barco, nem a sua situao.
  Estendendo o brao como Mnica, gritou, tambm, com tdas as
suas foras:
  - Est a assoprar! est a assoprar! Ali! ali! ali!
  Por debaixo deles, a ponte animava-se. Daniel, com a mo em
viseira, olhava atentamente na direco indicada pelos
grumetes.
  Galtier saiu precipitadamente do camarote e ps-se a
verificar o longo cabo de cnhamo que exigia uma ateno muito
particular. Os primeiros sessenta metros, presos ao arpo,


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estavam enrolados com muito cuidado e metidos dentro duma cuba
situada  proa, prximo do canho; depois, o cabo entrava num
sistema de pols de contrapeso, mesmo por baixo da gvea, e
descia por uma estreita escotilha para uma cmara especial, 
proa, onde estavam mil metros bem enrolados.
  Quando o arpoador atirava os primeiros.
 , metros desenrolavam-se  velocidade da projeco do arpo;
depois, a baleia atingida fugia, arrastando o cabo que devia
deslizar sem fazer ns. Quando o animal se empinava, os
contrapesos afrouxavam automaticamente a corda e evitavam a
sua ruptura. Se o menor incidente se opunha a este desenvolver
contnuo e flexvel, o cabo rompia-se inevitavelmente e baleia
e arpo estavam ento perdidos...
  Quando o capito Mallard chegou  ponte de comando,
inteiramente descoberta como  costume nos baleeiros, os
grumetes tiveram a impresso de que ele titubeava. Teve de se
encostar trs o quatro vezes ao parapeito antes de ir
substituir o marinheiro Koublack, que estava ao leme.



                              87


   altura do portal, Gotborg, de p na amurada, pendurado na
enxrcia, gritava, em noruegus, algumas indicaes para
Waams, o chefe maquinista, cuja cabea calva acabava de
aparecer no cimo da escada de acesso  casa das mquinas.
  O clin, clin - clin, clin, do telgrafo de bordo f-lo
desaparecer na casa da caldeira. As baleias tinham mergulhado.
  Joo Pedro e Mone, de nervos tensos, perscrutavam o mar,
ansiosos por saber onde iria de novo surgir o impressionante
geyser.
  De cada lado da roda de proa do Titan, o debrum de espuma
aumentara e,  r, as hlices remexiam o mar em cacho.
  A caa comeara.
  Bruscamente, a duzentos metros da proa, acabava de emergir
uma espcie de rocha luzidia. Joo Pedro e Mone no puderam
deixar de sentir um receio instintivo, vendo ondular aquela
massa informe de que se adivinhava o tamanho gigantesco. Dois
potentes jactos de gua pulverizada elevaram-se quase
imediatamente a seis metros de altura, alargando-se, ao cair,
como um ligeiro vu de musselina.
  Observavam, com o corao batendo, quando, de repente, a
menos de cinquenta metros  r, duas trombas de gua subiram
para o cu, acompanhadas de um rudo aterrador de monstro


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que sopra. As duas crianas ficaram mudas de emoo e medo.
  Mnica pensara algumas vezes que sentiria pena das baleias,
que aquela caada lhe seria penosa; mas, agora, o seu tamanho
desconcertava-a. Eram demasiado grandes para que pudesse
experimentar outro sentimento que no fosse o receio.
  Joo Pedro sentia uma espcie da embriaguez instintiva de
caador, misturada com uma parte de pavor, que procurava
reprimir.
   proa, Galtier vigiava, por detrs do canho donde saa a
ponta articulada do arpo. Descalo, como de costume, com as
pernas ligeiramente flectidas, seguia atentamente cada
movimento do animal.
  Agora j no era o capito Mallard quem comandava, mas ele,
o arpoador. Com os braos, fazia sinais convencionados para a
ponte e o barco evolucionava  direita ou  esquerda, diminua
ou aumentava de velocidade.
  Pareceu no dar ateno ao animal que aparecera  popa e
acabava de mergulhar, mas no afastava o olhar do outro do
qual o Titan se aproximava velozmente.
  Em dado momento, Galtier estendeu o brao esquerdo;


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o barco no obedeceu imediatamente e o marinheiro manifestou
irritao.
  A baleia acabava de obliquar para bombordo e o baleeiro
ficou mais distanciado. Foi-lhe preciso descrever um
arco-de-crculo antes de retomar a perseguio. O enorme
mamfero voltava a desaparecer.
  No entanto, o arpoador continuava a dar as suas indicaes
mudas, como se pressentisse em que stio exacto ele iria
emergir. A bordo tudo se calava, era o instante crtico.
  - Ti tch ch ch ch ch ch!... Como um submarino ao alcanar a
superfcie, o monstro surgiu, esguichando pelas narinas dois
jactos grossos como punhos. Estava a cinquenta metros...
  Galtier esperava-o, segurando a culatra do canho. Apontou.
Ia atirar, quando o Titan deu uma guinada brusca para bombordo
e se afastou.
  O arpoador voltou-se como uma mola e ficou um momento
interdito; depois, vendo que o navio mudava resolutamente de
rumo e que o telgrafo de bordo tocava a meia-fora, veio at
junto da ponte.
  - Ento? O que  que se passa? - gritou com mau humor na
direco de Mallard, que o observava de braos cruzados sobre


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o parapeito. - Fui admitido como arpoador ou como turista?
  - Demasiado receosas, demasiado longe... - respondeu o
capito com uma voz espessa. - Perdemos o nosso tempo.
  Galtier encolheu os ombros e, com os dentes cerrados, voltou
para a cmara. Ao cruzar-se com Daniel, que subia a escada que
levava  entreponte, disse friamente:
  - O patro est ainda bbedo. Por este andar, no ganharemos
a nossa cdea antes do Inverno.
  Pela atitude de Galtier, Mallard compreendeu imediatamente
que o arpoador no era um simplrio, antes conhecia demasiado
bem o seu ofcio para que se lhe ensinasse alguma coisa sobre
os hbitos das baleias ou a distncia de tiro. H animais
bastante receosos que no se podem atingir, havendo um limite
para lhes atirar - mas no era esse o caso.
  Galtier tinha adivinhado a verdade: o capito estava brio.
Aos seus reflexos entorpecidos pelo lcool, faltava rapidez e,
no ltimo momento, perdeu o equilbrio, provocando uma falsa
manobra ao apoiar-se  roda do leme.


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  A partir desse dia, Mallard pareceu experimentar um surdo
rancor pelo marinheiro que descobrira a sua deplorvel
mentira.
  Por seu lado, Galtier tambm no tinha qualquer simpatia
pelo chefe. No podia estimar e respeitar um capito que se
embebedava no mar, sozinho na sua cabina. J bem custava
obedecer-lhe! Felizmente que, por outro lado, a equipagem
tinha poucos contactos com ele. A maior parte das vezes era
Daniel quem dava as ordens e distribua o trabalho. E cada um
recebia uma tarefa bastante grande para no ter tempo de
flanar e lamentar-se, a um e a outro, da sua prpria sorte.
  O arpoador devia ocupar-se da manuteno de todos os
instrumentos de pesca e de esquartejamento; Gotborg e os
grumetes, na cozinha, da limpeza dos fornos e dos alguidares
em que se fundia a gordura de baleia; Koublack, da limpeza da
ponte e da lavagem dos barris destinados ao leo. A Waams e a
Klein, seu ajudante, cabia o cuidado das mquinas e do
cabrestante.
  Evidentemente que havia ainda as horas de quarto e a
observao no posto de vigia que precisavam assegurar, cada um
por sua vez, noite e dia. Oh! no era uma viagem de recreio!
Mone e Joo Pedro, com os olhos avermelhados por dormirem
pouco, pensavam s vezes, com amargura, nas belas frias


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que os seus camaradas deviam passar na longnqua terra de
Frana.
  O que os reconfortava era saberem que ganhavam a sua vida.
As refeies que comiam, a cama onde se enfronhavam num sono
profundo, eram-lhes devidos pelo seu trabalho; e a isso
juntar-se-ia ainda, no fim da campanha, uma soma ganha por
eles.
  J no se abandonavam a Galtier como crianas despreocupadas
e incapazes; ajudavam-no o melhor que podiam a reunir o
dinheiro necessrio para o seu repatriamento e sentiam Por
isso, um legtimo orgulho, uma espcie de alegria que os fazia
aceitar quase de bom grado os momentos difceis da sua
situao.
  No entanto, a vida a bordo seria mais agradvel se aquela
bruma fria e lvida que envolvia o Titan quisesse dissipar-se.
Havia mais de quarenta e oito horas que persistia e todos eram
obrigados a roubar tempo ao seu repouso para duplicar as horas
de quarto.


  Uma tarde, a neblina desapareceu quase instantaneamente,
varrida por um forte vento de Noroeste que encapelou
imediatamente o mar e o cobriu, aqui e ali, de cristas agudas.


                              93


  Estava-se na hora em que o sol espalha no firmamento clares
de incndio, iluminando o horizonte como um eterno fogo de
artifcio de tons verdes e dourados.
  Aquele astro invisvel e fixo, cuja luz difusa iluminava de
uma maneira estranha, em plena noite, a extenso deserta e
sombria do mar, criava um ambiente trgico, um pouco
aterrorizador.
  - Devia ser assim no princpio do mundo - pensavam Mnica e
Joo Pedro, que o balancear do barco sacudia cada vez mais
fortemente no posto de vigia.
  De repente, a duas milhas ao sul, a bombordo, de novo se
elevou, para o cu acobreado, o sopro potente e majestoso das
baleias.
  O Titan, que fazia rumo ao Norte, animou-se imediatamente;
Galtier trepou pela enxrcia e ficou a observar
silenciosamente enquanto, em baixo, os homens, acordados
precipitadamente, corriam para os seus postos depesca.
  Desta vez as baleias vinham em rebanho, dirigindo-se para
Oeste, quarto de Noroeste e nadavam depressa.
  Galtier desceu para o convs, no momento em que Waams se
enfiava na casa da caldeira.


                              94


  O arpoador no se dirigiu imediatamente para a proa: foi at
ao p da tolda, decidido a recusar-se a tomar as suas funes
se Mallard ainda estivesse embriagado. Mas o capito,
mantinha-se de p, ao leme, e, pela maneira como dava as
ordens, Galtier viu que no tinha bebido.
  Dirigiu-se ento sem dizer nada para a plataforma onde
estava montado o canho do arpo.
  No entanto, o olhar do marinheiro e o seu mudo significado
no haviam escapado a Mallard. Teve um sorriso irnico. Aquele
arpoador permitia-se fazer-Lhe censuras... Considerava-se
tratado como turista... Aquela ocasio era escelente para lhe
abater a soberba.
  Com aquela forte ondulao de Noroeste, com o rebanho de
baleias a correr a oito ns, a caada ia ser extremamente
difcil... Mallard queria dar-lhe uma lio de mestre diante
de toda a gente, para lhe ensinar a julgar o seu capito. Com
calma, esperou os sinais de Galtier.
  As baleias iam quase contra o vento, seguindo uma direco
SE.-NW, que fazia um ngulo de cerca de 40 graus com o rumo
seguido pelo Titan, Bastava o barco diminuir a velocidade e ir
por bom bordo, para as alcanar.


                              95


  No entanto, Galtier levantou o brao direito e descreveu um
rpido molinete que significava: "leme a estibordo, velocidade
mxima". Mallard fez uma careta; Galtier tinha evitado o erro
clssico e comandado a manobra precisa. Isso j provava que
conhecia as manhas do ofcio.
  Com efeito, as baleias no tm boa vista; em contrapartida,
possuem um ouvido muito apurado. Se o Titan tivesse ido pela
esquerda, no deixariam de perceber o rudo do motor, levado
pelo vento, e o rebanho ter-se-ia dispersado; fugiriam
apavoradas e no seria possvel apanhar uma nica.
  A manobra por estibordo fazia-se contra o vento at ao
momento do encontro e assim as baleias no podiam ouvir o
Titan.
  Do posto de vigia, os dois grumetes viram aparecer em breve,
a duzentos metros da proa, os longos dorsos negros e
brilhantes.
  A brisa, muito fresca, transformava os sopros em cortinas de
chuva fina sob a qual os corpos imensos e maravilhosamente
recortados avanavam com movimentos lentos e flexveis.
  Pequenos rastos de espuma branca, contra a pele de reflexos
brilhantes, indicavam a sua velocidade.


                              96


  Agora o Titan aguentava as ondas de trs quartos, rolando e
balouando de proa  poPa.
  A posio do arpoador tornava-se muito delicada, as vagas
quebravam-se contra o flanco do barco e cobriam de borrifos a
plataforma Por vezes, mesmo, ao rebentarem a proa desaParecia
sob uma larga cortina lquida.
  Mallard continuava a sorrir; Galtier no aguentaria muito
tempo esta prova, ia dar ordem de diminuir a velocidade e, se
afrouxassem, as baleias passariam  frente... Ento ele
interviria...
  Espreitava o gesto; o arpoador no o fez.
  No entanto estava completamente ensopado, a gua pingava-lhe
da camisola e das calas molhadas, moldava-lhe as coxas e as
pernas musculosas, semiflectidas.
  Eis que levanta o brao, reclamando  esquerda e a toda a
fora.
  Daniel, de p, por detrs do capito, murmurou-lhe ao
ouvido:
  - Um bravo rapago, tem olho. Encontrou o bom rumo; se
acerta ao primeiro golpe, ser uma boa vitria...
  - Aquela vai tram-lo - resmungou Mallard como resposta,
vendo chegar uma onda, muito forte que cobriu inteiramente a
proa.


                              97


  Mas no. O arpoador continuava de p, as costas curvadas, as
pernas afastadas, as slidas mos segurando com fora a
culatra do canho. A tripulao estava muda e seguia
apaixonadamente os ltimos instantes daquela caada difcil.
  Os animais tinham mergulhado, iam emergir de um instante
para o outro.
  - Ti tch, ch, ch, ch, ch, ch Ali, a cem metros, um rudo de
caldeira que rebenta, de vapor que se escapa... Uma massa
sombria de reflexos castanhos parece rolar como um pneu
gigantesco de que s se visse uma parte.
  Galtier comanda, com o brao, mais alguns graus a bombordo.
O Titan aproxima-se a toda a velocidade, oitenta... setenta...
sessenta metros... Dentro de alguns segundos, a baleia passar
mesmo  frente, depois afastar-se-. Est pouco mais ou menos
a quarenta metros.
  - Demasiado longe, demasiado mar, vai falhar - diz Daniel em
voz baixa.
  No entanto, Galtier apontou para o vrtice de uma onda,
atravs de uma chuva de fustigantes borrifos... O tiro
partiu...: O arpo bate num floco de espuma.


                              98


  Daniel, Mallard, toda a tripulao, notou que tinha
penetrado mesmo atrs da comissura dos lbios. O ponto ptimo,
o dos mestres arpoadores. A lio fora dada por Galtier...
  Do tonel de vigia, os grumetes seguiram a cena.
  Logo que o dardo de ferro picou, a baleia imergiu. Viram
elevar-se, seis metros acima do nvel das ondas, o terrvel
triangulo da barbatana caudal.
  Agora, a grande pol que estava sob os seus ps, fazia
vibrar o mastro. O cabo deslizava a toda a velocidade e
mergulhava obliquamente no mar.
  Joo Pedro e Mnica desceram a toda a pressa para a coberta.
  Galtier continuava na proa; Daniel estava perto de Waams,
que accionava o cabrestante Para ver se funcionava
normalmente.
  O cabo desenrolava-se, desenrolava-se sem cessar.
  - O que  que se passa? - perguntou Joo Pedro a Daniel.
  - Est a sondar - respondeu o imediato.
  - Profundo?
  - Cinquenta, setenta, cento e cinquenta metros, talvez mais.


                              99


 um rorqual velho, deve ter bem os seus trinta metros de
comprimento.....
  A fuga tornou-se em breve menos rpida, a amarra deixou de
correr.
  Galtier, que no abandonara a plataforma do canho, gritou
para Waams:
  - Puxa! Ia outra vez.
  O chefe maquinista enrolou logo o cabo de cnhamo no
cabrestante e esticou-o. A baleia aproximava-se. A cabea
emergiu de repente e o seu sopro estalou como o jacto de um
extintor de incndios, a quinze metros do barco. Tinha ainda
fora bastante para arrastar o Titan que afrouxara a
velocidade.
  - Larga! Larga! - comandou Galtier.
  Waams parou imediatamente e o enorme cetceo desapareceu de
novo, arrastando o cabo.
  Pela maneira como o fio corria agora, adivinhava-se que o
animal se esgotava. Veio ainda  superfcie a mais de vinte e
cinco metros e ali, de repente, com um estertor que parecia o
mugido da sereia dum cargueiro, a baleia soprou sangue pelas
narinas. O penacho rosado, depois vermelho, inundou e coloriu
o mar com uma mancha purprea.
  Mnica desviou os olhos. Aquele espectculo perturbava-a.


                              100


Quis diz-lo a Joo Pedro, mas o rapaz estava com os
marinheiros e no parecia sentir o mesmo gnero de emoo.
Sentira um pungente aperto no corao no momento em que a
baleia tinha florido como dizem os marinheiros; mas dentro
dele reinava uma espcie de alegria instintiva pela derrota do
monstro.
  Participara na caada e, agora, sentia-se orgulhoso por
pertencer  equipa cuja destreza, tcnica e harmonia tinham
levado  captura daquele enorme animal.
  - Puxa! Puxa! - gritou Galtier a Waams que manobrou de novo
o sarilho, aproximando a baleia do Titan.
  Joo Pedro e Mone contemplavam, um pouco espantados, aquela
massa negra que se assemelhava  carlinga de um grande avio
de transporte.
  - Parece que tem vassouras na boca - notou Mnica.
  -  a parte inferior das barbas - explicou-lhe Daniel. - As
barbas so como que uma espcie de lminas distando alguns
milmetros umas das outras, com grandes plos na parte que
est voltada para o interior da boca.
  Joo Pedro teria desejado fazer maior nmero de perguntas;


                              101


mas Mallard acabava de chegar ao portal e ordenou com voz
forte:
  - Waams e Klein, soprem! Koublac, entrana o cabo no segundo
arpo com Galtier, imediatamente!
  Gotborg subiu, descalo, para o largo dorso do rorqual e,
com a ajuda de uma lana, fez um buraco pelo qual meteu um
tubo.
  - O que  que eles esto a fazer? - perguntou Joo Pedro ao
imediato.
  - Metem ar no interior da baleia para que possa flutuar.
Vamos deix-la  rola e prosseguir a caada.
  - E como a tornaro a encontrar?
  - Espeta-se a bandeirinha do Titan em cima e marca-se a
posio.
  Os grumetes olhavam, com curiosidade, para os homens que
insuflavam o ar, quando a voz do capito os chamou 
realidade.
  - Os grumetes! Depressa para cima, para a gvea.
  Mone e Joo Pedro treparam pela enxrcia at ao posto de
vigia.
  - Hoje, creio que no vamos dormir nada - disse Mnica,
instalando-se.
  - No tenho essa impresso - respondeu Joo Pedro. - Pelo
menos, no  vontade o que me falta!


                              102


  Lanaram um ltimo olhar para o cadver que flutuava como um
dirigvel cado ao mar e em volta do qual adejavam j grandes
pssaros marinhos, no cu rosado da manh que rompia.
  Ao longo dos costados, a gua cinzenta fervilhava de orcas
(1) e espadartes - esses inimigos jurados das baleias que se
precipitavam Para devorar a lngua do mastodonte, de que so
particularmente gulosos.
  - Joo Pedro, olha, ei-las! a esto outras...
  Est a assoprar! Est a assoprar a Es-Nordeste...
  Est a assoprar! Est a assoprar!.
  Duas horas mais tarde estava apanhada uma segunda baleia.
  Mone e Joo Pedro desceram do mastro, enquanto Gotborg e
Galtier preparavam a estivagem do cetceo.
  Mallard, no posto do timoneiro, manobrava para conduzir o
Titan at junto do animal.
  Havia rudos de cadeias removidas, ordens gritadas, guinchos
de aparelhos que gemiam.
  Por fim a campainha do telgrafo de bordo ressoou na casa da
caldeira e Waams engatou em: " vante, devagar". O navio rodou
e l foi pesadameente em perseguio do rorqual.


  *Cetceos da famlia dos golfinhos.


                              103


  - Gotborg, KLein, de quarto! - Disse Daniel. - Todos os
outros vo dormir.
  Os grumetes no precisavam que lho dissessem.


                              104
  

                              VI


     QUANDo Gotborg foi acordar os grumetes, o Titan j
pairava, havia muito tempo, com as duas baleias amarradas, uma
a bombordo, outra a estibordo.
  O vento tinha amainado e o sol brilhava alto no cu plido,
provocando lindos reflexos de um verde profundo  superfcie
do mar.
  Os marinheiros no deviam ter dormido muito porque j
estavam todos a trabalhar.
  Koublack e Klein, descalos, em cima do dorso da baleia,
trinchavam, a golpes de ps cortantes, grandes mantas de
toucinho. Depois enfiavam num dos extremos daquelas mantas um
gancho unido  talha que pendia ao longo do mastro. Com o
sarilho, Waams operava uma traco que despedaava a talhada
de toucinho. Era preciso em seguida cort-la em bocados muito
pequeninos para serem fundidos... Este era o trabalho de
Gotborg e Joo Pedro.


                              105


  De p, em frente de enormes mesas de grosso carvalho
cortavam, incessantemente, as peas de gordura com a ajuda de
facas de lminas muito largas, semelhantes aos machetes dos
carniceiros:
  Os bocados eram lanados em bacias colocadas nas fornalhas
de tijolo que Mnica tinha a seu cargo. Devia vigiar a fuso e
alimentar com os detritos de toucinho de qualidade inferior.
  Este trabalho, menos duro que o de Joo Pedro, era
repugnante e bem mais desagradvel porquanto o cheiro da
gordura de baleia fervida e queimada era infecto.
  Sentado  maneira dos alfaiates, com as pernas cruzadas sob
o corpo, Galtier limpava as peas desmontadas do seu
canho-arpo. Estavam dispostas em cima dum quadrado de lona e
engraxava-as ou oleava-as com o maior cuidado.
  J havia sido esquartejado mais de um tero do primeiro
cetceo, quando o capito Mallard chegou ao balastre da
ponte, apoiando os dois braos no parapeito. Tinha o rosto
congestionado e os olhos inchados. Esteve a observar o
trabalho dos marinheiros, durante um instante, e depois desceu
at  coberta, esforando-se, com dificuldade, por conservar o
equilbrio.


                              106


  Entretanto, chegou at junto do pau de carga e agarrou-se
aos ovns murmurando palavras incompreensveis, como o fazem
muitas vezes os homens embriagados. De repente, ao levantar a
cabea, notou perto dele, do outro lado da amurada, o
marinheiro esquim, Koublack, que o observava.
  - Ento!
  - Bigodes de foca, cansa-te muito trabalhar?
  O homem voltou a pegar no cabo da sua p cortante e
apressava-se a retalhar de novo quando Mallard o agarrou pelo
ombro e empurrou brutalmente.
  Koublack estava descalo, no esperava por aquela violncia,
perdeu o equilbrio e escorregou na pele viscosa de sangue e
gordura da baleia. Ao cair, retalhou a coxa com o gume afiado
da faca. Se tivesse cado ao mar, a perder sangue pelo
ferimento que acabava de fazer, as orcas e os espadartes que
giravam em torno do cadver do cetceo, t-lo-iam
imediatamente feito em pedaos. Felizmente Klein, que
segurava, com uma das mos, o gancho da talha, teve o reflexo
de se lanar de barriga para baixo e segurar, com a mo livre,
o fato do marinheiro. Colocado, ele prprio, em situao
delicada por causa do peso do camarada que ameaava arrast-lo
consigo, pediu ajuda.


                              107


  Waams galgou a amurada e foi socorr-lo; Galtier tambm
acorreu. Encontrou-se em face de Mallard no momento em que
Koublack e Klein subiam.
  - O que  que tens que te misturar aqui? - lanou-Lhe o
capito. - Volta para o teu trabalho.
  Como seguisse, com olhar malvolo, o arpoador, que voltava
para a proa, notou, de repente, o quadrado de lona onde
estavam colocadas as peas do canho desmontado.
  - Com mil raios! Mas aquele julga que est na Feira da
Ladra! - gritou.
  O seu furor deu-lhe equilbrio bastante para alcanar o
marinheiro.
  - Apanha-me esses berloques imediatamente! - ordenou. - Quem
te disse para montar todas as peas de metal? O meu barco no
 uma barraca de ferro-velho!
  - Estou a limpar o mecanismo do canho. Foi assim que me
ensinaram a fazer nos barcos americanos.
  - Aqui, no estamos num baleeiro americano e quero l saber
o que te ensinaVam os americanos, apanha isso depressa!
  Mallard deu um estpido pontap no quadrado de lona.


                              108


O seu estado de embriaguz no lhe permitiu medir a fora e as
peas espalharam-se pela coberta, o percutor e a mola rolaram
at ao embornal e caram ao mar.
  - Vs! Vs o que acontece - berrou o capito fora de si -,
quando uma pessoa se pe a brincar aos mecnicos?
  - A culpa  sua e no minha - ripostou o arpoador. - Eu fiz
o que devia.
  Mallard aproximou-se dele, contraindo os grossos lbios
arroxeados pelo lcool, como se fosse lanar uma suprema
injria; depois pareceu mudar de ideias e, com as costas da
mo, esbofeteou Galtier.
  A tripulao, que seguira com os olhos toda a cena,
compreendeu que iria passar-se qualquer coisa muito grave.
  Plido, os traos endurecidos, Galtier esforou-se por
dominar a clera. Mallard notou os punhos cerrados  altura
dos bolsos, os braos potentes cujos msculos tufavam a l da
camisla, o ar de terrvel deciso.
  Pareceu-Lhe discernir clares de assassnio nos olhos do
marinheiro e teve de repente a noo de que nada era,
comparado com Galtier. Apavorado, procurou uma arma com o
olhar.
  O arpo estava-lhe ao alcance da mo; apoderou-se dele.


                              109


Era uma pea formada por uma dupla haste de ao, com metro e
meio de comprimento e trs centmetros de espessura,
terminada, num dos extremos, por um dardo em forma de lana,
aguado como uma lmina, feito para penetrar no corpo da
baleia.
  Mallard brandiu-o acima da cabea... No terminou o
movimento. Galtier tinha-lhe agarrado rapidamente o punho e os
seus dedos apertavam-no como tenazes.
  Com a dor, Mallard teve de largar a presa. O marinheiro
agarrou na arma com as duas mos.
  O capito sentiu que um suor frio lhe perlava a fronte. A
tripulao estava aterrada.
  O arpoador levantou o joelho e, de um s golpe, partiu o
arpo pelo meio como teria feito a um vulgar cabo de vassoura.
  Um pouco acalmado por aquele gesto onde aplicara toda a
fora da raiva que sentia contra Mallard, Galtier articulou
mesmo no nariz do adversrio aterrorizado:
  - Se eu quisesse, pedir-me-ias, de rastos, perdo, por
aquela bofetada... Tens a sorte de ser capito e estarmos no
mar. Somente te vou dizer uma coisa: no s digno de ser
capito.
  Galtier procurou uma outra frase para fustigar Mallard com o
seu desprezo mas no encontrou nada mais desprezvel do que



                              110


o que acabava de pronunciar; e ento, levantando os ombros,
escarrou aos ps do comandante, em frente de toda a
tripulao, e, voltando-lhe as costas, tornou para o seu posto
na proa.
  Mallard ficou por um momento embrutecido, como um lutador
que acabasse de receber um rude golpe. Depois quis dirigir-se
para a tolda.
  O seu p hesitante tropeou numa corda e caiu pesadamente
sobre a coberta. Ficou ali, estendido, sem fazer o menor
esforo para se levantar.
  Durante a primeira parte da altercao, Daniel encontrava-se
na enfermaria ocupado com o curativo de Koublack; s viu o fim
da cena e dirigiu-se, sem apressar o passo, para a proa.
Chegou no momento em que Mallard estrebuchava.
  - Gotborg e grumetes! - ordenou. - Levem o capito para o
camarote, se fazem favor.
  Mallard deixou-se transportar como um cepo, sem opor a menor
resistncia. Murmurava ininteligveis murmrios que se
assemelhavam ao rosnar surdo de um animal.
  Quando o deitaram no beliche, Daniel fechou a porta com o
ferrolho e f-los entrar, todos trs, num pequeno
compartimento contguo. Aquela diviso fora prevista para
permitir ao capito observar o trabalho ou o andamento do


                              111


barco por uma vigia que dava para a ponte, ao mesmo tempo que
tomava as refeies ou descansava.
  - Sentem-se, vou-lhes oferecer qualquer coisa - disse o
imediato, abrindo um pequeno armrio donde tirou quatro copos
e uma garrafa de porto.
  Ao terminar a tarefa, disse simplesmente:
  - Agradeo-lhes terem trazido o capito para aqui.
  Mnica fixou o imediato nos olhos e, sem a menor timidez,
disse-lhe:
  -  triste chegar quele estado!
  - Quase acreditei - acrescentou Gotborg -, que Galtier lhe
ia limpar o sebo.
  - Eu sabia que ele no lhe tocaria - explicou Joo Pedro. -
Um marinheiro nunca ataca um capito, no mar.
  Daniel olhou-o sem responder; e, como ningum dissesse mais
nada, replicou com uma ponta de amargura na voz:
  - Se o tivessem conhecido h vinte anos, no se lembrariam
de lhe faltar ao respeito. Era outro homem...
  - Foi a bebida que o tornou assim? - perguntou Joo Pedro.


                              112


  - Sim, foi sobretudo a bebida e tambm o filho, um mau filho
a quem cabe uma pesada responsabilidade.
  - Que foi que ele fez? - perguntou Mone.
  - Deixou-o um belo dia, sem mesmo dizer adeus, levando todo
o dinheiro que tanto lhe custara a ganhar.
  - E no o procurou?
  - No.
  - Nunca mais o tornou a ver?
  - No. Soube somente que tinha levado uma vida desordenada e
que morrera depois num acidente de automvel. Foi ento que
comeou a beber.
  O imediato lanou um olhar pela vigia. Os homens deixaram de
trabalhar e cercavam Waams. A discusso parecia animada.
Daniel tornou a pegar no seu copo de porto, olhou-o como um
objecto curioso e prosseguiu:
  - Enquanto a mulher foi viva, as coisas foram andando menos
mal; mas ela no pde sobreviver  provao e morreu de
desgosto dois anos mais tarde. Depois, deixou-se ir  deriva.
  - Conhece-o h muito tempo, Sr. Daniel? - perguntou Gotborg.
  - Casou com a minha irm, h trinta anos, tinha eu vinte,


                              113


pouco mais ou menos. Ele tem mais sete anos que eu. Somos
ambos de Fcamp. Dantes, o Titan, armado para a pesca de
arrasto, voltava ali regularmente. Mas desde que Mallard se
meteu a pescar baleias, temos feito estadias cada vez mais
prolongadas na Islndia.
  O olhar de Daniel passava de tempos a tempos pelo vidro, ia
e vinha, como os raios de luz dum farol. O seu rosto
mantinha-se impassvel. Estava sentado e conversava
amigavelmente, to calmo como se nada de grave tivesse
acontecido ou se fosse passar.
  Procurou na carteira e colocou, sobre a mesa, uma
fotografia.
  - Reconhecem-no?
  -  ele? Nunca o acreditaria. Que idade tinha?
  - Vinte e seis anos, e j comandava o brigue Fleurus. No
havia em toda a frota baleeira da poca, fosse na dos
americanos, dos russos ou dos noruegueses, um nico arpoador
que pudesse medir-se com ele. Fizera-se por si prprio, pelo
seu trabalho e pela sua coragem, e para isso era necessrio
ento um esforo maior do que hoje, acreditem-me.
  Daniel observou durante um momento, pela vigia, Waams


                              113


e o grupo que o cercava. E depois, sem manifestar o menor
nervosismo continuou:
  - Nessa poca ainda no se conhecia o canho-arpo; era
preciso picar a baleia  mo, em doris de seis metros de
comprimento por um metro e sessenta de largura... Por vezes
eram projectadas no ar, a vinte ps de altura, com um golpe da
cauda, e quebradas como cascas de noz.
  - Isso aconteceu-lhe? - perguntou Joo Pedro.
  - Sim, duas ou trs vezes, mas nunca esquecerei a primeira.
  - Conte-nos, Sr. Daniel - pediu o grumete.
  O imediato reprimiu um ligeiro sorriso; previra aquele
pedido, tinha-o mesmo subtilmente provocado; aquele relato que
Gotborg e os grumetes no deixariam de repetir aos outros,
talvez modificasse um pouco a opinio da marinhagem acerca de
Mallard e lhe permitisse restabelecer depois a sua autoridade.
  Em todo o caso, ia dar tempo para os homens que l estavam
em baixo reflectirem bem antes de tomarem uma resoluo que
Daniel sabia ser capital.
  - Eu j navegara bastante mas nunca num baleeiro. Mallard,


                              114


que estava noivo da minha irm e devia despos-la no regresso
da campanha, props-me embarcar no Fleurus, que ele comandava
- um dos ltimos baleeiros  vela. J tinham sido apanhadas e
esquartejadas quatro autnticas baleias. Isso no me havia
impressionado nada. Desempenhava as funes de intendente e de
enfermeiro de bordo e no participava na caada. Vira os doris
partir, e seguira com os olhos as suas evolues e as
peripcias da captura dos cetceos. Isso passava-se ao longe.
Logo que o conseguiam, os homens rebocavam, a remos, os
animais at ao navio e procedia-se ao esquartejamento. Uma
manh, encontrava-se o Fleurus a trezentas milhas a Oeste de
Nova Calednia, a 4 graus de latitude Sul, quando o vigia
assinalou um rebanho a uma milha de distncia, com vento a
favor. Os homens, todos antigos baleeiros, notaram
imediatamente que se tratava de cachalotes.
  - Como  que o podiam saber de to longe? - inquiriu Mnica.
  - Os cachalotes s tm uma narina, situada na ponta do
nariz, enquanto que as baleias tm duas no cimo da cabea;
alm disso o seu sopro tem uma inclinao de 5 graus a 55 para
a frente, um sopro baixo, largo, potente. As baleias, pelo
contrrio, sopram a direito e mais alto. "Aparelhem os doris -
comandou Mallard, e deitem-nas ao mar imediatamente...
  Ningum se moveu. Sabiam todos o que acontecera ao Essex e
ao Ann Alexander com os cachalotes e no os queriam caar.
  - Porqu? - perguntou Joo Pedro. - Os cachalotes so mais
perigosos que as outras baleias?
  - Muito mais. Primeiro, porque tm uma goela enorme, armada
de dentes com mais de dez centmetros de comprimento, no
maxilar inferior, e no maxilar superior uns alvolos onde eles
se encaixam para melhor despedaarem as suas presas.
  - O que  que aconteceu ao Essex e ao Ann Alexander? -
interrompeu Gotborg.
  - Acidentes que aqueles que nunca caaram o cachalote tm
dificuldade em acreditar. O Essex acabava de pr na gua os
doris que se dirigiam para um rebanho de cachalotes, quando um
dos animais carregou sobre o navio e o atingiu com a cabea
com tanta fora que Lhe quebrou a falsa quilha. Os homens
viram ento uma enorme mandbula tentando morder o costado;
depois o monstro afastou-se at a um quarto de milha, virou-se


                              115


e carregou a direito sobre a roda da proa. O Essex navegava a
cinco ns com as velas colhidas. Sob o choque, recuou a uma
velocidade de quatro ns, formando-se  r uma enorme vaga. A
gua introduziu-se a bordo pelas janelas do castelo da popa e
invadiu a construo. Os doris reuniram-se imediatamente, mas
o navio estava perdido; um barco com uma capacidade de mais de
trezentas toneladas! Felizmente a tripulao tinha conseguido
apanhar um pouco de po e gua na entreponte e embarcar nos
escaleres antes do Essex soobrar...
  - E ao Ann Alexander? - perguntou Joo Pedro.
  - Aconteceu uma aventura semelhante; mas dessa vez foi
depois do cachalote ter sido atingido.
  - Que foi que ele fez?
  - No procurou fugir como fazem habitualmente as baleias;
voltou-se para os doris que o tinham atacado e atirou-os de
pernas para o ar. Depois, arremessou-se sobre o Ann Alexander
e, s cabeadas, arrombou os costados e o cavername at que o
veleiro se afundou.
  -  incrvel! - interrompeu Mone.


                              116


  - Talvez seja incrvel, mas  verdade. Uma vez, prximo do
Georges Banks, um cachalote, depois de ter despedaado um
dori, enfiou, pela goela abaixo um dos homens que o tripulavam
e engoliu-o, sob os olhares dos seus camaradas!
  Daniel prosseguiu o seu relato:
  - Mallard era muito jovem e os homens do Fleurus, todos pelo
menos mais velhos dez anos do que ele, esperavam faz-lo
ceder. Mas quando o viram passar o comando ao imediato, tomar
no doris o lugar do arpoador e dar-me a mim, o novato, o
governo do leme, no ousaram dizer mais nada. Quatro
veteranos: Bourgneuf, Lebrec, Rotz e Heaton, completaram a
tripulao sem protestar. A embarcao avanava com um bom
andamento e em silncio, segundo o uso, os remos levavam, por
cima, uma trana de cnhamo para evitar o rudo e ningum
conversava... Ao princpio, eu estava muito ocupado em segurar
o leme e seguir as indicaes que Mallard ia dando com os
braos, para pensar em olhar ao longe; mas de repente


  *Ver nota final,


                              119



  os animais emergiram a menos de cem metros e ouvi os seus
sopros. Dir-se-ia o rugido de um trovo repercutindo de eco em
eco (1). No pude reprimir um estremecimento. Todos tnhamos
notado uma coluna de bapor de gua mais alta do que as outras
e era para ela que Mallard nos dirigia. Soprava uma fraca
brisa de Es-Nordeste. Instintivamente voltei-me para procurar,
com os olhos, o Fleurus. Seguamos suavemente, a uma milha de
distncia, com as velas da gvea, a giba, a bujarrona e a
mezena desfraldadas. A trinta metros do cachalote, senti
bruscamente medo e pnico, se estivesse sozinho teria dado
meia volta. Sobre os rostos dos quatro remadores reflectia-se
uma inquietao que tambm no conseguiam dissimular.
Aproximvamo-nos. Aproximvamo-nos. As vagas quebravam-se
sobre o negro flanco do cachalote cuja massa enorme avanava
lentamente enquanto nos aproximvamos ainda mais.
  - Crraac! crac. crac. crac. crac. crac!...
  Uma erupo de gua sob presso foi projectada pela narina,
inundando-nos de salpicos.


  *Num artigo tcnico sobre as baleias, aparecido em La France
Maritime, o Sr. Jules Lecomte, testemunha ocular emprega a
mesma comparao.


                              120


  Continuvamos a aproximar-nos. Ouvi o rebentar das ondas ao
longo do corpo do animal. Aproximvamo-nos sempre. Mallard
tinha posto o joelho na borda do convs e apanhado um arpo.
Deus do cu, o seu brao nem mesmo atingia a grossura do jacto
do cetceo! Os remos detiveram-se no ar, prontos a fazer
imediatamente marcha atrs. Os meus dentes batiam sem que eu
conseguisse dominar-me. A quatro metros, Mallard lanou a arma
com todas as suas foras. Mal atingira o animal debaixo das
beiadas, o remoinho aumentou perto da cauda do cachalote. Os
remos moveram-se aos recues enquanto a linha corria,
desgastando-se contra a borda do barco. De repente, mesmo a
tocar o dori, vi sair da gua a impressionante superfcie da
cauda - posta em p teria chegado  altura de um prdio de
dois andares. Elevou-se e estalou no ar, acima das nossas
cabeas, como uma detonao, depois a monstruosa barbatana
desapareceu a algumas braas de ns, levantando uma onda de
treze ps de altura. Mallard seguia o desenrolar do cabo com a
mo sobre a machadinha.
  - Porqu com a machadinha na mo? - perguntou Joo Pedro.
  - Para cortar a linha logo que ela se enredasse,


                              121


seno o cachalote teria arrastado o dori para o fundo e a ns
tambm.
  - Devia ter apanhado um susto enorme - disse Mone.
  - Estava aterrorizado, e os outros tambm no estavam mais 
vontade, mas no tnhamos tempo para reflectir, era preciso
estar pronto para obedecer ao menor gesto e evitar o acidente.
A linha penetrava quase a direito no mar.
  - Est a sondar - disse Heaton, que estava prximo de mim. -
Contanto que no venha  superfcie mesmo por debaixo de ns.
  - Aprontar os barris - ordenou Mallard.
  Largaram-nos logo.
  - Os barris?
  - Sim, para fatigar a baleia e impedi-la de mergulhar muito
profundamente, prendamos, s vezes, alguns barris na linha, o
que aumentava a resistncia. A linha comeou a afrouxar. O
animal ia subir. Comemos a puxar novamente o cabo e a
enrosc-lo a bordo. O cachalote emergiu a dez metros do
escaler, e crrraac! crac! crac! crac! crrraac!... projectou no
ar um sopro que se fundiu como um jacto de vapor. Pelos
movimentos do seu enorme corpo, compreendemos que estava
furioso. Procurou mudar de rota. mas tnhamos enrolado a linha


                              122


em volta da cavilha e conseguimos mant-lo. O animal
rebocava-nos a toda a velocidade. O dori saltava clac, cla
clac, clac, cla cla clac... como uma canoa atrs de um barco a
motor:
  - Puxem! Puxem para cima! - comandava Mallard.
  Os homens esticavam o cabo para aproximar a embarcao do
cachalote. Eu no conhecia a manobra, mas os outros j estavam
habituados. Deviam colocar o dori mesmo no recorte da
barbatana caudal, para Mallard poder feri-lo com a lana ou
com a p cortante. Uma operao delicada e perigosa; mas era a
regra. A embarcao conseguiu em breve tocar a cauda. 
direita e  esquerda da roda da proa, moviam-se os extremos da
barbatana, levantando penachos lquidos que nos fustigavam e
inundavam o escaler. Bourgneuf esvaziava a gua, sem parar. O
mestre do dori era ento tudo para ns. Da sua coragem, da sua
fora e da sua competncia dependiam as nossas vidas.
  - Vamos a ele! Vamos a ele! D-lhe! D-lhe! - gritei com os
outros quando, com um forte golpe de lana, atingiu o monstro.
Neste grito havia menos maldade do que medo e esperana de nos
vermos desembaraados, o mais cedo possvel, daquele perigo
constante. O capito tinha atingido o cetceo num stio vital,


                              123


obrigando-o a diminuir progressivamente a velocidade. Mallard
enterrou ento a lana, voltando-a em todos os sentidos. O
animal ainda acelerou e depois parou bruscamente. Era preciso
deter o andamento do dori e ciar com os remos. Os homens no
manobraram suficientemente depressa. e a embarcao foi parar
mesmo em cima da cauda. O animal debatia-se e teve nesse
momento um sobressalto. Fomos projectados. Mallard caiu na
gua e os outros sobre o dorso viscoso do cachalote donde
deslizaram para o mar. Eu fui estatelar-me contra o casco
desmantelado do dori e quebrei o fmur. Agarrei-me,
desesperadamente, a um destroo que flutuava a pouca distncia
do animal. Bourgneuf e Heaton tinham-se agarrado  linha do
arpo, que continuava profundamente fixado no corpo do
mamfero. Sentia uma dor muito forte na coxa; a minha vista
turvava-se e, sentindo que ia perder os sentidos, chamei por
socorro. Ouvi a voz de Mallard que designava os destroos aos
marinheiros e lhes dizia que se mantivessem ali agarrados.
Depois nadou para mim e passou-me o brao  volta do pescoo.
  - Creio que estou pronto - disse-lhe eu.


                         124


  - No, salvar-te-ei, est descansado; nunca te abandonaria.
  Aquelas palavras de confiana tranquilizaram-me mas no me
impediram de desmaiar por uns instantes. Quando recobrei os
sentidos  
o cachalote soltava um estertor potente e rouco, penoso de
ouvir, o supremo apelo de um ser gigantesco que vai morrer. No
mesmo instante ejaculou sangue - uma coluna vermelha de quinze
ps de altura que tombou sobre ns e nos salpicou
abundantemente. Os homens acolheram este ltimo acto com um
urro de triunfo. Pode dizer-se que isso  selvajaria, mas
quando se viveram minutos to trgicos, to cheios de perigo,
em que os nervos sofrem uma dura prova, aquele  um grito de
alvio. Exprime a alegria de ter vencido um inimigo cem vezes
maior e mais forte, e tambm a de ter escapado a uma morte que
se sentia muito, muito prxima de ns!
  - E depois? - perguntou Joo Pedro.
  - Mallard, embora tambm j estivesse esgotado, aguentou-me
durante uma hora at que Fleurus nos recolheu. Aquela
belssima presa forneceu-nos cem barris de leo. Da cabea
tiraram-se dez quintais de leo especial. Do maxilar, dentes
de grande valor, de oito a catorze centmetros de comprimento.


                              125


Mas, ao comearmos o esquartejamento, esperava-nos uma boa
surpresa que chegou para compensar os nossos trabalhos. O
intestino continha mbar cinzento.
  - Julgava que o mbar era resina de pinheiro petrificado. -
interrompeu Mnica.
  - Sim, o mbar amarelo; mas o mbar cinzento  uma matria
que se encontra nos intestinos de alguns cachalotes.  mole e
no cheira muito bem, mas em contacto com o ar endurece e
exala depois um odor muito agradvel. O seu preo 
extremamente elevado. Mallard tinha-me salvo a vida -
prosseguiu Daniel. - Continuei a navegar com ele como
marinheiro e, em breve, na qualidade de imediato. A minha
irm, que o amava profundamente, pediu-me antes de morrer que
nunca o abandonasse.
  Prometi e, acontea o que acontecer, manterei a minha
palavra.
  Daniel ntou que a tripulao que conversava l em baixo, se
tinha agrupado atrs de Waams e se dirigia para a ponte.
  Levantou-se, deixou passar Gotborg e os grumetes, e depois
encaminhou-se para o posto do timoneiro.


                              126


                              VII


     OS homens pararam a alguns metros da porta e deixaram
Waams avanar sozinho.
  -  a respeito do capito - disse o chefe maquinista
abordando Daniel. - A tripulao considera que ele ultrapassou
os seus direitos e, dado o seu estado e os factos que se
verificaram, recusa-se a continuar a obedecer-lhe. Pedimos-lhe
para tomar o comando do barco. Como j no podemos pescar
baleias sem o canho, queramos subir um pouco mais para o
Norte, para caar focas a tiro. Sem isso, apenas com os dois
animais apanhados, nem mesmo teremos com que pagar o po no
Inverno.
  - O Norte, no fim do Vero,  perigoso - disse Daniel - e
alm disso as focas so raras.
  - Koublack conhece um ilhu no Spitzberg, um pouco ao norte
do Wijde Fjord. Parece que h ali muitas. No teramos
necessidade de l ficar muito tempo.


                              127


Galtier  um ptimo atirador e depressa teramos peles e leo
que nos indemnizassem.
  Daniel foi at ao limiar da porta e colocou-se em frente dos
marinheiros, que esperavam ansiosamente a resposta.
  - O Sr. Waams - disse-lhes - deu-me parte da vossa
deliberao. Sabem que  muito grave desapossar das suas
funes um capito em... pleno mar. No regresso tereis de
responder por isso. Pergunto-vos se reflectiram bem e se
mantm a vossa deciso.
  - Sim, senhor - responderam eles.
  - Quais so os que no esto de acordo?
  Ningum levantou a mo. Aps um instante de silncio, Daniel
replicou:
  -  meu dever informar-vos de que as paragens para onde
querem ir, ao norte do Spitzberg, se vo tornando cada dia
mais perigosas. Nessa latitude, o mar no tardar a gelar. Os
nevoeiros sero frequentes, os bancos de gelo numerosos...
  - Sabemos isso mas preferimos tentar - disse Waams. - No
queremos voltar com as mos vazias.
  - Pela ltima vez, esto todos de acordo? - perguntou
Daniel.


                              128


  - Sim, senhor.
  - Bem - disse o imediato voltando-se para  
o chefe das mquinas -, De agora em diante o Sr. Waams
substituir-me- nas minhas funes. Peo-lhe que anote tudo
isto no livro de bordo. E, agora, voltem para os vossos postos
e retomem o esquartejamento.


  Uma manh, numa estreita banda de azul plido, apareceram os
cimos nevados do Spitzberg. Cintilaram por um momento sob os
raios do sol como diamantes encastoados nos vrtices das
rochas escuras e ocres, dominando o mar a mais de mil metros
de altura, depois tudo se desvaneceu num instante. Uma cortina
de bruma recobriu aquelas maravilhas com um vu opaco que se
estendeu sobre o mar, envolveu os gelos eternos soldados s
margens e atapetou cm um branco montono e triste as paredes
sombrias das rochas nuas.
  Joo Pedro e Mone vigiavam  proa, com Galtier. Era preciso
redobrar de ateno naquelas paragens perigosas do Grande
Norte.
  Em dado momento, pareceu-Lhes que o mar se tornava espesso,
vermelho e recoberto de partculas brilhantes como mica.


                              129


  - Ateno - gritou Joo Pedro -, devemos estar prximos da
costa, a gua est cheia de pontas de algas e areias
brilhantes.
  Galtier inclinou-se por cima da amurada:
  - No, no so algas nem slica, midos,  comida de baleia.
  - Comida de baleia? - interrogou Mone, admirada.
  - Sim, as baleias no so como os cachalotes, no se
alimentam de polvos, chocos e peixes, s comem plancton (1),
pequenos moluscos moles e so estes animaizinhos  que do ao
mar uma cor to engraada. No sabes que as baleias nadam com
a boca entreaberta e a garganta fechada. Toda esta comida
entra pela abertura. A gua sai pelos lados dos beios. Mas as
barbas e os plos que se encontram debaixo das barbas seguram
os alimentos que o animal engole depois com um movimento da
lngua, quando tem a boca cheia.
  - O que sai pelas narinas  a gua que ela tinha engolido?


  *1 Os Noruegueses chamam Kril a esses pequenos crustceos,
to numerosos no Vero e na Primavera, que tingem de vermelho
grandes extenses de gua. O Kril pe  superfcie minsculos
ovos, transparentes e brilhantes, que tambm constituem um dos
alimentos das baleias.


                              130


  - Dantes pensava-se que sim, mas isso no pode ser. Por onde
passaria a gua? Bem viste que a garganta no comunica com os
pulmes. Aquele jacto  o seu sopro, a sua respirao...
  O ilhu de que Koublack tinha falado era na realidade um
grande recife grantico situado ao largo da ilha Hoffen, a
norte do arquiplago de Spitzberg.
  O centro deste grupo rochoso elevava-se a cerca de 100
metros de altura. Estava cercado por enormes blocos de gelo
que prolongavam o ar saturado de humidade e aquecido nos
pulmes da baleia a 36 ou 38 graus, temperatura do sangue do
cetceo.
  A temperatura de um peixe  muito menor mas a baleia no 
um peixe,  um mamfero que vivia outrora em terra, ao que se
cr, nas margens dos grandes rios e teria sido coagida a
alcanar o mar alto na poca glaciria, sem dvida Para
encontrar alimento. Certas partes do seu esqueleto, em
particular a presena de uma bacia embrionria que parece hoje
absolutamente intil, a cauda situada no plano horizontal e
no vertical como nos peixes, assim como outros detalhes
parecem favorecer esta teoria. De qualquer maneira, o ar
hmido contido nos pulmes da baleia sofre uma sbita perda de
calor quando  soprado para o exterior, derivado da sua brusca
dilatao, e j no pode conter tanta humidade. Esta
condensa-se imediatamente, constituindo os penachos brancos a
que os baleeiros chamam sopros. A este vapor juntm-se alguns
litros de gua que se encontram nas cavidades das narinas no
momento em que o animal emerge.


                              131


  No declive, mais ou menos acentuado desde o seu cume.
  Para o norte, os bancos de gelo difundiam uma plida
claridade que dava ao mar a sua cor opalina. Por vezes
apareciam enormes bancos de gelo cobertos de colnias de
guilhemotos, de gaivotas ou pinguins. Estes pssaros tinham
unido a sua sorte  daquela ilha flutuante que corria 
deriva, arrastada pelo vento e pela corrente at s margens
desertas da Gronelndia.
  O Titan fundeou muito ao largo, a leste do ilhu, para
evitar os escolhos mal assinalados no mapa, que mostravam aqui
e ali as suas perigosas asperezas.
  Armados duma Mauser de repetio e acompanhados por Loux,
que a viso do gelo tornava nervoso e impaciente, Daniel e a
tripulao desembarcaram do escaler sobre o promontrio gelado
do recife.
  - No se vem muitas focas - fez notar Gotborg.
  - Tu no as vs - respondeu Koublack -, mas o husky j sabe
onde elas se encontram
  olha para ele.
  O co farejava o vento e a sua cauda em penacho era animada
por pequenos frmitos convulsivos.


                              132


  - Vou fazer um reconhecimento com ele - disse o esquim. -
Far-vos-ei sinal.
  - Guia! guia! guia! Loux! guia! guia!
  guia!...
  O co voltou a cabea com um gesto vivo.
  Por detrs das plpebras fendidas em amndoa  
  os olhos do animal e os do homem dos gelos, to semelhantes,
trocaram um olhar que lhes bastou para se compreenderem.
  - Guia! guia! guia! Loux! guia! guia!
  guia.
  Esta palavra gutural electrizava o co, que deu alguns
saltos em frente, depois, mais calmo
e consciente do seu papel, avanou como os lobos, o corpo
muito rasteiro, as omoplatas salientes.
  Koublack seguiu-o rastejando, at a uma protuberncia onde o
gelo formava uma espcie de muro. Chegado ali, ergueu-se
lentamente apoiado nos cotovelos, inspeccionou a outra parte
do ilhu e, depois, mantendo o husky deitado, fez sinal a
Galtier para se aproximar sem se deixar ver.
  As focas arrastavam pesadamente o seu ventre redondo sobre o
espelho liso do gelo. No receavam qualquer inimigo;
mergulhavam, Perseguiam-se, nadavam de barriga para baixo,


                              133


ou de costas, voltavam a iar-se com a ajuda das flexveis
barbatanas.
  -  uma pena mat-las - disse Mone -, Tm um ar to meigo
como se fossem ces.
  - Se no se matassem destruiriam em breve o peixe todo -
disse Koublack -, Comem diariamente quilos dele.
  - No  para fazer fortuna que as matamos  - replicou
Galtier. -  para ganhar a nossa cdea. No so mais para
lamentar que as sardinhas, os atuns ou os peixes de arrasto.
Eu no sou muito piedoso mas a minha opinio  que se Deus os
fez no foi para os deixarmos de lado quando precisamos.
  Depois de contado o cardume, Daniel fixou em duzentos o
nmero de animais que abateriam. Isso seria o suficiente para
indemnizar largamente cada homem da tripulao.
  A operao devia durar quatro a cinco dias: no primeiro,
Galtier mataria os animais, no segundo e nos trs outros dias,
uma parte dos marinheiros esfolava as focas e esquartejava-as
enquanto a outra parte se ocuparia da fuso do toucinho.
  Logo que possvel, carregariam no escaler os barris e as
peles de foca para bordo do Titan.
  Era preciso andar o mais depressa possvel porque a estao
j ia muito avanada.


                              134


  Durante toda a tarde e uma parte da noite ecoaram os tiros.
As falsias rochosas repercutiam ao longe o rudo das
detonaes que se sucediam com intervalos regulares.
  Escondido por detrs da sua muralha de gelo, Galtier
apontava sempre com uma preciso que fulminava a desditosa
vtima.
  Por outro lado, as focas constituam uma caa relativamente
fcil para o excelente atirador que o marinheiro era. O animal
atingido na cabea sucumbia quase sem sobressaltos. As outras,
espantadas com o inslito rudo voltavam a cabea para a
direita e para a esquerda e, no vendo ningum, no tentavam
fugir. S no fim, quando compreenderam que uma quantidade
enorme de focas estava morta, se precipitaram, esbaforidas,
para o mar.
  As duas ltimas balas levantaram uma coluna de gua mas
atingiram a cabea, como acontecera s outras.
  Joo Pedro, que tinha ficado perto de Galtier para lhe
passar os cartuchos e segurar Loux, lanou um olhar de
admirao ao marinheiro.
  - Duzentas balas para duzentos animais! Nem uma perdida! No
houve uma foca que no tivesse sido morta ao primeiro tiro!


                              135


Caramba!  mais forte que o Bffalo Bill!
  - Agora no  altura para falarmos nisso - disse Galtier. -
 preciso corrermos para apanhar aquelas duas que flutuam de
barriga para o ar e vo ser arrastadas para o largo.
  Joo Pedro soltou Loux que correu como uma lebre e foi
cheirar as infelizes vtimas com um prazer evidente.
  - No so essas, so as outras, ali na gua, que  preciso
ir buscar - indicou o marinheiro.
  Loux esforava-se por compreender as palavras do arpoador.
Os seus olhos castanhos palhetados de ouro seguiram a direco
do dedo e distinguiram os corpos  deriva.
  - Vai, Loux!... guia! guia! guia! - gritou Joo Pedro.
  O co avanou e, sem hesitar, lanou-se ao mar.
  - E ele vai, com mil demnios! - exclamou Galtier. - Mas no
creio que seja capaz de as transportar. Aqueles animais tm um
bom
peso...
  No entanto trouxe-as, uma aps outra, at  margem, com uma
pacincia e uma tenacidade incansveis...


                              136


  - Olha para o co! - disse Galtier a Gotborg. - Tem olho,
sabe por onde deve agarrar. Puxa pela cauda como ns quando
rebocamos uma baleia.
  - Ele nada muito bem - notou Joo Pedro, entusiasmado.
  - Estava convencido de que ele no teria fora - replicou o
marinheiro -, mas nadando assim seria capaz at de rebocar
duas ao mesmo tempo. Estende as patas como um alcatraz e
move-se lentamente, exactamente como deve ser.


  Mone e Daniel tinham arranjado as fornalhas para a fuso da
gordura de foca numa pequena praia de seixos, prximo do
promontrio de gelo, onde, durante os escassos dias do perodo
quente, corria um ribeiro de neve derretida.
  Durante esse tempo, Gotborg, o carpinteiro de bordo, e
Koublack, o esquim, confeccionaram um tren destinado a
facilitar o transporte dos animais abatidos, das peles e dos
barris de leo.
  Os dias diminuam cada vez mais rapidamente. O sol
levantava-se tarde e punha-se mais cedo. Era muito raro que
brilhasse num c limpo de nuvens. O nevoeiro devorava-o


                          136  137


e a maior parte do tempo, apenas se podia adivinh-lo seguindo
a sua curva no horizonte cada dia mais baixa e mais curta.
  - Tu viste isto, Waams - disse Klein ao seu companheiro que
o ajudava a esfolar as focas. - Todas as balas atingiram a
cabea; no ser bom encontrar-se na linha de mira do
arpoador.
  - Nem ao alcance da sua mo - acrescentou Waams -, O velho
teve sorte por ele no o agarrar no outro dia. Baldeava-o sem
dificuldade pela amura.
  - A propsito, no o tornmos a ver. As coisas devem ter
aquecido entre ele e o imediato.
  - Aquecido, no - replicou Waams. - Com Daniel as coisas
nunca aquecem, tem sempre a ltima palavra pela doura. Por
outro lado, e de acordo com o que ele me disse, Mallard no
passa muito bem desde essa histria. Um dia estoira; est
completamente cozido pelo lcool. Se lhe chegasses um fsforo
ardia como uma tocha.
  O ajudante do maquinista, sentindo que os rins curvados se
anquilosavam, endireitou-se por um instante e viu que um carro
se dirigia para ele.


                              138


  - Olha para os grumetes! Descobriram um filo!
  Loux fora preso ao tren e puxava os arreios com uma alegria
evidente, transportando sem esforo Mone e Joo Pedro, muito
divertidos com aquela nova atraco. T-la-iam mesmo prolongado
de boa vontade se Daniel no tivesse intervido...
  - Vamos! Vamos! midos a carregar, a carregar; no  altura
para brincadeiras. O sector no  bom e quanto mais depressa
sairmos daqui melhor ser para toda a gente.
  Antes de voltar para bordo disse ao chefe maquinista:
  - Ficar com eles, Sr. Waams, estabelea um horrio de
trabalho alternado para a noite. Logo que seja possvel mande
carregar para bordo.
  O claro das fornalhas desenhava estranhos halos na bruma da
noite e as silhuetas dos homens, aumentadas pela sombra,
animavam essa claridade. Inclinavam-se sobre o fogo para o
alimentar, deitavam os bocados de toucinho nas bacias ou
descarregavam o tren com gestos que se alongavam
desmesuradamente sobre o gelo.


                              139


  Os midos dormiam muito prximo das fornalhas, enrolados em
cobertores e oleados. Os barris tinham sido dispostos uns ao
lado dos outros para os abrigarem do vento muito fresco que
soprava de Leste.
  Waams despertava-os s horas prescritas e outros se enfiavam
nos lugares ainda quentes, para algumas horas de sono.
  Por vezes alguns pssaros vinham cortar com um voo rpido
aquelas aurolas de luz dispersa que os atraam. Eram
andorinhas cinzentas de cabea cendrada, grandes mergulhes de
asas curtas e corpos carnudos, gansos que passavam como
flechas soltando gritos agudos ou nasalados e depois voltavam
a reunir-se aos seus companheiros, cerrados uns contra os
outros, sobre os picos nevados que dominam o mar.
  Outras vezes, as focas que, esquecidas da matana da
vspera, tinham voltado para os seus poisos costumados,
lanavam apelos guturais que o eco ampliava.
  Loux no os podia ouvir sem estremecer. O seu instinto de
caador despertava. Havia muitos sculos que os seus
ancestrais ajudavam o homem a capturar aqueles animais que
constituem a base essencial da alimentao no rctico...


                              140

Mas a despensa estava cheia; tinha tido uma grande rao de
carne, os movimentos rpidos da sua cauda indicavam
simplesmente a alegria de se encontrar naquelas regies onde o
ar gelado dilatava agradavelmente os seus pulmes de co
polar.
  Que os seus donos repousassem, ele no. Sentia-se muito
feliz fazendo deslizar o tren com o esforo dos seus
msculos, desporto apaixonante para um husky de raa nobre que
se sabe o companheiro til, indispensvel, do seu grande amigo
o homem.
  Naquela noite, Loux sentia que dentro dele cresciam todas as
aspiraes, todos os desejos que os da sua linhagem tinham
experimentado outrora, sobre aquele imenso imprio, sem
limites, de horizontes imaculados.


                              141


                              VIII


     ESTAVA-SE na quarta noite, cerca das 10 horas, quando
apareceu de repente, ao norte, um estranho e difano claro.
  Joo Pedro rolava um barril de leo para o ponto em que se
tinham reunido, no promontrio, onde estava tambm Galtier,
Koublack e Mone.
  Todos os outros conservavam-se a bordo do Titan, ocupados
com a fuso.
  Com efeito, Daniel decidira utilizar os fornos do baleeiro
para apressar o trabalho; o escaler devia vir no dia seguinte
buscar a tripulao, assim como as peles e os ltimos barris
de leo que o grupo de terra reuniria, no decorrer da noite,
num stio onde o gelo era fcil de abordar.
  Loux tambm devia ter notado o curioso fenmeno, porque
deixou de pular em volta do grumete e voltou os olhos para o
mesmo lado.


                              143


  Parecia que um novo dia ia nascer, que o sol surgiria de
repente ali. Um instante mais tarde, um choque surdo e potente
ergueu no ar todo o promontrio, deixando-o inclinado.
Abriu-se uma enorme brecha com um estalar sinistro. Mais de
mil metros cbicos de gua jorraram imediatamente pela fenda e
varreram o gelo, arrastando Joo Pedro, que tentou em vo
segurar-se.
  Ainda viu o barril de leo que rolava e Loux, cujas patas
afastadas procuravam uma aspereza onde se segurar com as
garras.
  Gritou:
  - Socorro! Socorro! A mim! A mim! - enquanto deslizava para
o mar, debatendo-se nos remoinhos gelados que lhe paralisavam
os braos entorpecidos pelo vesturio ensopado.
  Teve imediatamente a ntida sensao de que no conseguiria
foras para se salvar, que apenas se aguentaria mais alguns
minutos ao cimo da gua. Depois, acabar-se-ia tudo.
  Era o ltimo momento, o momento de encomendar a sua alma a
Deus. Nadava verticalmente, arrastado para o fundo pelo peso
dos sapatos cheios de gua, dos fatos que se Lhe colavam ao
corpo como um revestimento de chumbo.


                              144


  A fenda alargava-se, o promontrio de gelo, destacado do
ilhu, afastava-se cada vez mais e nunca ele conseguiria
alcan-lo; estava transido de frio e sentia-se enfraquecer.
  - Socorro! A mim! Depressa! Depressa!. Estou a afundar-me!
Estou a afundar-me!...
  Viu duas brasas que luziam na penumbra ao alcance da sua
mo, e depois sentiu uns ganchos de marfim branco tactearem
com precauo a gola do seu casaco antes de se fecharem
solidamente sobre o tecido.
  Logo se sentiu vigorosamente puxado.
  - Loux, meu co, meu querido co! - balbuciou Joo Pedro,
batendo os dentes.
  Aquela interveno dava-lhe esperana e inculcava-lhe uma
fora de que se julgava incapaz um momento antes.
  Com a mo esquerda agarrou-se aos plos do animal enquanto
nadava com a direita para o ajudar.
  - Vamos, meu Loux, vamos!
  O co no precisava de encorajamento. Conduziria Joo Pedro
ou naufragava com ele. Um husky nunca abandona uma tarefa
empreendida. Mas seriam precisas horas e horas de luta, e
fadiga e esforo antes que Loux estivesse esgotado. Os seus
msculos duros, indiferentes ao frio, moviam-se com
maleabilidade e fora.


                              145


  Os seus nervos de ao conservavam o equilbrio mesmo nas
piores dificuldades.
  Joo Pedro sentia no pescoo o hlito quente do co, que
mantinha o nariz fora de gua e batia as patas muito abertas
com um plof plof regular, sem precipitaes, com a braada
calma de animal habituado a nadar longas distncias.
  A beira do promontrio aproximava-se, j se distinguiam ali
umas sombras.
  - Eh! Joo Pedro?
  - Galtier! Galtier!
  - Aguenta, meu rapaz! Pega a amarra!
  O brao do arpoador descreveu um grande molinete, o cabo
lanado assobiou e caiu, com um rudo de gua atingida, mesmo
em cima da cabea de Loux. O grumete agarrou-o imediatamente.
  - Agarra, meu filho! Agarra-te bem, que eu vou puxar.
  Joo Pedro foi rapidamente atrado, arrastando consigo Loux
que, embora sentisse os seus movimentos impedidos, continuava
energicamente, sem largar a presa com os maxilares cerrados.
  Dois braos robustos iaram-no para fora de gua,
desembaraaram-no do vesturio.
  Um instante mais tarde, num estado de semi-inconscincia,


                              146


Joo Pedro sentiu as mos delgadas de Koublack, untadas com
leo de foca, que lhe friccionavam os msculos, contraam e
dilatavam o trax. Por momentos aquilo fazia-Lhe mal e ele
gemia:
  - Basta! Basta!
  O esquim no parava por isso a sua maagem vigorosa. Quando
terminou, enrolou o grumete em cobertores e numa lona
encerada, s deixando uma pequena abertura para o rosto.
  O rapaz entreviu Loux, tranquilamente sentado sobre as patas
traseiras, com os plos cobertos de geada. Mone veio
perguntar-lhe:
  - Sentes-te melhor?
  Ouviu Galtier dizer a Koublack:
  - Contanto que ele no apanhe uma pneumonia...
  O esquim, cujo brilho dos olhos negros notou atravs das
estreitas fendas das plpebras, respondeu com um sorriso:
  - Oh! No, o bom fogo entrou agora no seu corpo. Queimar
todo o mal.
  "queimar todo o mal, queimar todo o mal... queimar,
queimar..."
  Um benfazejo calor entorpecia-lhe os membros e dava-lhe uma
intensa vontade de dormir. "Queimar, queimar..."
  Os olhos fechavam-se-Lhe irresistivelmente.


                              147


  Arder todo no era uma tortura mas sim uma sensao
agradvel, repousante.
  Ento por que era que o carrasco se agitava em torno do fogo
e gritava assim? No sentia medo, ele tinha-o incendiado e
deixava-o consumir-se lentamente sem se aproximar.
  Como era doce morrer assim! Da a pouco estaria no paraso,
j no tardava com certeza.
  Mas o carrasco devia estar no inferno e terrivelmente
infeliz, porque ouvia ainda os seus gritos desesperados.
  - Oh oh oh! i i i oh oh oh...
  - No serve de nada esganiares-te assim - disse Galtier ao
esquim -, o Titan est a quatro milhas com vento a favor, por
detrs da muralha dos rochedos. No podem ouvir-nos.
  - Talvez vejam o nosso fogo - disse Mnica.
  - Como queres que o vejam? Andamos  roda na mesma linha do
ilhu, como se fossem atrs de um guarda-vento. No podem ver
nada.
  - Mas amanh de manh ho-de procurar-nos e certamente nos
encontram - replicou Mone, angustiada.
  - Amanh de manh, minha pobre filha, devemos estar a trinta
milhas daqui, e em que estado...


                              148


  Galtier no esperou por nova pergunta de Mone. Aproximou-se
de Joo Pedro.
  - A este tanto se lhe d, dorme como um abade. O que para
aqui vai! Koublack esfregou-o com alma. Est encarnado como um
camaro cozido.
  Mnica aproximou-se do esquim que, no obstante a opinio
de Galtier, continuava a gritar os seus apelos.
  - Koublack, achas que o Titan no nos encontrar?
  - No sei, talvez no encontre.
  - Ento este pedao de gelo vai fundir-se pouco a pouco e
afogar-nos-emos.
  - Quanto  fuso, no h grande risco nesta poca; mas se
continuarmos c em cima,  rola isso  outra coisa. No
seramos os primeiros a quem acontecia.
  - No compreendo como  que este enorme promontrio se
destacou de uma vez.
  - No viste o banco de gelo que nos atingiu? Uma massa como
aquela no teve dificuldade em descol-lo da costa. Mas vai
cuidar do fogo. Eu continuarei a chamar. Deitaram com certeza
uma baleeira  gua.


                              149


  Galtier foi sentar-se num barril. Com o auxlio de uma
concha, deitava lentamente leo de foca sobre o fogo que ardia
mal. As chamas crepitavam, soltando uma espessa fumaa de
cheiro desagradvel. O marinheiro tinha um ar cansado e
abatido. Quando Mone chegou ao p dele olhou-a com tristeza.
  - No devia ter-vos embarcado comigo no Titan - disse-lhe. -
Nunca devia ter feito isso.
  - Julgava que tinhas mais coragem - respondeu Mnica, com a
garganta contrada pela emoo. Foi com esforo que
acrescentou: - O senhor Daniel vai procurar-nos, h-de ver a
fumaa. No andamos muito depressa.
  O arpoador manteve a cabea baixa e continuou a deitar leo
na fornalha.
  - No te vou mentir, pequenita, mas com um vento como o que
temos e a arrefecer desta maneira, antes de duas horas o mar
vai encrespar-se e teremos a neve em cima de ns.
  Mesmo o melhor marinheiro no poder fazer outra coisa que
pr-se ao abrigo.
  Enquanto ele falava, Mnica sentia que os seus olhos se
tornavam hmidos, mas no queria chorar, lutava contra as
lgrimas que lhe afogavam lentamente as pupilas, se penduravam


                              150


nas pestanas e corriam j pelas faces.
  Galtier viu essas lgrimas, sentiu vontade de se aproximar
dela, de fazer um gesto para a consolar, mas no ousou.
  - Zut, zut! Fora com estas lgrimas! - disse de repente
Mone, sacudindo a cabea com um movimento decidido -, 
estpida esta gua que vem mesmo quando no se quer e molha
tudo - disse, enxugando os olhos. - Escuta-me, Galtier, mesmo
que tenhamos de morrer aqui, fizeste bem em nos trazer. Estou
muito contente por ter vindo; e tambm no estamos ainda
mortos, h outras coisas a fazer em vez de pensarmos nisso.
  - Valente rapariga! - exclamou Galtier, a quem aquela sada
inesperada reconfortava e distendia um pouco. - H algum que
se sentiria orgulhoso por saber que tu falas assim no momento
presente. Tens razo, pequena, vai procurar Koublack para que
se arranje imediatamente um abrigo.
  Waams e Gotborg, cegos pela tempestade de neve, foram
obrigados a navegar  bssola. Quando atingiram o stio onde
devia encontrar-se o promontrio, pensaram primeiro


                              151


que se tinham enganado; mas logo viram as fornalhas, as bacias
e algumas ossadas de foca sobre a pequena praia.
  Desembarcaram e procuraram durante uma hora os seus
camaradas, chamando-os com todas as foras: Somente o eco
respondeu s suas vozes angustiadas e foi com o corao muito
pesado que se decidiram a embarcar na baleeira, regressando ao
Titan.
  Assim que o anexo abordou o navio, Daniel notou
imediatamente que a tripulao no estava a bordo.
  - Ainda no terminaram? - perguntou a Waams, logo que este
ps p na ponte.
  - No foi isso. O promontrio soltou-se da costa e deve ter
partido  rola com eles em cima - explicou Waams. - S ficaram
ali os vestgios.
  - Procuraram no ilhu?
  - Sim, no est ningum.
  O rosto de Daniel, geralmente to calmo, crispou-se como sob
o efeito de uma dor sbita. Dir-se-ia que tinha sido atingido
por uma violenta crise e que se retesava para no gritar.


                              152


  - No os podemos procurar hoje - disse aps um curto
silncio. - O tempo no o permite. Vo repousar; ao primeiro
claro levantaremos ncora e tentaremos encontr-los.
  Durante vinte e quatro horas aneve turbilhonou por cima dum
mar agitado, semeado de cristas brancas, escavado em sulcos
movedios de reflexos glaucos. No eram os grandes flocos
agradveis e doces como os que caem sobre a terra de Frana;
era um p fino e gelado que o vento lanava em todos os
sentidos como se fosse areia; estendia-se sobre o mar,
embainhava de gelo os ovns e a mastreao do Titan,
amontoava-se nos ngulos das coxias, cobria de geada as vigias
e as janelas, fustigava, picava, queimava, impedindo a viso a
mais de trs metros.
  Daniel, a fronte inquieta, no deixava a cmara dos mapas,
espiando os primeiros sinais de acalmia que o barmetro
deixava prever.
  No outro dia, a borrasca no tinha terminado, mas a neve
cessara e o vento, de tempos a tempos, abria largas clareiras
nas nuvens. Um pedao de cu de tons amarelo e verde-plido
apareceu ento; depois o vu de vapor hmido tornou a
fechar-se e fugiu em farrapos.
  Era ainda arriscado fazer-se ao mar; no entanto o Titan
aparelhou e, lentamente, prudentemente, tomou o rumo de Oeste,


                              153


balanado pelo assalto incessante das ondas.
  Daniel, Gotborg, Waams e Klein pesquisavam com o olhar o
horizonte constantemente escondido pela neblina. A sereia
ressoava a intervalos regulares.
  Wou ou ou ou ou out!...
  Wou ou ou ou ou out!...
  Os pssaros, arrancados dos seus poleiros pelas rajadas de
vento, passavam gritando por cima do navio:
  Crieg! Crieg! Crieg!...
  Tentavam lutar, depois cediam e deixavam-se arrastar com os
farrapos despedaados de nuvens.
  Quando o vento amainou, a bruma tornou-se mais espessa.
  O Titan tacteava como um cego por entre o pack, isto  os
pedaos de gelo flutuantes por onde se aventurara
profundamente, em busca dos quatro nufragos.
  Wou ou ou ou ou out!...
  Wou ou ou ou ou out!...
  Wou ou ou ou ou out!...
  Wou ou ou ou ou out!...



                              154


  Foi assim durante trs dias. Havia sbitas abertas no
nevoeiro, grandes espaos de mar livre, largos canais onde a
roda da proa do baleeiro sulcava como uma relha a gua
esbranquiada com reflexos de vidros quebrados.
  Os vigias esquadrinhavam com os olhos to longe quanto a
vista alcanava. Lanavam foguetes que eclodiam no cu e se
espalhavam em cascatas de estrelas vermelhas; depois a hidra
voltava.
  Era um longo charuto ou uma pesada cpula que se aproximava
a grande velocidade, se deformava, se alongava
desmesuradamente, achatava-se e afogava tudo numa humidade
viscosa, espessa, sem dimenses.
  Respirava-se a gua pulverizada em movimento, que passava,
passava sem cessar, silenciosamente, sinistramente, como um
monstruoso fantasma.
  O banco de nevoeiro iluminava-se por momentos e o vestido
vaporoso afastava-se em ondulaes, como um vu de tule,
descobrindo ao norte, explndidos sulcos de cobre, esmeralda
negro. Pedaos de gelo, desgastados nos bordos, passavam 
distncia. Tinham figuras curvas e graciosas como gigantescos
cisnes.


                              155




    - Ho oh oh oh!
  - Ho oh oh oh!
  As vozes dos gageiros perdiam-se na imensido onde tudo
parecia inerte, gelado, sem vida. E depois a bruma voltava.
  No decorrer duma aberta, Gotborg foi advertir Daniel de que
o mar comeava a prender. A princpio eram milhares de
pequenas palhetas brilhantes que apareciam na gua como
grinaldas enroladas nos ramos das rvores de Natal; depois
formavam-se longas manchas, numa ligeira nuvem de fumo. Era o
ltimo sinal de alarme, tinham de fazer imediatamente rumo ao
Sul e, mesmo assim, navegar com extrema prudncia, tomando
pelos canais livres que s os marinheiros habituados ao Grande
Norte sabem distinguir.
  Daniel deu as suas indicaes a Gotborg e desceu ao camarote
do comandante Mallard.
  O capito estava estendido em cima da cama. A doena
arcara-lhe profundamente o rosto. Parecia indiferente,
absorvido num sonho.
  - O navio est em perigo - disse-lhe Daniel. - Galtier,
Koublack e os grumetes andam  rola sobre um pedao de gelo.
H seis dias que os procuramos. No se pode continuar. 
preciso deixar imediatamente o crculo polar,


                              156


porque dentro em pouco todo o mar estar gelado... Retome o
comando e conduza o barco.
  - Ento  isso - ripostou Mallard. - Depe-se o capito.
Sobe-se para o norte em fim de estao e, quando se  apanhado
na ratoeira com a bruma e os gelos a soldarem-se, vem-se ter
comigo... Simplesmente, eu recuso. Pouco se me d que estoirem
sobre o seu bloco de gelo com esse maldito arpoador e todos
vocs, presos nos bancos.
  - Repito-lhe - replicou Daniel sem elevar a voz -, que o 
Titan est em grave perigo e s restam cinco homens a bordo.
  - E eu repito-lhe que me estou nas tintas. De qualquer
maneira, estou perdido..., Uns dias mais cedo, que diferena
me pode fazer!
  Daniel aproximou-se do leito de Mallard e tirou da parede um
pequeno medalho contendo a fotografia de uma mulher de luto.
Meteu-o na algibeira.
  - Deixa isso a! - ordenou Mallard, furioso.
  - No - respondeu calmamente Daniel. - Prometi-lhe fazer
tudo por ti, no quero que assista a este ltimo acto.
  O imediato deixou o quarto de Mallard e entrou no seu
camarote, contguo ao do capito. Ficou um momento de ouvido 
escuta.


                              157


  Quando ouviu o cunhado levantar-se e vestir-se, dirigiu-se
para a tolda.
  O maquinista-chefe mantinha-se prximo de Gotborg, que
estava ao leme.
  - Senhor Waams - disse Daniel -, abra o dirio de bordo, se
faz favor, e anote com a data de hoje:
  - Encontrando-se o Titan perigosamente avanado por entre os
gelos, acima do paralelo 80, e comeando o mar a prender, o
Sr. Daniel pediu ao capito Mallard que retomasse o comando. 
tudo. De agora em diante, seguireis as suas indicaes.
Entretanto, Gotborg, meta a rota a 14 graus.
  O timoneiro ficou a ver Daniel dirigir-se para a proa com o
seu passo tranquilo e medido.
  - No conseguiu nada - disse para Waams  - assim que se viu
atrapalhado teve de ir procurar o velho para nos tirar do
lamaal. Isso deve t-lo humilhado.
  - Daniel no tem necessidade de ningum para libertar o
Titan, podes acreditar-me - respondeu-lhe Waams. - Se ele
entrou neste embrulho foi porque sabia como sair daqui.
  Se passa agora o comando  para obrigar o patro a
reabilitar-se. Deve estar morto antes de chegarmos  Islndia;


                              158


mas quando o baldearmos pela borda fora, cosido no seu saco,
tu tirars o chapu e sers obrigado a dizer, como os outros,
que ele se resgatou. Mallard em tempos,, salvou-lhe a vida.
Hoje ele salva-lhe a honra e talvez a alma...
  -  certamente muito belo; mas depois disto ele poderia
sempre correr para obter o comando em qualquer armador.
  - Aquele no tem necessidade nem de gales nem de comandos
para comandar de verdade. Onde quer que se encontre ser
sempre o mestre. Far obedecer toda a gente, at mesmo o
capito, se for preciso, exactamente como aqui, porque com o
seu ar doce e calmo sabe agarrar os homens e dobr-los  sua
vontade.


  Durante quarenta e oito horas Mallard no deixou o leme e
era preciso reconhecer que guiava o Titan por entre os blocos
de gelo com uma espantosa habilidade. Seguia o seu caminho
umas vezes a direito, outras em ziguezague; mas o navio
encontrava sempre o mar livre  frente da sua roda da proa.
  Gotborg, que no se podia impedir de duvidar das palavras de
Waams a respeito de Daniel, aproveitou um momento em que se


                              159


encontrava perto do imediato para lhe perguntar:
  - Como  que o capito faz para encontrar a rota por entre
este ddalo e no enfiar o bote num beco sem sada? No pode
conhecer as passagens porque elas formam-se e desmancham-se
dum dia para o outro.
  O marinheiro estava convencido de que Daniel se sentiria
embaraado para responder e obrigado a confessar a sua
incompetncia naquelas circunstncias, ou ento era um homem
como no se encontra muitas vezes.
  - Nem toda a gente  capaz de navegar a dentro, meu amigo -
respondeu tranquilamente Daniel. -  preciso um olho muito
exercitado. Olhe bem para o cu, ali, na sua frente, no nota
nada?
  - No senhor.
  - No entanto  ali que se l a rota.
  Gotborg, julgando que ele brincava, teve um sorriso cptico.
  - No estou a zombar; observe melhor. O cu tem reflexos
diferentes por cima dos canais ou por cima do gelo.
  - Eu no vejo nada.
  -  preciso exercitar-se, Gotborg, sem isso nunca poder
comandar no rctico. Repare que no o estou a enganar.


                              160


A trs milhas daqui, o corredor que ns seguimos obliqua cerca
de dois quartos para oes-sudoeste.
  Daniel olhou para o relgio.
  - Dentro de cerca de vinte e cinco minutos faremos rumo a
230 graus - 235 graus. E como Gotborg o escutasse, admirado:
  - Fixe bem isso, Gotborg, e trate de notar melhor a
diferena de tons cinzentos do cu. Servir-lhe- para uma
viagem futura, porque desta vez em breve estaremos livres dos
gelos.


  Assim que o Titan saiu dos bancos, Mallard abandonou a
tolda, esforando-se por se manter direito. Ao fundo da escada
encontrou Daniel.
  - Agora passo-te o comando - disse-lhe. - Para mim est
acabado.
  Olhou o cunhado bem nos olhos e perguntou:
  - Tornaste a pendur-la?
  - Sim.
  - Depois mete-a no saco, quero que esteja comigo quando me
baldearem pela borda fora. Nunca a tornei infeliz, e se no
tivesse morrido as coisas no se teriam passado assim.
  No momento de deixar o imediato, acrescentou:
  - O barco  para ti, Daniel,  s ficares com ele.


                              161


  Imergiram o corpo do capito Mallard ao largo de Jan Mayen,
a 72 graus 11 minutos norte - 3 graus 7 minutos oeste.
  Assim que Daniel recitou as preces dos mortos, Klein e
Gotborg levantaram a tbua lisa. O saco de lona branca,
lastrado, deslizou para o mar, depois a gua triste e feia do
rctico tornou a fechar-se. Os homens cobriram-se.
  Aps um momento de silncio, Daniel voltou-se para o
maquinista-chefe.
  - Senhor Waams, ponha as mquinas em andamento. Gotborg far
o primeiro quarto na tolda; rumo a 95 graus.
  - A 95?
  - Sim, temos combustvel suficiente para rumar directamente
em direco  Noruega. Os dois grumetes e Galtier tm parentes
ou amigos em Narvik; devemos avis-los;  uma questo de
conscincia.
  - Mas no estavam inscritos como fazendo parte da tripulao
- interveio Waams. - Arriscamo-nos a arranjar conflitos com a
capitania martima e com os seguros.
  - Bem sei, procurarei arranjar as coisas o melhor possvel;
mas no temos o direito de iludir as responsabilidades, Sr.
Waams... Nem mesmo aquelas que se herdam - acrescentou.


                              162


                              IX


     SOB o precrio abrigo feito com barris de leo, peles de
focas e encerados, os nufragos ouviam com desespero o
assobiar agudo do vento que lanava com raiva o frio p de
neve. Infiltrava-se pelas menores aberturas no interior do
abrigo onde fazia quase tanto frio como c fora.
  Por fim, a tempestade amainou, e os olhares ansiosos dos
infelizes perdidos perscrutaram em vo a bruma leitosa.
  Por duas ou trs vezes, Mone e Joo Pedro, que auscultavam o
menor rudo, julgaram ouvir os apelos do baleeiro.
  - Galtier! Koublack! Escutem! parece a sereia do Titan,.
  Os dois marinheiros puseram-se  escuta mas s ouviram o
chapinhar montono do mar lambendo os bordos do pedao de
gelo.
  - No entanto tinha-me parecido ouvir qualquer coisa -
afirmavam Mone ou Joo Pedro.
  - Olhem! Ali... Escutem.


                              163


  - Meus pobres pequenos - interrompeu Galtier -, que tenham
ou no ouvido a sereia do Titan, presentemente isso j no tem
importncia. Vejam a camada que se forma na gua e o fumo que
sobe da superfcie. Nenhum capito que conhea estas paragens
se arrisca a meter a a sua barca. Dentro em pouco essa camada
formar placas, depois as placas colar-se-o umas s outras e
para sair de l  o diabo. Quando o mar gela  mais do que
tempo de virar de bordo e ir-se embora.
  Joo Pedro e Mone sentiram que uma mo gelada se cerrava
lentamente dentro deles, contraindo-lhes a garganta, o corao
e as entranhas. Como condenados  morte, ficaram a olhar em
silncio para os bocados de gelo que se aglomeravam em manchas
redondas cujos bordos eram levantados com os choques e as
pequenas vagas, como folhas de nenfares.
  Ento Mone sentiu que toda a sua energia se escoava
bruscamente. Desde o incio que lutava para manter as
aparncias. Tinha dito a Galtier aquilo que desejava pensar
mas no o que experimentava. Agora a coragem abandonava-a. No
era mais do que uma rapariguinha desamparada, desejando
instintivamente que uns braos fortes a apertassem e lhe
dessem consolo.



                              164


  Ps-se a soluar, repetindo:
  - Estamos perdidos, estamos perdidos, vamos morrer aqui;
est tudo acabado, acabado!
  No temos a esperar seno a morte, o mais depressa
possvel...
  Tambm Joo Pedro tinha vontade de chorar como Mone; o
desespero invadia-o e as lgrimas subiam-lhe aos olhos; mas
abstinha-se.
  Uma espcie de orgulho levava-o a mostrar a Mone que era
mais senhor de si do que ela, que o espectro da morte no o
apavorava, porque um rapaz tem uma dureza que uma rapariga no
possui.
  Mne voltou para ele um olhar choroso, como se procurasse um
apoio, uma censura mesmo, mas que fosse uma palavra forte que
a enrijasse como era necessrio e lhe desse a coragem que a
abandonava.
  Joo Pedro compreendeu ento que ela pedia socorro, que no
era por sua culpa que os seus nervos no resistiam como os
dele; que ela tinha uma natureza diferente da sua, que devia
sustent-la e proteg-la como um irmo mais velho, como
Jacques tinha feito por ele. Mas como  que devia agir?
  De repente teve uma ideia e voltou-se resolutamente para
Mnica.


                              165


  - Escuta, vamos fazer uma promessa, anda ter com Galtier e
Koublack.
  Mnica deixou-se conduzir sem resistncia; mas os seus
soluos espaavam-se. Notou o andar decidido e viril de Joo
Pedro, e essa imagem gravou-se para sempre no seu corao. A
vida podia continuar a passar; os exemplos podiam mudar, que
ela saberia sempre que existem belos rapazes que so firmes no
sofrimento, que no se riem daqueles que so mais fracos e
procuram prestar-Lhes ajuda.
  - Galtier e Koublack! Vamos fazer uma promessa! Venham! -
disse Joo Pedro.
  O arpoador meneou ligeiramente a cabea.
  - No creio que Deus desa aos bancos de gelo para nos
procurar - disse ele.
  - Mas se vir que temos confiana nele - replicou Joo Pedro
-, talvez permita que consigamos sair daqui.
  - Sim, pelo menos sempre ser mais clemente connosco ao
abrir-nos a porta do paraso.
  - Se nos salvarmos - prosseguiu Joo Pedro - iremos
descalos de Brest ao Folgot e levaremos o lugre ex-voto ao
Grande Perdo de 8 de Setembro.
  Foi uma promessa solene; todos se puseram de joelhos,
imploraram o auxlio de Nossa Senhora de Arvor e juraram,


                              166


com o brao erguido, cumprir a promessa em aco de
reconhecimento, se Ela permitisse que voltassem vivos.


  Os dias que se seguiram foram relativamente menos penosos,
pois os nufragos, sabendo que s podiam contar consigo,
empregavam o tempo a organizar as coisas o melhor possvel
sobre o seu abandonado bloco de gelo. A neve, cada
recentemente com abundncia e endurecida pelo frio, fornecera
a Koublack o material necessrio para a construo dum igloo.
  Todos tinham participado naquele trabalho, dirigido pelo
esquim. Depois, na atmosfera tpida daquele reduto de gelo,
Koublack ps-se a curtir as peles das focas.
  Raspava-as muito bem com a lmina da faca de cortar o
toucinho de baleia, amaciava-as com leo e depois mascava-as
entre os dentes ou massava-as com pequenos e vivos gestos dos
dedos.
  Durante esse tempo, Mone e Joo Pedro iam sobre as pedras
rugosas que tinham servido de pso para manter as tiras de
peles, foLhas talhadas  faca por Galtier na parte mais fina
dos ossos nasais das focas.


                              167


  Depois era preciso retalhar finas tirinhas que serviriam
para coser as vestimentas.
  Koublack era originrio duma tribo de esquims chamada
Netsilik, o que quer dizer esquims das focas. Antes de ir
para a Islndia, vivera com os seus na costa oriental da
Gronelndia. Assim, pouco a pouco, ia-se lembrando dos gestos
que tinha visto fazer durante a sua infncia, ou feitos por
ele prprio muitas vezes. O hbito, a destreza manual,
esquecidos durante anos, tornavam a voltar-lhe.
  Mnica, acocorada junto dele, ajudava-o a cortar as peles e
a cos-las. Manejava a agulha com habilidade.
  - Isto  melhor ocupao para ti do que caar a baleia, hem,
mida! - disse-lhe Koublack, sorrindo.
  - Mas eu...
  - S enganaste as pessoas durante algumas horas, minha
pequenita. No dia seguinte ao teu embarque no Titan todos a
bordo sabiam que eras uma rapariga; se no fosse isso pensas
que terias tido uma cabina  r s para ti? Felizmente que l
estava o Daniel para fazer o velho engolir mais uma vez a
plula; mas ele no a digeriu com facilidade e no perdoou a
Galtier t-lo apanhado como um garoto. Talvez fosse mesmo s
por causa disso que lhe veio aquela animosidade contra ele;


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simplesmente aconteceu que, como vos tinha embarcado
ilegalmente, de qualquer maneira no podia dizer nem fazer
mais nada. Com Daniel para fazer justia e Galtier para manter
o respeito, mais lhe valia no arranjar atritos...
  Terminados os fatos, as luvas e as botas, Koublack, Galtier,
Mone e Joo Pedro enfiaram-nos. Estavam feitos com paredes
duplas e s o rosto aparecia atravs duma pequena abertura que
uma trana permitia diminuir ou aumentar.
  Para os nufragos, que havia tantos dias sofriam imenso com
o frio, foi uma agradvel sensao sentir o doce calor que
persistia no obstante o vento ou o contacto prolongado com a
neve.
  O pior foi aprender a comer crua a carne de foca gelada. Ao
princpio, Mone, Joo Pedro, Galtier, vomitavam os bocados que
tentavam sorver, e Loux, que se deleitava com aqueles
detritos, mirava os seus pobres donos com um olhar admirado.
Como  que eles podiam deitar fora aquela excelente comida?
Hesitava um pouco para ver se eles realmente abandonavam
coisas to boas, e depois, convencido de que no lhas
disputariam, rapava tudo com alguns movimentos da lngua.


                              169


  Koublack sorria.
  Mas Joo Pedro estava revoltado.
  - Se temos leo, se se pode fazer fogo, porque  que havemos
de nos esforar por comer como ces?  estpido! - gritou com
indignao na direco de Galtier e, sem esperar mais,
dirigiu-se para o barril aberto, tirou algum leo com uma
concha e saiu dizendo:
  - Estou-me nas tintas! Vou cozer a minha carne; vem, Mone.
  O arpoador desmantelou a fornalha com o p.
  - Nada de fogo, j te disse, meu rapaz! E  preciso
obedecer-me.
  Joo Pedro teve um movimento de clera, endireitou-se e
fixou Galtier nos olhos.
  - Foste tu que nos fizeste embarcar no baleeiro,  por tua
culpa que nos encontramos nesta situao e agora queres que
rebentemos porque tu perdeste a coragem... Gaita! Deixa-me
defender a pele, sou bastante crescido para saber o que devo
fazer.
  - Joo Pedro, s injusto com Galtier - interveio Mone -, ele
fez o que julga melhor.
  - Deixa-me em paz! Se qures o teu bif congelado  l
contigo...


                              170


  Galtier reprimiu um gesto da mo. Joo Pedro e Mone notaram
que era com esforo que se continha; depois, sem dizer nada,
entrou no igloo. Mnica quis convencer Joo Pedro a entrar
tambm, mas ele ops-se.
  - Gaaaaita! deixa-me. Vou cozer a minha carne e ningum mo
impedir...
  Havia quase meia hora que o grumete tentava grelhar o seu
bocado de foca, quando Galtier deslizou de novo para fora do
igloo. Uma lufada de fumo acre picou-lhe os olhos.
  Aproximou-se de Joo Pedro que estava inclinado sobre o seu
miservel fogo e o via aproximar-se como um animal ferido, o
olhar de uma ave de rapina.
  O marinheiro tinha serenado.
  - Ouve-me bem, rapazinho, se tu fosses um homem eu saberia
como agir contigo;. mas, embora tu digas que j s bastante
crescido, s ainda muito jovem e eu ainda no te conheo nem
Teria podido bater-te; somente acontece que quando bato, sabes
bem que no consigo medir a minha fora; arriscava-me a fazer
estraGos e eu no queria. Aqueles que tm instruo e podem
conversar, devem explicar bem as coisas que pensam,


                              171


evitam andar ao murro. Para aqueles que, como eu, no foram
muito  escola, isso  difcil. Muitas vezes no se v bem o
que  melhor em relao ao futuro. Creio que realmente me
enganei, como tu dizes, ao embarcar-vos comigo no Titan; mas
j no serve de nada falar nisso. Agora o mal est feito e no
se pode emendar; somente enquanto eu for vivo, cuidarei de
vocs dois como mo pediram e a quem tem o cuidado  que cabe
dar ordens.
  No  para te fazer passar mal que eu no quero fogo; 
porque, se tu queres aguentar-te num canto como este, 
preciso deixar-se de floreados e viver como os que l moram;
se no te habituas, agora que custa menos a comer como os
esquims, tudo frio e gelado, no Inverno, quando fores
obrigado, no podes mesmo. Ficas doente, arrebentas.  duro,
bem sei; mas tem que se fazer o que  preciso.
  Vamos! Apaga o teu fogo, pequeno, e faz como os outros.
  Galtier devia ter procurado durante muito tempo as frases
daquele pequeno sermo pelo qual Joo Pedro no esperava. Sem
responder, o rapaz afastou os toros de madeira oleosos,
semicalcinados; olhou com pena para o bocado de carne que
tivera tanta dificuldade em grelhar e, com um gesto decidido,


                              172


atirou-o a Loux que o apanhou no ar e o devorou.
  O arpoador tinha voltado as costas e chegado at  beira do
bloco para ver o mar que se cobria duma camada de gelo cada
vez mais espessa. As placas quebravam-se e pelos intervalos
apareciam pequenas vagas que se petrificavam, formando
protuberncias mais ou menos altas; depois os pedaos
achatados soldavam-se de novo para se tornarem a quebrar ainda
e recolarem em seguida.
  Joo Pedro alcanou-o e tocando-lhe no brao:
  - Galtier, peo-te perdo - disse-lhe -, e agradeo-te tudo
o que tens feito por mim. Mas enraivece-me este frio que est
em todas as coisas, com o qual  preciso viver dia e noite, E
que  preciso aceitar mesmo na alimentao. No me queiras mal
pelo que te disse, no fundo no o pensava; para o futuro
hei-de obedecer-te, prometo-te.
  - O que  que tu queres - replicou Galtier, que tentava no
deixar transparecer a sua emoo -,  a tua idade, a tua
cabea de homem que se forma; ela no gosta de se dobrar, no
 para admirar; o primeiro capito que eu tive,


                              173


quando era grumete, num navio da pesca do bacalhau, dizia-me
muitas vezes: "Uma cabea de homenzinho  como um barco. Tem
ideias que devem comandar e outras que devem obedecer". Se
puseres as boas na tolda e elas souberem subjugar as outras,
fars boa rota"... Se so as ms que tm o comando, irs 
rola e no tardars a estar perdido. Nunca se sabe bem quais
so as boas, mas  raro que sejam as mais fceis.


  Os dias tinham diminudo muito depressa e agora o sol apenas
se arrastava durante algumas horas acima do horizonte. A maior
parte das vezes seguia uma curva baixa, dissimulada por detrs
duma cortina de lvida bruma. A pouca e plida luz do dia
deixava aperceber as longnquas tormentas do mar do gelo.
  Tambm a temperatura baixara progressivamente. O frio
reinava como senhor e at mesmo a potncia do oceano tivera de
ceder perante a sua aco lenta mas implacvel.
  No interior do igloo, onde existia um relativo calor, no
faltavam aos nufragos ocupaes; Tinham fabricado primeiro
uma candeia de leo com uma caixa de conservas vazia


                              174


e uma ponta dum cabo a fazer de mecha. Difundia uma fraca
claridade amarela em torno da qual cada um se ocupava
activamente do seu trabalho.
  Os grumetes, seguindo as indicaes do esquim, tinham
tirado as ripas de carvalho de um barril vazio e empenhavam-se
em fend-las em finas tirinhas e depois em lig-las com tripas
de foca torcidas que constituam um cabo que, sem ser muito
grosso, era slido como ao. Fabricaram assim o cabo daquela
arma indispensvel ao esquim, que se chama o kakivok.
  , com efeito, um arpo que serve para mltiplos fins. A
extremidade, armada com um entalhe, foi feita de um osso de
foca. A confeco de uma isca artificial, tambm de osso,
representando um peixe com barbatanas mveis, foi
particularmente delicada. Para o conseguir foi necessria toda
a cincia do esquim assim como a habilidade do arpoador.
  As poucas horas de dia, se se podia mesmo chamar dia quela
espcie de obscuridade esbranquiada, eram reservadas  pesca
e  caa. Uma e outra praticavam-se, de resto, de maneira
quase idntica.
  Para pescar, furavam-se com o arpo dois ou trs buracos nos
stios onde o gelo ainda no estava muito duro e depois


                              175



agitava-se a a isca artificial. Era preciso apanhar o
instante em que o peixe aparecia no buraco. O pescador,
emboscado, trespassava-o ento com o seu kakivok.
  O animal sado da gua debatia-se um momento sobre o solo
branco e depois gelava. Eram geralmente bacalhaus rcticos, de
ventre claro e dorso bronzeado.
  A caa assemelhava-se muito  pesca, com a diferena de que
a foca, nica caa existente, cavava o seu prprio buraco no
gelo para vir depois a respirar. O buraco ficava dissimulado
sob uma pequena cpula de neve endurecida, e o faro de Loux
era ento muito til nessas circunstncias. No s encontrava
o stio dos buracos como ainda assinalava com um bater da
cauda aqueles que eram frequentados pelas focas.
  Koublack aproximava-se ento,.rastejando, fazia na cpula de
neve um pequeno orifcio pelo qual introduzia uma fina haste
de madeira munida de um flutuador e depois esperava, com os
olhos cravados naquele indicador que saa alguns centmetros
fora da neve.
  Quando a foca vinha respirar, a gua agitava-se no buraco de
gelo; a haste mexia-se, subia, descia; o esquim lanava ento


                              176


com preciso o seu kakivok, e depois,  maneira dos caadores
primitivos abria o ventre do animal: com a sua faca arrancava
o fgado que cortava em cinco bocados. Os homens e o co
comiam imediatamente essa carne tpida que os reconfortava.
  Agora, Joo Pedro, Mone e Galtier j no sentiam repulsa
pela comida crua e gelada, e sobretudo o peixe era excelente
e, como o husky, encontravam-lhe um sabor particularmente
agradvel quando estava um pouco fermentado.


                              177


                              X


       AQUELA noite todos dormiam no igloo,      com Loux
deitado, como sempre, entre Mone e Joo Pedro, que ele aquecia
com a espessa pelagem. Um surdo roncar acordou-os.
  Dir-se-ia que nas proximidades passava uma fila de pesados
camies, fazendo estremecer o gelo. O rudo vinha de todos os
lados simultaneamente e repercutia-se mesmo por baixo do
abrigo.
  L fora, o vento, que se tinha bruscamente levantado, varria
a neve acumulando-a nalguns stios ou projectando-a no ar com
violncia.
  O barulho era regular, como um longo troar de tempestade em
que havia de tempos a tempos uma surda exploso.
  - O que  que se passa? - perguntou Galtier a Koublack.
  - So os bancos de gelo que se movem - respondeu o esquim.
- Contanto que no sejamos esmagados...



                              179


  Os nufragos saram do igloo e, envolvidos pela tempestade
de neve que Lhes cortava o rosto e os sufocava, assistiram a
um espectculo terrificante.
  Sob os seus ps o gelo estremecia. Nalguns stios
quebrava-se e a gua flua pela abertura. Ao claro plido da
lua, descortinavam imensos blocos de gelo que se dissociavam,
se encavalitavam; elevavam-se como enormes vagas e
desfaziam-se ao quebrarem-se.
  To longe quanto a vista alcanava, nada mais havia que
massas de gelo em movimento, que se chocavam, se abatiam com
um rudo de falsias ao desmoronarem-se. Brechas que se abriam
com um estalar sinistro.
  Joo Pedro, Mone, Galtier e Koublack j no sentiam nem o
frio nem o sono; tinham a impresso de viverem um pesadelo.
  A terra oscilou, afastou-se do sol que desapareceu. J no
h dia, j no h mais que uma longa e fria noite: esse mundo
envelhecid onde no cresce uma erva, uma planta, uma rvore;
esse mundo sem calor nem vida, como morto, entra nas
alucinantes perturbaes de apocalipse.


                              180


  Tambm Loux parece apavorado com o espectculo e, como os
donos espera com ansiedade ser aniquilado pelo cataclismo.
  - No fiquem aqui a rebentar de frio e de medo - concluiu
Galtier. - Voltemos para o igloo; acontecer o que tiver de
acontecer.
  Antes de se enfiar de novo sob as coberturas, Mone disse a
Joo Pedro:
  - Recitemos uma orao, assim, se tivermos de morrer,
estaremos prontos.
  Galtier e Koublack calaram-se para no os perturbarem, e,
quando eles terminaram, persignaram-se tambm.
  E lentamente as convulses cessaram. O caos serenou,
paralisou-se e sobrevieram as longas jornadas de noite total,
cortadas por rajadas de vento e quedas de neve.
   A crosta de gelo j no era sacudida plos dramticos
sobressaltos; mas gemia sem cessar, o roncar surdo desse
eterno movimento dos bancos ressoava ao longe como uma
tempestade contnua.
  A perptua ameaa de morte suspensa sobre as suas cabeas, o
sofrimento que lhes infligia o frio, a obscuridade permanente
e sobretudo, a lembrana dos seus que, em Frana,


                              181


deviam viver dias de luto e desespero, tinham acabado por
criar uma atmosfera de penosa angstia, que esgotava as foras
e amargurava as almas dos quatro nufragos.
  As pequeninas falhas de um companheiro, das quais ainda
ontem se riam, tornavam-se agora num defeito desesperante; um
esquecimento, uma falta de jeito, uma palavra ou mesmo uma
atitude apenas, irritavam por vezes como uma provocao. No
se dizia nada; mas, pelos motivos mais fteis, alimentavam-se
nos seus coraes sentimentos hostis. Longas horas se escoavam
num silncio cheio de tenso em que cada um vigiava com
azedume as atitudes de outro e s vezes, sem razo plausvel,
eclodia uma disputa.
  Palavras duras, agressivas, quase sempre injustas, vinham
envenenar a ferida que cada um trazia em si. Apaziguavam por
um curto momento aquele que as lanava ao rosto do outro, mas
logo depois o seu sofrimento voltava to pungente como antes,
avivava-se o mal que lhe roa lentamente os nervos.
  Ontem Galtier no atirara, com um gesto de impacincia,
Koublack por terra s porque ele tinha rido...
  - Grandessssimo parvo! - tinha-lhe dito, furioso.


                              182


- tu divertes-te; ests no teu pas, sentes-te bem aqui! A
neve, o gelo, o gelo, a neve, a noite, a noite, o gelo, a
neve... V, enfrasca-te na tua neve, e rebenta!
  Joo Pedro nunca tinha visto em Galtier aquela expresso
contrada, o olhar mau, e por isso sentiu por ele um certo
desgosto. Mnica surpreendera clares de raiva no olhar do
esquim, e,  noite, tinha chorado longamente antes de
adormecer, porque lhe era confrangedora aquela hostilidade
entre uns e outros; assustava-a e fazia-lhe mal.
  Confusamente, sentia que devia tentar qualquer coisa que
fizesse voltar o bom entendimento e a afeio; mas o qu?
  Foi ento que se lembrou de cantar: A me fazia-o muitas
vezes em casa, quando ela tinha um desgosto, e isso acalmava-a
sempre.
  Mnica possua uma voz grave, bem modulada, que prendia:


     At  bela fonte
     Um dia fui passear,
     A gua era to bela
     Que ali me quis banhar;
     Desde sempre te amei,
     Sem nunca te olvidar...


                              183


  Notou que a escutavam, que as palavras to simples daquela
velha cano evocavam no corao daqueles homens rudes a
recordao duma doura esquecida, de seres amados que
apareciam tais como os tinham conhecido e lhes sorriam.
Julgavam rever os seus rostos e sentiam-se envergonhados por
se terem deixado arrastar, por terem sido maus e brutais entre
si.
  Koublack escutava em silncio; Mone notou a expresso de paz
e suavidade no seu rosto. Olhou para Galtier e pareceu-lhe ver
como que uma lgrima a brilhar nos seus olhos azuis. Ento a
emoo cerrou-Lhe a garganta e ela calou-se.
  -  preciso continuar, pequena - disse-Lhe o marinheiro -,
isso faz-me pensar que somos ainda homens; se no, em breve
nos tornaremos, uns para os outros, semelhantes a feras.


  Durante uma semana, as canes de Mone amenizaram os longos
seres no igloo, restabelecendo simples e suavemente a amizade
entr o grupo que se remeteu corajosamente ao trabalho para
preparar a grande experincia.
  A grande experincia era a partida. Agora que todos os
blocos de gelo estavam soldados uns aos outros, a grande
extenso branca bem endurecida pela geada persistente,


                              184


agora que a neve cara em quantidade suficiente para que se
pudesse fazer deslizar um tren e encontrar por toda a parte
com que construir igloos, os quatro marinheiros do Titan
podiam tentar, por etapas, alcanar as costas geladas da
Gronelndia s quais o frio e a corrente polar os tinham
fixado.
  Um, dois, talvez trs meses de viagem,,, Trs meses de vida
rude e perigosa. Trs meses de esforos de vontade e de
coragem, trs meses de misria sem a certeza do sucesso, mas
tambm trs meses de esperana; a nica esperana que lhes
restava e que ardia no fundo de si prprios, como a chamazinha
daquelas lamparinas que nunca se extinguem.
  Tinham feito vesturio, botas para mudarem: uma espcie de
sapatos para protegerem as patas de Loux quando a neve
demasiado gelada se tornasse cortante.
  Koublack procedera minuciosamente ao congelamento do tren.
Segundo o uso do seu povo, era preciso recobrir os patins com
uma lama gelada e endurecer depois este revestimento duma
maneira homognea. A lama fora substituda por uma pasta feita
com cinza muito fina.


                              185


  Tinham sido seleccionados grandes bocados de carne de foca e
peixes congelados, para servirem de alimento aos homens e ao
co.
  A carga devia ser arrumada rapidamente no tren, com o
auxlio de grandes correias, e descarregada, sem dificuldade,
na escurido.
  Uma noite ficou tudo pronto e os nufragos esperaram com
intensa emoo o levantar da lua. Mal ela subisse no cu frio,
deixariam o bloco de gelo e partiriam sobre a imensa e deserta
superfcie branca, para a grande viagem, a grande aventura.
  No momento da partida, Mone dissera a Koublack:
  - -Loux no poder puxar este tren, est muito carregado.
  - Limita-te a desejar poder segui-lo, pequena -
respondeu-lhe o esquim... - 150 quilos  uma brincadeira para
um grande husky. Podes crer que estars fatigada antes dele.
  Lembrava-se dessa frase agora que os msculos das pernas lhe
doam e em que tinha de se esforar para manter a sua
distncia com o tren. A reverberao da neve sob a plida


                              186


e traioeira luz do luar fatigava-Lhe a vista e dava-lhe
tonturas; por vezes sofria tanto que se agarrava a uma das
correias do tren e deixava-se arrastar. Loux no diminua por
isso o seu andamento regular; caminhava de cabea direita, os
jarretes esticados, seguindo Koublack e Galtier, sempre com o
mesmo passo que imprimia na neve pegadas com a forma de flores
abertas.
  Em viagem, havia regras imutveis. Era preciso no correrem,
se no transpiravam, e, se parassem em seguida, a transpirao
gelava e podia ocasionar a congesto e a morte.
  Era preciso manter as plpebras semifechadas, como Loux e
Koublack, para evitarem que a neve os cegasse ou ficassem com
os olhos queimados pelos minsculos cristais de gelo que o
vento lanava contra o rosto.
  Era preciso guiar o tren para evitar os buracos, os
desnveis, as fendas...
  No fim de cada etapa, distribua-se o alimento: grandes
quartos de foca e de peixe gelado para os homens assim como
para o co;, cada um devorava uma enorme rao. Depois
construa-se o igloo; para isso tinha de se cortar grandes
blocos de neve endurecida, sempre do mesmo tamanho e do mesmo
feitio.


                              187


  Koublack dispunha-os de maneira que o conjunto formava uma
calote esfrica na qual se penetrava por um orifcio estreito
como a entrada duma casota de co.
  Era um alvio enfiar-se l dentro. Estava to bom em
comparao com o exterior!
  Galtier acendia a pequena lamparina de leo de foca, que
difundia um claro amarelo e dava uma iluso de calor.
  Era a hora das reparaes, da reviso do vesturio e dos
arreios. Um buraco numa bota, numa luva, uma costura que
esgarava, era imediatamente a ameaa dum membro gelado, dum
p, duma mo, duma orelha que em alguns instantes se tornaria
lvida, dura, insensvel,  talvez mesmo de negro rosado da
gangrena e que seria preciso cortar para evitar a propagao
rpida do mal.
  Aps alguns choques, nas primeiras semanas, o grupo tinha
acabado por adquirir uma boa harmonia, graas aos esforos de
todos, mas sobretudo graas a Galtier, que sentira na noite em
que Mnica cantou pela primeira vez, que era preciso que
algum tomasse o comando do grupo e que esse algum devia ser
ele; mesmo que essa tarefa lhe parecesse desproporcionada com
a sua competncia.



                              188


  Os garotos tinham-lhe sido confiados e no se sentia com o
direito de descarregar em Koublack a responsabilidade de tomar
iniciativas.
  No  Titan seria a ele que dariam o comando, de preferncia
ao esquim, portanto ali devia ser a mesma coisa.
  E no devia ser maldoso ou bater, como tinha acontecido no
momento em que perdera a cabea com Koublack, mas, sim,
ponderar e raciocinar suavemente, como fora forado a fazer
com Joo Pedro.
  Era preciso procurar dirigir sem se enervar, como Kermeur,
Daniel e os melhores capites que tinha conhecido. Claro que
no poderia ser semelhante a eles, mas, depois de ter
conversado tranquilamente acerca dos projectos com os rapazes,
devia agir da maneira que pensasse ser a melhor e manter-se
firme, sem ceder a  este ou quele.
  Em torno da pequena chama fuliginosa, Mone e Joo Pedro
falavam muitas vezes dos seus, do que eles fariam quela mesma
hora na Noruega, onde a neve devia certamente cobrir tambm o
solo, ou na casa de Rennes, demasiado vazia, demasiado
silenciosa.
  - Talvez o Skrangel no tenha chegado, Joo Pedro,


                              189


talvez o Frami se tenha afundado e o meu pai, Jacques e os
outros todos se tenham perdido como ns, ou se tenham afogado
- dizia Mnica.
  O no saberem nada das suas famlias era-Lhes extremamente
pungente, e os seus pensamentos erravam sobre a terra bret ou
norueguesa, como almas penadas, procurando em vo encontrar os
seres que amavam e de que a longa separao os fazia sofrer.
  -  preciso no falar muito disso, meus filhos - dizia s
vezes Galtier. - Esto a criar um desgosto quando talvez no
haja razo; talvez todos se encontrem de perfeita sade.
Quando se comea a pensar assim, acaba-se por no dormir nem
comer. Vamos! canta um pouco, Mnica, tu sabes, a cano dos
grandes beros.
  E Mone, sacudindo o vu de tristeza que a obsediava, cantava
sem se fazer rogar, com aquela simplicidade e sinceridade que
todos amavam:


     Outrora ainda meninos,
     Nos nossos pequenos beros
     Fizemos belos soninhos
     Junto de brancas cabeas.


                              190


     Hoje que o mar profundo
     Nos leva a terras distantes
     Balana em volta do mundo
     Trs mastros, beros gigantes.

     Embalai a vossa volta, grandes beros de criana
     Alm no horizonte negro ergue-se a terra de Frana
     J danam nossos amores l sobre a areia revolta
      grandes beros de sonho embalai a nossa volta.


  Depois cada qual ia deitar-se, nunca sabendo se era dia ou
noite, se estava longe ou prximo do fim, triste ou alegre,
fatigado ou bem disposto.
  Estendia-se sobre a cama de gelo, protegia-se com peles de
foca e cobertores e mergulhava no sono.
  Se a lua no dava luz suficiente, a proviso de vveres
estava esgotada ou os estmagos inchados reclamavam alimentos
frescos, param por alguns dias para caar focas ou pescar no
gelo, bacalhaus polares. Para construir o igloo, era
suficiente encontrar um stio onde houvesse bastante neve
endurecida; pouco importava que fosse aqui ou ali,


                              191


a paisagem no variava: neve, gelo, o vento que cortava
como uma lmina e varria a montona e catica extenso branca.
  O gelo s era plano e liso nalguns stios. Aqui elevavam-se
blocos, montculos, verdadeiras muralhas; ali descobriam-se
falhas, fendas. Os nufragos tinham s vezes a impresso de
terem aterrado na lua ou num planeta morto; ou de serem os
ltimos sobreviventes dum mundo em desagregao.
  Havia tambm perodos de grande calma, em que as estrelas
brilhavam com uma extraordinria claridade, fazendo cintilar
de azul, amarelo, verde ou violeta a imensidade branca. s
vezes a aurora boreal iluminava o cu com um gigantesco fogo
de artifcio ou como um vu de ferica luz que se movia
lentamente acima do horizonte. Ento a grandeza do espectculo
deixava-os perturbados.
  No obstante os seus sofrimentos e as suas inquietaes,
sentiam que uma parte de si prprios era atrada para o
princpio de todas as coisas e, no impressionante silncio,
subia aos seus coraes um acto de adorao pelo Criador.
  Quando j tinham caado e pescado o suficiente, retomavam a
viagem por etapas mais ou menos longas segundo a claridade, as
perturbaes atmosfricas, a abundncia de alimento ou a
fadiga.


                              192


  Tinham milhas e milhas a percorrer antes de alcanarem as
costas da Gronelndia. Era preciso atingi-la antes que o sol
subisse demais no horizonte e a rotura do gelo comeasse.
  Cada passo em frente era uma esperana de vida, cada paragem
um risco de morte.


                              193



  Durante quatro dias, o Nigak (1) tinha obrigado os viajantes
a ficarem encerrados na sua toca de gelo. Os vveres estavam
no fim. Por isso, logo que na noite seguinte o vento caiu
bruscamente, os nufragos aproveitaram para irem  procura de
alimento.
  S Koublack ficara no interior do igloo para tornar a fazer
o congelamento do tren que as longas marchas desgastavam
depressa.
  Mone, Joo Pedro e Galtier, ajudados por loux, tinham ido 
procura de buracos de focas.
  O co acabou por encontrar um ao p dum grande banco de gelo
que a solidificao do mar detivera e impedira de continuar 
rola.
  - Aquela fez o seu ninho escondido - disse Galtier,


  *1 Nigak: palavra esquim que significa vento de Este.


                              193


que se ajoelhou no gelo com Joo Pedro, arrancou delicadamente
a crosta de neve que cobria o orifcio e comeou a dispor o
flutuador segundo o mtodo que Koublack lhe tinha ensinado.
  - Olha, rapazinho, corre  choa e procura o arpo de que
nos esquecemos; vamos tentar picar o bicho quando vier
respirar - disse Galtier.
  Joo Pedro levantou-se e apressava-se a alcanar o igloo
quando um grito de pavor, soltado por Mone, os deixou
terrificados.
  - Que foi? - perguntou o marinheiro, levantando-se
bruscamente.
  Loux j tinha saltado e contra-atacado com raiva.
  - Bonito servio! Estamos arranjados! - murmurou o arpoador.
  Joo Pedro, paralisado pelo medo, estava imvel, com os
olhos fixos na cena trgica que acabava de descobrir.
  Um urso branco surgira por detrs do bloco de gelo, tinha-se
levantado e lanado sobre Mone, despedaando-lhe os ombros e
as costas com as enormes patas. E esmagar-lhe-ia a cabea
dentro da enorme bocarra se Loux no se tivesse atirado e
enterrado profundamente os seus dentes agudos nos msculos das
patas.


                              194


  O urso tinha abandonado momentaneamente a presa para
ripostar. Com grunhidos de furor, ameaava o co com as suas
longas garras compridas como punhos, procurando agarr-lo com
a potente mandbula; mas o husky atacava por assaltos: um
salto, uma dentada mortfera, um pulo para trs.
  A pesada pata do urso batia no vazio, os seus dentes
estalavam sem apanharem nada e o co continuava, a cauda
arrastando-se pelo cho, os plos do pescoo e da espinha
levantados, o olhar vivo, a boca semiaberta, pronta a morder
bem duro, rpido, demasiado rpido para as reaces lentas do
urso branco.
  Mas seria necessria uma matilha para acabar com aquele
colosso. No obstante toda a sua coragem, Loux s podia
retardar um pouco o desenlace do drama. Dentro dum instante, a
enorme besta polar lanar-se-ia de novo sobre Mone, que jazia
inanimada a seus ps.
  O sangue corria em fios vermelhos pelos rasges do seu
vesturio de pele, e o quente odor excitava o animal selvagem.
  - Joo Pedro, vai depressa procurar o arpo e chama
Koublack...
  O rapaz viu Galtier aproximar-se do animal com as mos
vazias, os braos ligeiramente estendidos  frente do corpo, 


                              195


como um lutador pronto para o combate
. No podia ir-se embora, continuava ali, apavorado. Loux no
precisara de que lhe explicassem a manobra de Galtier. Tinha
sangue de lobo e compreendia por instinto todas as tcticas do
combate em grupo. No era reflexo nem inteligncia; era
simplesmente o sentido infalvel que o Criador tinha dado 
sua raa para lhe permitir defender-se e alimentar-se.
  Estava de frente e devia manter-se assim para que o outro
pudesse deslizar por detrs e bater. Se Galtier estivesse pela
frente, ele teria contornado o inimigo e saltado pelas costas;
mas o homem torneava o adversrio. O olhar do co acompanhava
o movimento para aproveitar o m'omento mais propcio.
  A princpio, o urso no prestara grande ateno quela
espcie de pinguim vestido de pele de foca, que no tinha
garras na ponta dos braos, nem presas nas mandbulas e que
no emitia o grunhido habitual dos animais prestes a atacarem.
  No entanto, quando ele se aproximou por detrs, o urso
voltou a cabea; mas nesse momento preciso: clac! uma pina
dura como uma armadilha de ao que se dispara enterrou-se na


                              196


sua carne. Os dentes do husky tinham ferido.
  O urso voltou-se, lanou as patas terrveis, mas Loux j
tinha largado.
  No entanto, desta vez, as garras atingiram-no e o sangue
escorreu sob o plo do co; mas ele continuava ali, agressivo,
tenso, prestes a saltar de novo.
  A dor viva que acabava de experimentar tinha posto o
plantgrado em fria. Apressava-se a carregar sobre Loux
quando sentiu bruscamente um torno constitudo pelos braos de
Galtier fechar-se sobre o seu pescoo.
  O animal debatia-se vigorosamente, tentando agarrar o
agressor com a enorme boca. Ao mesmo tempo, as duas patas da
frente procuravam retalhar o corpo do homem que o mantinha
numa posio perigosa.
  Felizmente, Galtier estava nas suas costas e os braos
apertavam como pinas de ao.
  Se o animal se voltasse, ele seria despedaado num instante;
o marinheiro sabia que jogava a vida. Que importava, tinha
decidido salvar Mnica, que lhe fora confiada, ou ento
perecer.
  No se arriscara como um louco numa aventura insensata. O
urso era do seu tamanho;


                              197


mas era preciso lanar na balana o peso das duzentas e vinte
libras e a sua temvel fora.
  A cada sobressalto do animal, Joo Pedro ouvia, misturados
com os grunhidos de clera do urso, os heinnnnh heinnnnh do
marinheiro cujo potente abrao dominava os movimentos
desordenados do animal.
  Desde que Galtier mantinha a segunda frente, Loux estava
desenfreado, saltando logo que as patas se abaixavam,
lanando-se para trs logo que elas se erguiam. A sua boca
atingia sem erro o ponto descoberto, as presas feriam com
eficcia. Mordia com um golpe seco, recuava, soltava,
deslizava, batia em retirada e voltava sem cessar.
  Joo Pedro compreendeu que naquele combate no havia lugar
para ele e precipitou-se para o igloo, gritando com todas as
foras:
  - Koublack! Koublack! Socorro! Socorro Depressa! Depressa!
Depressa!...
  Toda esta cena no tinha durado mais que uns instantes
durante os quais Mone estava sem sentidos. Agora comeava a
abrir os olhos e percebia atravs dum confuso zumbir de
ouvidos os rugidos do urso e o rosnar de clera do co.
  De incio no compreendeu exactamente o que se passava.


                              198


O seu crebro estava entorpecido, como invadido por um sono
pesado e embrutecedor; depois moveu ligeiramente a cabea e
viu perto de si o enorme plantgrado erguido sobre as patas
traseiras, o pescoo apertado pelos braos de Galtier cujo
rosto congestionado notou.
  Atravs dos dentes cerrados do marinheiro passava um
profundo suspiro que marcava a progresso do seu esforo.
  - Heinnnnnnh! Heinnnnnnh! Heinnnnnnh!
  Ento lembrou-se de repente do que se tinha passado.
Contornava o bloco de gelo enquanto Galtier e Joo Pedro
dispunham os flutuadores no buraco da foca quando viu surgir
aquele enorme animal que se lanara sobre ela. Fora deitada
por terra e desmaiara.
  Quis mexer-se; as costas doam-lhe e os braos estavam sem
foras. Como um claro, viu Loux saltar; o seu plo estava
coberto de sangue; mas os ferimentos no lhe tinham diminudo
a coragem nem a violncia, pelo contrrio. Parecia mesmo ter
perdido toda a prudncia: atacava o urso com uma audcia
insensata. Chegava mesmo a morder-lhe o focinho.
  O animal atacado defendia-se asperamente. As patas
despedaavam o dorso do co.


                              199


As presas de dez centmetros procuravam esmagar o crnio do
husky; mas Loux tinha uma tal mobilidade de movimentos que o
seu maxilar mordia dez vezes por cada resposta do seu
adversrio que ele obrigava a manter-se preso.
  Deu-se conta de que o animal acossado perdia o vigor e a
combatividade. A golilha que lhe encerrava o pescoo, grosso
como um tronco de carvalho, magoava-o e sufocava-o
progressivamente.
  Galtier ouvia o corao do monstro bater de uma maneira
desordenada. A respirao tornava-se mais curta, esgotava-se,
mas quanto tempo resistiria ainda? Teria sem dvida terrveis
sobressaltos antes de soobrar e o marinheiro sentia que em
breve atingiria o limite das suas foras.
  Koublack no estava no igloo. Acabado o congelamento do
tren, devia ter ido escavar um buraco para pescar.
  Joo Pedro agarrou no arpo e voltou correndo para o local
do combate.
  Nervoso, tremendo, aproximou-se do urso como um autmato;
receava que a coragem lhe faltasse se reflectisse na melhor
maneira de agir.


                              200


  Mas Logo que esteve ao alcance feriu ao acaso,, sem olhar,
com pressa de acabar o mais cedo possvel.
  A ponta da arma deslizou sobre o trax do animal fazendo-Lhe
uma ferida superficial que provocou nele um sobressalto de
furor. Apanhou a lana nas suas grras e, enquanto Joo Pedro
rolava sobre o gelo, quebrou-lhe o arpo com uma dentada
raivosa e depois, com uma srie de movimentos bruscos, tentou
libertar-se para se precipitar sobre aquele novo assaltante.
Galtier sentiu-se levantado, ia perder o equilbrio e cair.
Com um esforo intenso que arrancou um grito rouco e selvagem
conseguiu manter o urso; mas estava no fim das suas foras e o
grumete compreendeu que, se interviesse eficazmente, tudo
estaria perdido.
  Levantou-se, agarrou no extremo do arpo quebrado, que tinha
agora o tamanho de uma seta, e avanou de novo para o feroz
animal. Um medo horrvel crispava-Lhe as entranhas, o corpo
queria fugir, abandonar a luta, os membros, todo o seu
organismo resistia  necessidade do combate. Um imperioso
instinto ditava-lhe a sua ajuda: a astcia.


                              201


  - tira a tua blusa e serve-te dela para enganares o
inimigo...
  Em alguns segundos, Joo Pedro tinha morto a revolta da sua
natureza e recobrado o sangue-frio bastante para calcular o
golpe com inteligncia e ferir no stio mais vlnervel.
  A alguns centmetros das garras, atirou a sua camisa  boca
do urso que a agarrou e lacerou s dentadas. Aproveitando
aquele momento, Joo Pedro abaixou-se e, com um gesto vivo e
preciso, onde ps toda a sua fora, enterrou a ponta do arpo
no abdmen do animal Perfurando o peritoneu e penetrando at
ao corao.
  Da garganta do animal saiu um surdo estertor; depois vacilou
e caiu sobre o gelo.
  Galtier ficou imvel por uns minutos, embrutecido, e depois,
titubeando como um homem embriagado, dirigiu-se para Mnica.
  Koublack acabava de chegar; tirou do bolso uma espcie de
escudela flexvel de pele de foca e encheu-a com o sangue do
urso...
  - Bebe - disse  ferida.
  Mnica afastou-se daquela beberagem repugnante; mas o
esquim insistiu.
  -  preciso beberes,  como um fortificante  bebe depressa
antes que gele.


                              203


  Mone fechou os olhos e absorveu a grandes goladas aquele
lquido quente e espesso.
  Galtier e Joo Pedro tambm beberam desse sangue vigoroso
que provocava imediatamente uma reaco semelhante  do
lcool, mas infinitamente mais s e mais duradoura.
 Koublack tratou  Mnica com leo de foca que acalmava a dor
e, ao que ele dizia, impedia a infeco. Tambm, era o nico
remdio. Por isso foi posto nas orelhas e nas mos de Joo
Pedro que tinham comeado a gelar durante o curto instante em
que tirara a blusa. Puseram-no tambm nas chagas de Loux, que
no gostava que lhe tocassem e se apressava a lamber aquele
unguento.
  Era preciso esperar que os ferimentos estivessem um pouco
cicatrizados antes de retomarem o caminho. Isso implicava uns
oito dias, que foram empregados no arranjo do vesturio e em
confeccionar um saco de dormir para Mone, que da em diante
tomaria lugar no tren.
  Koublack encarregara-se deste ltimo trabalho,,utilizando
para isso a pele do urso que tinha curtido  maneira dos
esquims do Grande Norte, raspando-a e amolecendo-a com leo
de foca.


                              204


  Joo Pedro, que o ajudava, ficara estupefacto com o seu
tamanho impressionante.
  - Que superfcie! - disse ele a Koublack. - Podia fazer um
sobretudo s com uma pata...
  - Sim, para matar um animal como este com um par de braos e
quase o sufocar,  preciso no ser maneta, podes crer. No h
muitos bravos neste mundo capazes de fazer outro tanto.
  KQuando eu contava oito anos, descemos para o Sul, meu pai,
os meus dois irmos mais velhos, minha me e eu. As renas
tinham deixado a nossa regio e era preciso emigrar para no
morrermos de fome. Toda a tribo seguia a mesma pista, com
intervalos mais ou menos grandes. Lembro-me de que encontrmos
um urso, mais pequeno e mais fraco que este, no entanto,
acabou com os dois homens do tren que nos precedia e com os
doze ces de tiro que j tinha devorado em parte.
  Devia ter surpreendido o grupo seguindo a tctica habitual
daqueles animais, os mais fortes de todos os que vivem nos
gelos; mas eles tinham tido tempo de se defenderem.


                              205


  O dardo do kakivok marcara profundamente a sua carne.
  - Matou-o?
  - Sim. Meu pai e os meus irmos eram ptimos atiradores ao
arco. No entanto foram precisas vinte flechas para o abater.


                              XI


     E a viagem recomeara. Mone, enfiada no seu saco de pele
de urso, com os cobertores por cima, estava deitada no tren
que tinham aliviado de tudo o que no fosse estritamente
indispensvel.
  Tambm tinha sido preciso modificar os arreios de Loux para
que as correias no passassem por cima das feridas ainda
sensveis.; As etapas eram mais curtas por causa do co, que
ainda no recobrara foras, e, sobretudo, por causa de Mnica,
que os solavancos do gelo mortificavam e fatigavam.
  Uma vez, durante uma paragem, Joo Pedro viu-a soluar.
  - Ento como vai isso, Mone?
  - Creio que vou morrer, Joo Pedro, as minhas costas
queimam, no tenho foras, nem vontade e no posso dormir. Se
eu morrer e vocs se salvarem, diz aos meus pais para ficares


                              207


com eles, diz-lhes que s meu irmo, que  a minha ltima
vontade!
  - Tu s louca! No vais morrer...
  - Creio que sim, sinto-me to mal; isto no pode durar e
estou muito fraca.
  Joo Pedro pareceu reflectir por um momento, depois
voltou-se para Mnica:
  - Escuta, tenho uma ideia; Loux no parece sofrer muito e as
suas feridas fecham-se depressa; ele passa todo o tempo a
lamb-las. Talvez que se ele lambesse as tuas fosse melhor;
vamos experimentar.
  O husky, que seguia a conversa, procurava compreender o que
estariam os seus donos a dizer. Enrugava a testa baixa, fixava
os olhos interrogadores no rosto de Joo Pedro e no de Mnica.
Como era difcil apanhar o significado daquele zumbido confuso
e rpido de que os humanos se serviam a cada instante para
comunicarem entre si!
  No entanto, quando o grumete levantou o penso sujo de sangue
coagulado e de lquido seroso que cobria as feridas de Mone,
compreen deu imediatamente o que devia fazer. Passeou o seu
mvel nariz a alguns centmetros dos profundos ferimentos,
cheirou repetidas vezes e comeou a lamber delicadamente.


                              208


  A sua lngua hmida e quente aplicava-se como um tampo de
algodo em rama sobre os stios dolorosos, subia, descia,
lambia no sentido do comprimento, da largura, demorava-se ou,
pelo contrrio, fazia pequenas passagens vivas e ligeiras.
  Depois deste tratamento original, a doente dormiu melhor e,
da em diante, sempre que se detinham, Loux assumia as funes
de enfermeiro em que fazia maravilhas.
  Se Koublack ou Galtier matavam uma foca, vinham logo trazer
a Mnica um grande bocado de fgado tpido e sangrento.
  - No te faas difcil, pequena - repetia-Lhe Galtier -, 
preciso comer mesmo que no tenhas fome. O mal,  como um
combate entre ti e ele, ganhar o mais forte.  preciso que
nunca o deixes ficar por cima; quando vir que no consegue
nada contigo, vai-se embora;  assim. Aqueles que partem 
porque no tm bastante fora em si para afogarem a doena.
Mas tu s jovem; os teus olhos brilham, o teu corpo est
completamente novo... E, alm disso, o co nunca uivou a
chamar a morte, por isso tens de tomar coragem; dentro em
pouco o teu mal estar de quilha para o ar.


                              209


  Alguns dias mais tarde, quando os nufragos se aprontavam
para deixar o igloo e meterem-se a caminho, Koublack, que
estava l fora, chamou-os:
  - Eh! Eh rapazes! Venham, venham, venham ver depressa!
Apressem-se!...
  Joo Pedro deslizou para fora; Galtier, que o seguia,
tropeou com a precipitao no bordo do estreito orifcio da
entrada, que cedeu ao seu peso. Desequilibrou-se com o choque
e estatelou-se sobre o gelo, praguejando:
  - Com mil demnios! Quem  que se lembra de fazer buracos de
ratos para entrar e sair duma choa? Se isto ainda tem de
durar muito tempo, vou ser obrigado a viver a quatro patas
como as feras...
  Joo Pedro e o esquim olhavam para o ar; na direco de
nordeste e pareciam muito interessados no que viam.
  Galtier foi ter com eles.
  - Palavra de honra! Ou estou vesgo ou vocs tm vises...
  - Aqueles pontos negros que vo l em baixo - disse
Koublack.
  - Ah! sim, so pssaros a voar.


                              210


  - So oideres,(1)  Galtier!
  - E ento, vieram dar-te os parabns pelos teus anos ou
conversar acerca da regio?
  - No, mas dizem-me que a terra est prxima. Aqueles
pssaros nunca andam no mar, nem mesmo quando ele est gelado.
  Galtier ficou atnito.
  - Habitei a costa da Gronelndia o tempo bastante para saber
isso. As orlas das toucas e dos fatos das crianas so de l
do oider, e em Scoresby Sund isso vende-se a peso de ouro. Com
o meu pai, meus irmos e os da minha tribo, cacei durante
muito tempo esses gansos para lhes conhecer os hbitos. Agora
a terra est prxima, podem crer...


  Aquela etapa foi um verdadeiro passeio; Loux estava
completamente confundido.
  Galtier no resmungou, maldizendo aquela porcaria de neve;
nem uma nica vez lhe tinham ouvido dizer a sua frse
habitual:
  - Ah! Pensar que h cantos no mundo onde agora faz calor
demais! Koublack, quando voltar, vou um ms para o Midi, no
Vero, meto-me de barriga para baixo sobre a areia quente, 
torreira do sol, como os turistas, e no me mexo mais.


  *1 Espcie de gansos.


                              211


fico ali at que a minha pele esteja negra, queimada, grelhada
como um assado no espeto.
  Um assado ali bem dourado, a queimar. Ai! Ai! Ai! O que 
que viemos fazer para este sujo deserto!
  Galtier tinha cantado uma cano de estribilho montono,
cujas notas discordantes e falsas davam a Loux vontade de
gritar.
  Por trs vezes tinha acariciado o seu focinho e repetido:
  - Vamos, valente animal! s um belo co! um co corajoso!
  Tinha mesmo agarrado numa das correias do tren e Loux fora
obrigado a correr um pouco para esticar a sua trela, to
fortemente ele puxava.
  Quanto a Joo Pedro, tinha-lhe passado os braos em volta do
pescoo e despejado uma onda de palavras amveis. Os seus
olhos riam como outrora quando brincava com ele no Frami. E,
enfim, a prpria Mnica levantara-se sobre os cotovelos e ele
tinha visto o rosto ainda plido iluminar-se com um sorriso.
No entanto julgara que no tornaria mais a ver aquela
deliciosa careta para que tanto gostava de olhar.


                              212


  No dia seguinte, pelo meio-dia, o disco vermelho do sol, que
comeava a elevar-se de novo, ligeiramente, no horizonte,
recortou ao longe um pico nevado que emergiu de repente do
nevoeiro e elevou para o cu plido a sua fronte cintilante.
  Os quatro viajantes pararam para o contemplar. No diziam
nada; a emoo estrangulava-os. A terra estava ali. Por
longnqua e inspita que fosse, tranquilizava, reconfortava,
fazia reflorir no corao a esperana que aqueles
longos meses de angstia tinha dissecado quase inteiramente.
   noite, Koublack no quis fazer o igloo. Joo Pedro falou
em continuarem a andar at de manh. Loux parou, tornou a
partir, deteve-se ainda e partiu de novo. Deteve-se pela
terceira vez sob a mo firme de Galtier.
  - Vamos! Vamos! Que pagode  este? Ainda no samos do
barulho, meus rapazes. Koublack vai construir o abrigo; os
outros cortar a neve como de costume, e depois, todos a
dormir, ou se no eu zango-me.
  - No continuamos? - perguntou Mone ao esquim, que talhava
blocos de neve.


                              213


  - No, Galtier no quer e ele tem um ar decidido, por isso
compreendes, filhinha, no me agrada meter-me de permeio, s
vezes podia dar-me a patada do urso...
  Mnica no pde deixar de rir.
  - Tu ris? Ora  isso que eu queria; quando se ri, sara-se
mais depressa...


  Nos dias seguintes, a montanha apareceu vrias vezes por
entre as aberturas do nevoeiro.
  Tinha um explendor majestoso, com os seus afloramentos
primrios negros, amarelos e vermelhos, que alternavam com o
branco da neve.
  Numa pausa que demorou alguns minutos, Loux fez uma
descoberta que pareceu entusiasmar os donos. Apesar de ter
empregado toda a sua boa vontade, no conseguiu partilhar a
alegria que eles sentiam.
  Aquela pequena coisa castanha que o seu faro tinha
descoberto sob a neve e que expusera  luz do dia com uma
patada, provocava geralmente o furor dos homens. Apanhavam-na
com nojo nas suas ps para a lanarem longe. Mes aqueles trs
simpticos companheiros e a sua bondosa dona obrigaram Loux a
ir tratar de assunto l fora.
  Ora hoje, l estavam todos trs inclinados para aquilo como
se fosse um bom prato de peixe fermentado.


                              214


  Galtier tomara mesmo entre as mos aquele horrvel dejecto,
amarelado e tinha-o aproximado do rosto, do nariz,  claro que
estava gelado, mesmo assim passava-se decerto algo de anormal.
Loux bem desejaria saber o que  porque algumas palavras eram
das que geralmente se aplicavam a ele:
  - Digo-te que  excremento dum husky, Galtier,  mesmo uma
bela bosta de husky, e no tem muito tempo se no estava
branca.
  - Eu no sou muito competente no assunto, mas v-se que a
bestinha que fabricou isso comeu a sua conta. Deve haver uma
aldeia esquim no muito longe...
  - Se o tren passou recentemente por aqui, Loux depressa
encontrar a pista. Vamos, a caminho - cortou Koublack.
  Ainda no tinham percorrido cinquenta metros quando Joo
Pedro, que passara a ir  frente, se ps a gritar:
  - Esto aqui! Os sinais do tren e das botas, v-se muito
bem, olhem.
  Desta vez, Loux compreendeu a razo do entusiasmo dos seus
amigos, O cheiro que lhe penetrava pelas narinas dizia-lhe que
por ali tinham passado homens, com ces, vrios ces.


                              215


Se pudesse falar, teria explicado que os sinais no tinham
mais de vinte e quatro horas, teria precisado de que tipo de
homens se tratava e de que categoria de ces. Teria podido
indicar o seu nmero aproximado e propor alcan-los visto no
estarem a mais de doze horas de bom andamento.
  Infelizmente no conseguia revelar essas coisas aos seus
companheiros, que se obstinavam em olhar ao longe. De que 
que isso lhes servia? E para qu tanto falar? Era melhor que
pusessem o nariz sobre os sinais, ali, ali, como eu fao,
vamos...
  Mas no, decididamente os homens so duma raa especial; o
nariz s lhe serve para se assoarem...
  Que espcie engraada, por vezes incompreensvel mesmo para
um co animado de toda a sua boa vontade!
  Foi preciso parar e construir o igloo pela   centsima vez.
   De noite, levantou-se de repente uma tempestade de neve.
Havia muito tempo que isso no se verificava e Loux pensou que
chegava mesmo na altura.


                              216


Foi deitar-se, de costas voltadas para o vento de maneira que
a neve se infiltrasse por entre os plos espessos. Ia
  ser uma hecatombe de pulgas, ficaria livre dos
  parasitas que se tinham multiplicado de maneira considervel
entre o seu plo quente. S ficariam alguns sobreviventes que
se saberiam esconder nos refegos do seu corpo, exactamente
os necessrios para uma pequena coadela normal.
  Por duas ou trs vezes, os donos puseram o nariz de fora mas
no insistira. No se via a um metro de distncia e as rajdas
daquela farinha picante fustigavam os olhos, gelavam
as faces, paralisavam os gestos.  Era preciso esperar. A calma
no tardaria a voltar... E pela centsima vez retomram o
caminho.. Os nufragos lvaram mais de duas horas a encontrar a
pista; o prprio Loux estava desorientado; a borrasca tinha
levado o cheiro e coberto os sinais ; mas os donos
possuam faculdades que escapavam ao co e o enchiam de
admirao pelos seus amigos bpedes. Tiraram dos seus crebros
concluses inesperadas e, mesmo sem farejarem coisa alguma,
encontraram o caminho. A lua e o sol ajudavam-nos, a forma do
terreno tambm.
  - S podem ter seguido esta direco.


                              217


- esplicou Koublack. -  direita e  esquerda,  impraticvel.
  - De qualquer maneira,  preciso seguir para sudoeste -
disse Galtier. - Reparei ontem, quando o sol atingiu o ponto
mais alto, na situao da montanha, est ao sul para
sudoeste...
  E eles avanavam, avanavam, avanavam sempre.
  Num dado momento, Joo Pedro, que acabava de contornar um
montculo, voltou correndo para o grupo, gesticulando e
gritando:
  - Vi um pequeno moinho de vento, um molinete...
  Muito agitado, descrevia com um gesto u crculo no plano
horizontal.
  - Um molinete? Um moinho de vento?
  - Sim, como se fossem ps negras a girarem em torno de um
eixo.
  - E igloos?
  - No se pode ver, h um talude que tudo esconde, mas
certamente existem habitantes.
  Chegados ao cimo da eminncia, Koublack e Galtier viram o
molinete.
  -  um instrumento para medir a fora do vento - disse o
marinheiro. J conhecia aquilo.


                              218


  - Olha! O que  que brilha l adiante?
  - Um mastro e uma antena de rdio... Vamos! Mais um esforo,
rapazes! Creio que estamos a chegar ao fim...
  Da estao saram uns homens que vinham ao seu encontro.
Desde h meses que os nufragos imaginavam aquele momento
fatdico.
  Tinham-se visto correr ao encontro de semelhantes seres, de
qualquer raa que fossem, estreitando-os nos braos, gritando
a sua alegria e o seu triunfo, e agora que esses homens
estavam ali, perto deles, ficavam estupidificados. A emoo
paralisava-os, tornava-os incapazes de fazerem um gesto
espontneo ou de dizerem uma palavra.
  Os recm-chegados interrogaram-nos em vrias lnguas e,
vendo que eles no compreendiam, um deles perguntou em
francs:
  - Quem so vocs, e de onde vm?
  Galtier fez um esforo para responder:
  - Somos franceses naufragados, andmos  deriva sobre um
bloco de gelo do Spitzberg... Temos uma pessoa ferida
connosco.
  - Do Spitzberg!
  A palavra correu de boca em boca:


                              219


  - Vou wo sagst du, von Spitzberg?
  - Ya.
  - From Spaitzberg!
  - Yes.
  A espcie de entorpecimento nervoso que tinham sentido ia-se
atenuando cada vez mais e dando lugar a uma agradvel
impresso de relaxamento. Aquele que tinha falado em francs
foi at ao p do tren e lanou a Mnica um olhar directo e
penetrante. Tirou rapidamente uma luva e com o dedo
afastou-lhe os lbios:
  - Como te sentes?
  - Isto vai melhor, mas estou fatigada.
  -  normal, eu j te vejo no posto.
  Depois, dirigindo-se ao grupo:
  - No fiquem c fora, meus amigos, faam o favor de entrar.
  Enquanto o doutor submetia Mnica a um longo exame mdico
sob o olhar severo de Loux, que teimara em seguir a sua dona
at  sala de consulta e vigiava o clnico com um olhar
atento, Joo Pedro e Koublack, completamente descontrados,
tinham tomado lugar em volta do fogo e deixavam-se invadir
por uma deliciosa sensao de calor.
  Louis Mauclair, engenheiro francs, membro da expedio,


                              220


interrogava-os sobre as peripcias da sua odisseia e dava-lhes
indicaes acerca da misso polar a que pertencia.
  Era um grupo de sbios e tcnicos europeus, encarregados de
investigar as possibilidades de explorao mineira da terra do
Hudson.
  A equipa compreendia noruegueses, dinamarqueses, franceses,
ingleses, holandeses e alemes. O chefe da misso era o doutor
Durosoy, mdico francs, erudito e agudo psiclogo; no
vigiava somente o estado sanitrio, estava tambm encarregado
de estudar os efeitos do clima polar sobre os temperamentos
europeus.
  Inteligente, muito equilibrado, o doutor Durosoy no tivera
nenhuma dificuldade em impor a sua autoridade, tanto mais que
j tinha experincia das regies rcticas e gozava da simpatia
de todos os membros da expedio.
  Quando acabou de examinar Mnica, foi simplesmente juntar-se
ao grupo e nesse momento  que Joo Pedro notou a ausncia de
Galtier.
  - Onde  que ele est? - perguntou o grumete admirado.
  Koublack voltou a cabea e viu atravs do vidro o marinheiro
que se encontrava fora.
  Estava apoiado ao tren e parecia absorto.



  - Onde  que ele estt? - perguntou o grumete admirado.
  Koublack voltou a cabea e viu atravs do vidro o marinheiro
que se encontrava fora.  Estava apoiado ao tren e parecia
absorto.
  - Isto s visto! - disse estu pefacto. - No cessou de


                              221


 repisar que a primeira coisa que faria seria aquecer-se at
grelhar a pele, e agora, que tem fogo e um lume em casa, fica
l fora a gelar.
  - Vou ter com ele - disse Joo Pedro, levantando-se e
enfiando a blusa.
  O mdico deteve-o:
  - No, pequeno, fica a; eu prprio vou l.
  - Ento! - disse o doutor Durosoy, pondo a mo sobre o ombro
do marinheiro. - No vem connosco?
  Galtier voltou a cabea para o recm-chegado e o doutor
notou que ele tinha lgrimas nos olhos.
  - No sei o que me deu - disse; desculpando-se - nunca
estive assim doente; provavelmente a fraqueza... Desde que
chegmos que sinto como que um desgosto que me tolhe todo, e
depois ponho-me a chorar, pior que um mido...
  - Os outros obedeciam-lhe?
  - Sim, isto , pensei que devia tomar comando visto que me
tinham confiado dois garotos, e alm disso, a bordo, como 
justo, segundo a escala, isso cabia-me a mim: Eu no sirvo
para essas coisas; estava sempre a pensar se seria melhor
assim ou assado...


                              222



Estarei a fazer o necessrio?... No recebi muita instruo e
 difcil quando se tem de decidir tudo s pela nossa cabea:
E depois, aqui est, agora que conseguimos
sair disto tudo, que os pequenos e o meu marinheiro esto
salvos, sinto de repente como se uma doena casse sobre
mim,e tenho vergonha de ir para junto dos senhores com os
olhos vermelhos.
  - Dessas lgrimas, meu amigo, nunca ningum se lembrar de
rir, pode crer-me.,  uma reaco natural naqueles que deram
mais do que o que podiam. Melhor do que quaisquer palavras,
elas dizem-me quem voc  e sinto-me orgulhoso de que pertena
ao meu pas. Venha para a estao; sentir-me-ei muito feliz em
apresent-lo aos meus companheiros.
  - O senhor  mdico?
  - Sim.
  - Viu a pequena,  muito grave?
  - Tem uma anemia bastante profunda e fadiga nervosa; mas
asferidas esto a cicatrizar bem, sem infeco. Depressa se
recompor. Receava que tivesse sido atingida pelo escorbuto,
mas no. Ela contou-me que bebeu sangue e comeu carne e peixe
cru; isso proporcionou-lhe as vitaminas indispensveis.


                              223


  - O senhor  que manda aqui?
  - Sim.
  - Ento preciso que me diga o que devo fazer para prevenir
os parentes dos midos. Da outra vez, na Islndia, fui
aldrabado, no quero que isso se repita.
  - No tem nada a recear, vou mandar imediatamente um
radiotelegrama, redigi-lo-emos juntos.
  - Obrigado.
  Galtier, enquanto se dirigia para a estao na companhia do
mdico, perguntou-lhe ainda:
  - Em que ms estamos?
  - A dez de Maro, meu amigo. A Pscoa  dentro de trs
semanas.
  - Bendito seja Deus! Deixmos Bordus pelos meados de Junho,
devem pensar que rebentmos todos.
  - No sabiam que vocs estavam perdidos nos gelos?
  - Creio que no. Na Islndia, o espertalho em casa de quem
estvamos, disse-me que tinha prevenido as autoridades, mas s
de olhar-lhe para o focinho se via que mentia. Ningum deve
ter sabido mais nada de ns depois que deixmos o Frami, no
fim de Junho... a menos que, talvez - acrescentou Gltier.


                              224


- O imediato do Titan tivesse dito qualquer coisa; isso 
possvel, porque aquele, com o seu ar tranquilo, era algum.
  Sim, um cavalheiro mesmo, mas de qualquer maneira, se falou
a nosso respeito, deve ter dito que o Diabo nos levou h muito
tempo e que ele no podia ter feito nada para nos encontrar
nos bancos de gelo.


  Reunidos em volta do posto emissor, Galtier, Joo Pedro,
Koublack e Mnica, que, dada a circunstncia, se tinha
levantado, ouviam partir com um pequeno rudo anasalado as
frases do telegrama que Charly Brent, o operador britnico,
manipulava com uma rpida cadncia.
  - Cryg, cryg crycrycry cryg cryg cryg cry,
cryg...
  - Por que  que no falas ao microfone? - perguntou Joo
Pedro.
  - O Morse alcana muito mais longe.
  Deixou o manipulador e com um movimento preciso encaixou a
alavanca do receptor. Os auscultadores deixaram escapar uma
sucesso precipitada de tiout, tiouty, que variavam do grave
ao agudo  medida que o operador rodava o boto graduado do
condensador mvel.


                              225


  De repente, agarrou no lpis e ps-se a escrever.
  - J est! Esto a responder! - gritou Mone, radiante.
  - Kip saYlent! - cortou a voz severa de Brent.
  No se ouviu mais que o silvar aflautado do Morse. Quando
parou, Charly estendeu a mensagem escrita em ingls ao doutor
Durosoy, que a traduziu instantaneamente.
  - Posto noruegus de Stavanger - stop - Mensagem bem
recebida - stop - Destacamos imediatamente membro direco da
estao para contactar famlia - stop - Resposta e telegrama
eventuais s horas de contacto.
  Foi preciso esperar pacientemente durante dois longos dias,
pesados de apreenses e angstia. Os homens da misso polar,
cada um segundo o seu temperamento, a sua educao  e os
costumes do seu pas, esforaram-se por  atenuar o sofrimento
moral que aquela longa espera provocava nas duas crianas.
  E depois foram as lgrimas, essa frgil reaco da natureza
humana que traduz expontneamente e com uma comovente
sinceridade, a intensa dor assim como a imensa felicidade, que
correram dos olhos de Mnica e de Joo Pedro quando Brent,


                              226


tirando os auscultadores, lhes disse:
  - O paizinho e a mezinha de vocs, o irmo de Jack, beijam
muito. O old capten tambm. Eles esto todos de muito boa
sade.
  O doutor Durosoy, que tinha terminado a leitura da mensagem,
acrescentou:
  - Um avio vir aqui busc-los, logo que as condies
atmosfricas sejam suficientemente favorveis.
  Depois, voltando-se para Galtier, que em silncio olhava
para o cho, disse lentamente:
  - O comandante Kermeur faz igualmente saber que est
encarregado pelo governo francs de enviar ao chefe do grupo,
Paul Galtier, a cruz de cavaleiro de Mrito Martimo.
  Mnica, que continuava a chorar, levantou-se da cadeira de
viagem onde repousava e foi abraar com fora o marinheiro,
enquanto Joo Pedro, cujas faces estavam ainda hmidas de
lgrimas, batia as mos gritando:
  -Bravo, Galtier! Bravo, Galtier!
  Galtier, um pouco incomodado e profundamente emocionado,
pela estima e pelo afecto sincero que lhe testemunhavam,
repetia para se conter:
  - Ora ento!... Se eu esperava uma destas!...


                              227


Ora ento, nunca teria acreditado...
  Brent ps fim  manifestao da sua timidez, comandando com
a sua voz seca e autoritria:
  - Pelo chefe do grupo e seus sympathical companheiros hip
hip hip! Hurrah! Hip Hip Hip! Hurrah! Hip Hip Hip! Hurrah!
  Loux no compreendia muito bem o que se passava; mas, ao ver
os olhos dos seus donos, adivinhou que sentiam uma grande
alegria e um grande orgulho; por isso foi tambm, muito
dignamente, colocar-se em frente deles, sentado nas patas
traseiras, com as patas da frente bem esticadas e a sua bela
cabea perfeitamente erguida como convm a um nobre co de
raa husky que cumpriu corajosamente o seu dever.


                              228


                              XII


     OS sinos repicavam no ar morno e dourado daquela tarde de
Setembro; a multido comprimia-se na praa e no adro para ver
passar a procisso.
  Bum, baciabum, balum, balan, dulum, blam...
  Os estandartes inclinavam-se sob a ogiva da porta da
Baslica de Nossa Senhhora do Folgot; os de seda branca,
levados pelas raparigas do Lio, com as suas coifas
envolvendo-lhes as cabeas como capuchos e com os longos
xailes bordados; os de veludo vermelho, altos e largos como
velas, mantidos  mo pelos homens de blusa solta, de calas
estreitas no joelho e largas na base, com o tradicional cinto
de l azul e cinzenta enrolado em torno das ancas,  maneira
de um turbante.
  Eis outro grupo de mulheres transportando uma imagem da
Virgem; so encantadoras sob o ligeiro chapu cnico que Lhes
d um porte de rainhas: O sol de fim de Vero prende-se nos
refegos dos seus ricos trajos, de doces cores de Outono,


                              229


ou vivas, audaciosas, como as dos fatos das raparigas de
Plougastel, que desfilam cantando o velho cntico breto 
Nossa Senhora:


  Patronez douz ar Folgot Hor nnam hag hou Introun...


  Um pouco de vento faz voar fitas verdes e violetas em torno
dos seus cabelos negros ou louros.
  - O que  que eles dizem? No se compreende absolutamente
nada - declara em voz alta uma dama que se encontra na
primeira fila dos espectadores, entre o marido e o filho, um
mido de cerca de oito anos.
  -  a lngua da regio - responde o homem. - No procures
compreender, contempla antes o espectculo. Como isto, s se
pode ver aqui.
  O rapazinho olha com interesse para o cortejo que se dirige
lentamente, recitando preces, para o oratrio de granito. A
sua ateno em breve  atrada pelo modelo de um lugre
transportado por quatro marinheiros. Um deles  muito mais
alto e mais forte que os outros; o seu arcaboio forma sob a
camisola azul um tringulo impressionante onde os msculos
levantam, nalguns stios, o tecido de l. O outro, a seu lado,
 uma estranha figura de mongol de plpebras semifechadas,



                              230


como a de um gato que espreita o rato.
  Atrs vo dois jovens: um de cabelos castanhos
encaracolados, e o outro com uma gaforina cortada em escova.
  Ao seu lado caminha um co; de repente a criana aperta a
mo da me:
  - Maezinha, maezinha! Eles vo descalos...
  Mas a jovem senhora s tem olhos para o husky:
  - Oh! que soberbo animal, Gerardo - diz voltando-se para o
marido. - Quero um co como aquele; compra-lho.
  - Maezinha - continuou a criana - por que  que eles vo
desclos?...
  - Olha, com efeito,  curioso, Gerardo, passa-me a mquina
fotogrfica.
  - No, querida, fazes-me sentir vergonha. H actos que, para
alm de tudo, impem respeito.
  Vendo que no se ocupavam dele, o rapaz interrogou um
vizinho, um jovem louro que tomava notas numa agenda e parecia
ser jornalista. Tambm ele seguia com os olhos o navio que se
afastava, embalado pelo ondular dos passos.
  - O senhor sabe por que  que eles no levam sapatos?


                              231


  - Cumprem uma promessa  Virgem Santa, uma promessa feita
num dia em que julgaram morrer, numa regio que fica muito
longe daqui. Fizeram trinta e cinco quilmetros descalos e
trazem aquela insgnia em testemunho de reconhecimento.
  - O co tambm estava com eles?
  - Sim.


  O cortejo alcanava agora a igreja... Budum bum, budumbum,
budum...


     Teu hag hir es ar Brezel
     Ar peoc'h o Maria!...


  O lugre voltava, a criana fixava os seus grandes olhos
sobre os quatro portadores. No pareciam ver ningum, nem o
Senhor e a Senhora Mercier, nem Jacques Biard, nem o
comandante Kermeur. Caminhavam sem se importarem com os
olhares nem com as feridas dos ps. O que era aquele
sofrimento comparado com as longas e desumanas jornadas que
tinham conhecido?
  - Onde  que eles se encontravam quando fizeram essa
promessa?
  - Nos bancos de gelo, meu rapazinho, pela altura do paralelo
oitenta, norte, no pas dos eternos horizontes brancos.


                            NOTA


  - Estes relatos, assim como o de Daniel, no so imaginrios
mas autnticos. O Esseay tinha por comandante o capito
Pollard, de Nantucket, e o imediato chamava-se Owen Chace.
  Aps o acidente contado por Daniel e que se produziu em
Novembro, os homens, nos escaleres, no vendo nenhum navio,
fizeram-se de vela e atingiram um ilhu rochoso e deserto:
Ducie, a 25 graus de latitude Sul e 12 graus de longitude
Oeste.
  Uns marinheiros ficaram a, os restantes tornaram a fazer-se
ao mar.
  Um dos escaleres foi visto, dois meses aps o drama, por um
baleeiro americano; e os infelizes nufragos foram recolhidos
a bordo.
  O segundo escaler s foi encontrado por um outro baleeiro
americano noventa dias depois de ter deixado o ilhu Ducie. De
todos os homens que constituiam a sua tripulao s restavam a
bordo o capito e o grumete.


                              233


Os outros pereceram.  doloroso dizer que tinham
sucessivamente servido para prolongar a vida dos seus
camaradas.
  Tinham tirado sortes pela ltima vez nesse dia e o grumete
perdera; o encontro com o navio americano salvou-lhe a vida.
  Os marinheiros que tinham ficado no ilhu Ducie foram salvos
mais tarde por um barco proveniente de Valparaiso, comandado
pelo capito Reine, da Nova Gales do Sul.
  Encontravam-se num estado de depauperamento e magreza
espantosos, tendo vivido apenas de gros e razes.
  Quatro meses aps o acidente do Ann Alezander, que tinha
sido comandado pelo capito De Blois, de New Bedford, um
cachalote ainda vivo, embora um pouco enfraquecido, foi
capturado pelo brigue Rebecca Sins. Trazia na cabea grandes
bocados de madeira provenientes da quilha de um navio.
Profundamente enterrado na sua carne encontrou-se um arpo
onde estava gravado, segundo o uso da poca, o nome do
baleeiro, Ann Alexander.


                              232


  A vtima do terceiro acidente relatado e que se produziu
perto do Georgs Banks, era o filho do capito Clark, de
Boston. Encontrava-se  proa do escaler, segurando o arpo.
Foi atirado ao ar. Quando caiu, o cachalote apanhou-o entre as
mandbulas. Uma parte do seu corpo foi vista sair da boca do
animal quando ele se voltou antes de desaparecer.
  Estes factos so relatados por: Andr Mauguin, Trs anos de
pesca  baleia, dirio de bordo do capito baleeiro Dutom, de
Barfleur; F. B. Goodrich, Man upon the sea; Ch. Boardmann,
Whaling.
  No so nicos. Outros do mesmo gnero so mencionados nos
dirios de bordo dos baleeiros. Por exemplo, o acidente
ocorrido com a Paulina, do Havre. Muitos outros, e entre eles
o do Esseg e o do capito Clark, citados por ns, foram
igualmente relatados em revistas e jornais franceses e
estrangeiros da poca. O autor limitou-se a no citar as datas
exactas para conservar a homogeneidade do romance.



                              FIM



                    Amadora, 28 de Abril de 1999



